Entre a Verdade e o Sonho

Entre a verdade e o sonho

Catarina enrolava-se num cobertor quente, saboreando o silêncio pacato do seu apartamento em Coimbra. Lá fora, a chuva miudinha caía a um ritmo quase meditativo, escorrendo preguiçosamente pelo vidro, como se dançasse um fado subtil na noite de inverno. Ela tinha acabado de regressar da última prova do vestido de noiva um momento digno de sorrisos nervosos e ainda segurava o saquinho de acessórios que escolheu: uns brincos delicados de prata, uma tiara discreta e outros pequenos detalhes que faziam parte do seu kit de princesa por um dia. Os pensamentos dela estavam completamente embrenhados na festa que se aproximava: imaginava-se, vestida de branco, com as luzes a cintilar nos seus brincos, e toda a família a olhar numa misto de admiração e aquela invejazita saudável das tias.

O sossego do fim de tarde foi interrompido por uma campainha estridente. Catarina estremeceu e apertou o cobertor ao peito quem será a esta hora? Olhou para o relógio: faltavam dez minutos para as sete. Podia ser o carteiro? Ou talvez a vizinha do 3º esquerdo, sempre a perder as chaves, a precisar de ajuda outra vez?

Aproximou-se em bicos de pés e espreitou pelo olho mágico nada! Só um vulto alto, encapuçado. Por muito portuguesa que Catarina fosse, abrir logo a porta estava fora de questão.

Quem é? perguntou, tentando manter a voz firme.
Sou eu, Tiago respondeu da rua uma voz semi-abafada pela porta. Preciso de falar contigo. É da máxima urgência.

Catarina hesitou. Não que apetecesse propriamente conversar com o Tiago, mas a amiga Ana bem podia ter metido-se noutra embrulhada à conta dele Acabou por rodar a chave e entreabrir a porta. Tiago estava ali, encharcado, com o cabelo colado à testa e o sobretudo a pingar no chão claro de madeira recém-encerada. O olhar dele estava meio tresloucado, daqueles que fazem uma rapariga recuar um passinho e pensar valha-me Nossa Senhora.

Anda, entra, se não ficas constipado disse ela, afastando-se, a tentar disfarçar o incómodo. Fechar-lhe a porta na cara parecia-lhe feio, caramba.
Tiago entrou sem sequer descalçar os ténis, distribuindo lama pelo soalho como quem semeia oliveiras em Trás-os-Montes. Não parecia notar coisa nenhuma, com os olhos a vaguear perdidos noutra galáxia. Catarina fitava-o, desconfiada, o coração numa montanha russa.

Catarina, já não aguento mais começou ele, apertando as mãos nas luvas. Eu gosto de ti! Aliás, amo-te!

Foi como se alguém tivesse batido com uma sertã no soalho.

Tiago, tu tentou ela, mas a voz traiu-lhe, ficando presa entre o espanto e a vontade de rir, de tão surreal.

Ele avançou, determinado a deitar tudo cá para fora antes que o cérebro dissesse desliga.

Eu sei que vais casar. Sei que isto é uma maluquice pegada. Mas já não consigo guardar tudo dentro de mim! Tentei esquecer-te este tempo todo, mas é como tentar fazer dieta em época de Natal Com a Ana comecei a sair só para te ter mais por perto. Nunca gostei dela, nunca.

A sensação gelada subiu-lhe pelo corpo acima. O quê? O homem tinha usado a amiga dela como escada para a chegar a ela? Tão típico que até dava vontade de chamar os GNR para um acerto de contas emocional.

Ela pousou o cobertor no espaldar da cadeira, como quem tenta devolver alguma lógica a um mundo que andava de pantanas. O ar parecia mais denso, como numa pastelaria em hora de ponta.

Tiago Tu ouves-te a ti próprio? Eu vou casar! Gosto do André! Passámos meses a planear este casamento, a sonhar juntos E a Ana?

Ele assentiu, o olhar colado no dela, mas com uma vibração de quem finalmente tirou das costas uma mochila cheia de pedras.

Eu sei. Mas se não dissesse nada agora, arrepender-me-ia o resto da vida. A Ana olha, para mim não é ninguém. Desculpa, mas é verdade!

Catarina ficou de pedra. Só faltava o em boa verdade, fui ao IKEA contigo porque era dia de promoções.

A voz dela saiu estranhamente afastada, como se estivesse ali só por obrigação:

E tu achas isto normal? Como é que te atreves sequer?

Só estou a ser honesto! insistiu ele, com ar de mártir do século XXI. A Ana era só o acesso à tua vida. Pensei que talvez algum dia olhasses para mim e percebesses que sou o homem que te faria feliz. Sem ti, não sei o que fazer

Em vez de violinos ao fundo, Catarina só ouvia o som imaginário do seu soalho novo a ficar arruinado por aquelas botas enlameadas.

Tiago tombou de joelhos, puxou do bolso uma caixinha nem uma prenda de Natal da Casa das Prendas era tão inconveniente naquele momento e mostrou-lhe um anel com um brilhante minúsculo.

Larga tudo, vem comigo. Prometo fazer-te feliz, Catarina!

Ela não disse nada. Só via flashes do Tiago a rir-se com a Ana nos jantares, a segurar-lhe a mão com aquele carinho todo, e agora a perceber que era tudo encenação barata. Que grande novela da TVI, pensou.

Levanta-te, por favor pediu ela, num sussurro.

Tiago pôs-se de pé devagar, com uma esperança quase patética a encher-lhe os olhos.

Não acreditas em mim?

Acredito, mas não interessa. O tom dela era calmo, decisivo. És meu amigo, Tiago, apenas isso. Vou casar porque quero, porque escolhi o André. E não preciso de ninguém além dele.

Ele baixou os olhos, voltando a apertar o anel na mão.

E se eu tivesse dito mais cedo? Antes de o conheceres?

Catarina ficou um instante a pensar, e respondeu com uma sinceridade tão portuguesa como pastel de nata:

Era igual. Nunca te vi como marido, nem nunca conseguiria. És bom rapaz, sim… mas não és o meu género.

Tiago avançou mais um passo, claramente a lutar por um milagre de Fátima.

Mas tu também Eu já vi como olhas para mim. Sei que há qualquer coisa aqui!

Ela recuou na direcção da porta, só faltava alguém começar um daqueles confrontos épicos do Benfica-Sporting.

Não há nada entre nós, Tiago. Isso é só uma fantasia tua. Fizeste da minha amizade uma novela mexicana, em que eu sou protagonista e toda a gente serve de figurante. Chega desta conversa.

Ao contrário do que parecia no início, ele não estava zangado, só desesperado de quem sabe que está a perder o último autocarro para a felicidade.

Não invento nada! Nunca senti isto por ninguém!

Catarina mordeu o lábio, com vontade de telefonar para a Ana já com antecedência.

E a Ana, Tiago? Tu sabes que a magoas, não sabes? Usaste-a como isco e agora vens aqui pedir-me para atirar tudo para o ar por tua causa?

Sei que errei Mas, sinceramente, não mudava nada! Preferia isto, a nunca ter tentado!

Não se constroem sonhos em cima de mentiras retorquiu ela, lançando um olhar ao telemóvel que repousava na mesinha. E tu nem me conheces. Apaixonaste-te por uma imagem. A realidade não é assim tão cor-de-rosa.

Deu-lhe um tempo para digerir, depois concluiu:

Devias falar com a Ana. E tens de lhe pedir desculpa, Tiago.

Ele ficou imóvel, os dedos a tremer ligeiramente.

E para quê? Não gosto dela. Só me irrita! Tu és diferente

Catarina quase teve pena. Mas lembrou-se logo que confundir pena com amor é um erro ainda maior que esquecer a bica no balcão.

Comigo não resulta, Tiago. E com a Ana muito menos. Achas mesmo que vou ficar calada?

Ele fixou nela aquele olhar de cão perdido dos filmes franceses, depois murmurou:

Eu vou embora. Mas vou esperar, Catarina. Vais ver que um dia vais perceber que fomos feitos um para o outro.

Faz-me um favor e não esperes, nem queiras. Vive a tua vida e apaixona-te por alguém real, desta vez. Agora podes sair, por favor?

Tiago marchou até à porta, cada passo mais pesado do que o anterior. Já no corredor, virou-se e, com drama digno de álbum da Amália, disse:

Obrigado pela sinceridade. Mas não digo adeus.

E saiu, a porta fechando-se com um click demasiado satisfeito para o gosto dela. Catarina voltou finalmente a respirar. Espreitou pela janela: a Rua dos Combatentes estava deserta. Tiago afastava-se com ar de quem tinha acabado de perder o euro milhões. Que azar o dela, logo agora!

Puxou do telemóvel, passou a lista de contactos e pressionou o nome da Ana, o coração aos pinotes.

Ana, precisamos de conversar. É sério.

Do outro lado, o barulho de papéis a serem postos de lado. Voz preocupada, típica de quem adivinha sarilho:

Que se passa? Pareces nervosa. Está tudo bem?

Catarina inspirou fundo para não parecer uma daquelas tias dramáticas.

O Tiago acabou de vir cá. Confessou-me que só começou contigo para chegar a mim. Disse que nunca gostou de ti, que só fui eu o interesse dele.

O silêncio que se seguiu foi espesso como calda de ovos moles. Finalmente, a amiga respondeu, com voz rasgada:

Nem sei o que dizer Ele a sério?

Desculpa, Ana. Odeio ser eu a dar-te esta notícia. Mas és minha amiga e não poderia não contar. Ele ainda por cima veio pedir-me para largar o André por ele! Eu nem me senti segura de estar com ele em casa!

Nova pausa. Ana respirou fundo, voz a sair trémula mas digna:

Está tudo bem. Obrigada por me teres dito.

Lamento mesmo. Não merecias isto.

Antes uma verdade amarga do que viver na ilusão. Já dizia a minha avó.

Despediram-se. Catarina ficou agarrada à janela, a ver a chuva pintar Coimbra em tons cinzentos. Lá fora, duas pessoas tentavam juntar os cacos de um romance, e ela só podia esperar que algum dia a amizade delas sobrevivesse.

Os pensamentos circulavam como eléctricos em hora de ponta. Imaginava a Ana a digerir tudo aquilo, a repensar meses de alegrias e planos. Mas sabia: mais vale uma verdade à portuguesa crua, direta, e sem paninhos quentes do que um engano com prazo de validade.

************

Nessa mesma noite, Ana ainda estava sentada na cozinha, com a chávena de chá frio à frente e olhos perdidos nas linhas da toalha de mesa. Que raio de novela, pensava ela, com a sensação de que a cidade toda ouvia o tilintar trágico da colher na chávena. Só ouvia o tique-taque do relógio, o tempo a passar, a confirmar que, apesar de tudo, a vida não parava.

O toque na campainha devolveu-a ao presente. Era quase sempre ela a receber visitas-surpresa, mas aquele tim-tim só podia ser o Tiago.

Abriu a porta e lá estava ele, palidez de quem tinha estado a discutir com a consciência e perdido. O cabelo ainda húmido, sobretudo a ficar manchado pela chuva, olhar meio desalinhado.

Ana, preciso de te contar tudo. Eu nunca

Não precisas interrompeu ela, sem rodeios de telenovela. A Catarina já me disse tudo. Não vejo como me possas surpreender.

Tiago ficou mudo uns segundos, a processar a derrota. Depois levantou a mão como quem ia pedir perdão, mas ficou pelo caminho. O único som era o dos pombos no beiral.

Ela ligou-te murmurou. Eu esperava conseguir explicar-me antes.

Ana cruzou os braços, a tentar manter alguma dignidade no cenário de desaires sentimentais.

O que vieste cá fazer? Repetir as cenas que fizeste à Catarina? Vieste garantir que me sentisse só um trampolim emocional?

Não, vim pedir-te desculpa. Fui desonesto, magoei-te. Quero que saibas que lamento mesmo.

Ela ficou calada; era difícil perceber se preferia atirar-lhe o chá frio à cara ou rir-se do insólito da situação.

Podias ter sido honesto. Podias ter ido atrás da Catarina, vez de fazer estas figuras. E depois ainda esperas que eu tenha pena?

Ele deu de ombros, quase a gozar consigo mesmo.

Só descobri agora que estava a perder-lhe o rasto. Não pensei, arroz doce queimado antes de estar pronto.

Tirou uma caixinha do bolso ainda o anel e estendeu-lho à Ana como se fosse o último naperão da avó.

Fica com isto, pronto. Um pedido de desculpa tardio.

Ana olhou para o anel como se fosse uma joaninha caída numa fatia de pão. Para quê, ó Tiago? Lembrou-se de todas as vezes que ela pensou que podia ser a tal. Agora via tudo tão cristalino como os copos do serviço bom.

Guarda isso, não preciso nem quero nada de ti.

Ele chegou a fechar a mão e ficou de novo quieto.

Só quero tentar recomeçar, desta vez sendo honesto, Ana.

Ela abanou a cabeça, serena como quem acaba de decidir mudar de canal.

Só se recomeça com quem se confia. De ti, já não acredito em nada. Passaste o tempo a representar até o amo-te pareceu uma linha decorativa. Agora, preciso de distância, de tempo, de não ouvir falar de ti. Já não há nada para consertar.

Tiago ficou a olhar para o chão, anel perdido entre os dedos.

Perdoa-me

Ia sair, mas a campainha tocou de novo. Quem seria agora, a sorte grande?

Ana olhou pelo buraco da porta e quase gelou: era o André. O André, noivo da Catarina, com os traços frios e magros de quem resolve problemas sem precisar de muitas palavras. Entrou directo, nem boa noite, nem sorrisos.

Posso entrar? disparou.

Ela abriu passagem, reparando que Tiago murchava no canto da sala. André olhou-o, cheio daquela calma sinistra dos tipos do Norte.

Sei o que andaste a fazer. Às duas.

Tiago abriu a boca para argumentar, mas André corto-lhe logo o pio:

Cala-te. A Catarina contou-me tudo. E com certas coisas não há paninhos quentes: resolvem-se de frente.

Aproximou-se, duro como varão de cortinado, e Tiago instintivamente recuou.

André, deixa estar balbuciou Ana, o coração já aos saltos como numa tourada. Tinha pena, bolas, mas entre pena e dignidade a escolha era fácil.

André nem pestanejou.

Não é contigo! Está mais do que na hora de este senhor perceber o custo das cenas que montou!

Tiago encostou-se quase à parede. Agora o passado parecia-lhe um daqueles discos pedidos maus: devia ter pensado melhor antes de se meter. André não vacilou um soco certeiro e Tiago tombou, a lamber a ferida recém-adquirida no lábio e a perceber que se calhar os romances portugueses são menos românticos mas muito mais práticos.

Isso é só o começo. Se voltares a aparecer perto da Catarina ou da Ana, a coisa corre-te pior. Fui claro?

Tiago acenou, lambendo o orgulho ferido. Fitou a Ana, a ver se apanhava ali um bocadinho de compaixão, mas ela já estava mais gelada que uma cerveja Sagres.

Saiu da casa, já sem vontade de dizer mais nada. Fez-se silêncio.

André virou-se para Ana, a expressão já menos tensa.

Desculpa, mas há situações em que só assim é que aprendem. Não gosto, mas foi necessário.

Ana olhou-o, ainda meia atarantada, mas agradecida. Sentia-se protegida, mesmo não gostando de cenas.

Não tinhas de fazer nada, mas pronto, obrigada. Precisei.

André acenou com um sorriso breve.

Vais superar isto. És forte, Ana.

Ela sorriu, não por heroísmo, mas porque percebeu que era mesmo.

Obrigada. E obrigado por cuidares da Catarina.

Com o silêncio a instalar-se outra vez e o cheiro da chuva a entrar pela janela, Ana finalmente sentiu a tempestade interior acalmar. Só precisava de tempo, o segredo português para tudo o tempo é o melhor remédio, já dizia a tia Rosária.

Quando André se foi embora, Ana afundou-se no sofá. Já chega de dramas, pensou. E, com uma calma estranha, percebeu que não era o fim do mundo só o fim de uma má novela.

**********

Naquela noite, Tiago vagou pelas ruas de Coimbra sem sentir o frio nem notar os sinais de trânsito. Sobram-lhe as dores do lábio e a certeza que já ninguém o ia pôr nos créditos finais da história. Tinha perdido tudo: Ana, Catarina, e o autocolante de bom rapaz que tanto defendia. Amanhã seria outra cidade, um novo começo.

No dia seguinte, apresentou ao chefe o pedido de transferência para o Porto. O chefe ergueu as sobrancelhas como se tivesse visto um bacalhau a dançar a valsa, mas assinou sem perguntas.

Antes de viajar, ainda passou pela ourivesaria a devolver o anel. O funcionário olhou-o como quem vê uma anedota pronta a acontecer, mas ninguém fez perguntas. Com o reembolso, transferiu o dinheiro para a conta da Ana: Desculpa. É justo.

Na manhã da partida, esperou pelo táxi na calçada, Coimbra a acordar devagar sob a chuva miúda. Respirou a fundo, uma última vez. Estraguei tudo, murmurou, mais como confissão pessoal do que lamento. O táxi chegou. Ele entrou e seguiu para a estação, sabendo que recomeçar é verbo difícil, mas português como o fado.

Nesse mesmo dia, Ana estava com Catarina e André numa pastelaria com vista para o Mondego, três canecas de chocolate quente em cima da mesa. Falavam do futuro, dos planos para o casamento e Ana até se apanhou a soltar uma gargalhada com uma história tonta do André. Sabia que, entre as histórias novas e as conversas, a vida continuava e era mesmo assim que devia ser.

Sabem, disse Ana a olhar pela janela já não tenho raiva de nada. Só pena que as coisas tenham acabado assim.

Catarina sorriu e pousou-lhe a mão no ombro, sincera como só as amigas sabem ser:

Não tens de sentir pena, Ana. Tu mereces ser feliz. E isto não era para ti.

Ela acenou, sentindo que era finalmente verdade. O pior já tinha passado.

Vou encontrar o meu caminho disse, sem bravatas.

A certeza estava ali, tranquila, como os barcos a deslizar no rio debaixo da chuva. O pior já estava arrumado no passado e Coimbra, como sempre, continuava a girar.

Lá fora, uma chuva miudinha tapava os rastos da novela daquela semana. E o mundo seguia em frente.

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