Passarinha

Passarinho

Valéria! Mas o que demoras tanto? Já estou à tua espera! Senta-te! Ana, vizinha da Valéria Martins, ajeita-se no banco do jardim, procurando a posição mais confortável.

Ora, com uma noite destas! Para quê ficar em casa? Lá só há a televisão e a Pompom, a gata. Que monotonia! Aqui à porta do prédio, sente-se a primavera no ar. Ainda é cedo, só Abril, mas já está tanto calor. Até a cerejeira, que o marido da Ana, o Joaquim, plantou debaixo das janelas, já acordou toda florida. E o banco debaixo dela, que também foi o Joaquim quem fez, já está pronto para receber as vizinhas para a habitual conversa. Sobre os filhos, as maleitas, a vida e o amor.

Sobre o que mais poderiam falar as mulheres? Mesmo que se conheçam desde sempre, há sempre detalhe novo para descobrir. E isso dá assunto para as conversas. Os filhos crescem, aumentam as dores, e o amor O amor nunca é demais. É sempre pouco. Por isso, espera-se sempre ouvir confidências, coração aberto, boca calada, a ouvir sobre como é ser amada ouvir faz bem à alma. Mesmo que o coração esteja sossegado e sozinho, se houver alguém amado por aí, então quer dizer que o amor não desapareceu do mundo. Ele existe, brilha, aquece, dá vida.

Ana Martins, para os vizinhos só Aninhas, conhece a Valéria desde que tem memória. Vivem há mais de meio século na mesma escada. Quando eram meninas, as mães nem trancavam as portas para não terem de andar sempre com a chave. Sabiam que, se não estavam numa casa, estavam na outra a brincar. Claro que depois começaram a trancar, especialmente quando as meninas começaram com aquelas ideias de sair em aventuras.

Tinham uns seis anos.

Foi quando a avó da Ana veio passar uns dias. Contou-lhes que na vida o mais importante é apanhar e segurar o passarinho da felicidade. Então sim, tudo corre bem e a vida fica mais fácil, e toda a gente fica feliz.

De vida, as miúdas não perceberam muito, mas de felicidade para todos não esqueceram. Quem não quer os pais sem discussões, a dar-se bem uns com os outros? Por isso decidiram procurar esse passarinho.

Principalmente porque a Ana tinha a certeza de onde o passarinho vivia. No prédio ao lado! Com aquele senhor chato de voz estridente. Ele às vezes punha o passarinho na rua. Lindo! Todo colorido, grande! Gritava de forma esquisita. Mas tinha de ser aquele pássaro da felicidade! Até porque quando iam ao Jardim Zoológico com os pais, nunca tinham visto pássaro assim.

As amigas prepararam-se bem para a caçada.

Foram buscar à varanda da Ana uma gaiola velha onde a avó, em tempos, trouxe um coelho do campo.

Era preciso pôr o pássaro em algum lado, certo? Não iam conseguir agarrá-lo muito tempo pela cauda e, quando ficassem felizes, iam querer logo um gelado. Quem aguentava com as mãos ocupadas?

Levaram pão e bolachas. Quem sabe do que a ave gosta mais? Valéria pensou melhor e decidiu levar também um rebuçado. Só para garantir. Rebuçados toda a gente gosta! Era triste, caso não gostasse nem de pão nem de bolacha.

Não estavam com pressa era coisa séria! Já a avó da Ana regressara à terra, prometendo levar a neta no verão. E os pais começavam a preparar as férias. Iam juntos com os vizinhos, duas famílias no mesmo carro por causa das despesas. Afinal, até à Figueira da Foz nem era longe: pouco mais de duas horas, quase não chegava para descansar. Mesmo assim, era bom! A casa que alugavam, embora antiga, era resistente. Tinha um quintal grande, com baloiços, e a praia ao virar da esquina. Uma beleza!

Ana desejava essa viagem e também queria ir à avó.

Sentia pena da amiga. Valéria não tinha avó. Nenhuma sequer! Como podia? Quem lhe fazia mimos longe dos olhos dos pais? Quem contava uma história longa para dormir, e não uma rápida porque havia louça ou roupa para tratar? Quem fazia um chapéu de crochet com fitinha a parecer de princesa?

Ana pensava que, ao apanhar o pássaro, Valéria também teria uma avó. Se calhar até da aldeia da sua. Assim passavam o verão juntas.

Na véspera de irem para a praia, disseram às mães que iam brincar uma à casa da outra e saíram de mansinho, caladinhas para a porta não bater, a conter as gargalhadas.

O seu prédio, o do lado, e lá estava o prédio triste, do vizinho com a ave.

No pátio não havia vivalma, grande silêncio. O calor já afastara toda a gente estavam em casa ou ainda a trabalhar.

As raparigas olharam uma para a outra. Como havíamos de procurar o passarinho agora? Ninguém a quem perguntar Valéria já começa a torcer a boca, pronta para chorar, mas a Ana não era de chorar sem razão. Se era preciso, era preciso! Caso contrário, adeus sonhos de avó para a Valéria, caixa de gelados e vestidos com bolinhas iguais para mostrar a toda a gente que eram grandes amigas! E os pais… Iriam voltar às discussões, se a Ana e a Valéria não encontrassem o passarinho teimoso!

Teimoso porquê? Ora, se fosse boa andava por ali, numa árvore, e não era preciso caçada nenhuma! Mas não estava.

Ana, olhando à volta, agarrou Valéria pela mão e arrastou-a para a entrada do prédio. Não adianta quedarmo-nos a olhar. Podem ao menos bater a uma porta e perguntar se sabem do pássaro.

Tantas portas naquele prédio! Só entraram numa das escadas! Algumas não abriram, noutras as pessoas ralharam por estarem a pregar partidas.

E as garotas seguiam, batendo a portas onde não conseguiam alcançar a campainha.

Onde mora o pássaro da felicidade?

Que adultos estranhos! Tão simples a pergunta, porque não respondem logo? Gritam, acenam, até ameaçam dar uma palmada. As meninas fugiram logo da senhora antipática, mas não esqueceram a porta verde com puxador esquisito. Ali decerto o pássaro não morava, gente daquela nunca teria felicidade junto.

Só numa porta tiveram sorte. Atendeu um miúdo, um pouco mais velho e respondeu só com um encolher de ombros:

Entrem!

Passarinho ali não havia. Mas havia tanta coisa interessante que Ana e Valéria esqueceram do tempo e do motivo da visita.

Admiraram máscaras assustadoras penduradas, encostaram o ouvido a búzios bem grandes ouvindo quase o mar, e ficaram maravilhadas com o modelo de um navio, igualzinho aos verdadeiros velas, marinheiros e tudo.

Isso fui eu e o meu pai que montámos. Chama-se Santa Ana.

Olha, como eu! Ana tirou o dedo do mastro e sorriu largo.

Chamas-te Ana? Que nome bonito! Como a minha mãe.

E onde está ela?

Mãe? Está a trabalhar. Daqui a pouco volta. E vocês, estão a brincar sozinhas? Os vossos pais não se zangam?

Aí as meninas lembraram-se do pássaro e do almoço já era tarde, já deviam estar a procurá-las, e que castigo as esperava!

Vála, Valéria! Vamos!

Ana agarrou a amiga, esquecida da gaiola, e disparou para a porta.

Esperem! O rapaz alcançou-as antes que saíssem Aqui!

As penas eram lindíssimas, de ficar de boca aberta sem coragem de tocar.

O que é isto?

Penas de pavão! A minha mãe traz do zoo. Podem levar!

Respirando fundo, as meninas receberam aquilo como um milagre e fugiram para casa sem sequer se despedir.

Chegaram a tempo de uma tempestade!

As mães, em lágrimas, gritavam por elas no jardim; os pais fumavam ao pé do prédio, à espera da polícia, que dissera para não sair dali até dar instruções.

Quando viram as miúdas, a mãe da Valéria desfez-se e sentou-se no meio do parque infantil.

Estão aqui

Foi um drama: choro, beijos, palmadas (mas leve, felizmente). Tempo para grandes castigos os pais já não tiveram.

Dias depois, sentadas num baloiço da casa que haviam alugado para férias, as amigas mexiam-se procurando conforto e sussuravam:

Sabes, Valéria, não precisamos de passarinho nenhum.

Porquê?

Porque a minha avó dizia que o mais importante é ser amada.

E então?

Se não fôssemos amadas, chorariam tanto quando nos perdemos? Ou teriam medo que nunca voltássemos?

Pois

Então somos felizes, não achas?

Não sei

Eu sei!

E os pais?

Quando é que discutiram nestes dois dias?

Nunca

Então vê lá. Não precisam de pássaros. Se quiserem, não discutem. Não há bicho que os ajude mais. Entendes?

Entendo.

Aquele verão ficou para sempre gravado nas memórias da infância das duas.

Ana Martins, ao relembrar a vida, sentia sempre gratidão por ter com quem partilhar memórias. E se esquecesse algum pormenor, podia perguntar à Valéria. A memória a dois custa menos.

E Valéria sempre lembrava de tudo melhor que Ana, talvez pelo seu feitio mais calmo. Ana era viva, inquieta, acelerada. Valéria era ponderada sentava, pensava, só depois agia. Quem se apressa só faz rir os outros, dizia-se. E lembrava os acontecimentos como se tivessem sido ontem.

Ana, ao conhecer o futuro marido, não o reconheceu logo. Continuaram a sair durante mês e meio, até ela ir a casa dele.

Santa Ana

O navio estava precisamente no mesmo sítio onde duas miúdas o tinham admirado. Agora, com vinte e três anos, ambas já casadas (Valéria até já era mãe), Ana voltou a ser aquela garotinha, receosa de tocar nas figuras para não estragar.

No dia do casamento, tirou da sua coleção de livros a pena que guardara com tanto carinho todos aqueles anos e mostrou-a ao marido.

Reconheces?

Riu-se pronta, enquanto ele tentava puxar pela memória.

Vieram então anos de felicidade. Quase trinta. Com preocupações e tarefas. Primeiros passos da filha, depois do filho. Com doença, de onde Joaquim tirou a Ana, procurando os melhores médicos, dando-lhe a mão durante aquele futuro incerto. E houve um dia em que o tempo parou: Ana deixou de respirar, esqueceu simplesmente como se fazia. O ar, e a vida, tinham ido com Joaquim. Valéria, que estava junto nesse momento, reagiu rápido, deu-lhe palmadas na cara, chamou-a de volta, e embalou-a como uma criança.

Aguenta, Aninhas! Tens os teus filhos

E Ana voltou a si. A felicidade permaneceu, diferente, repartida a meio, mas deixada por Joaquim. E mesmo que os filhos já fossem adultos, perder a mãe logo depois do pai é cruel. Não podia ser! Os filhos precisam de amparo. Como dizia a avó:

Enquanto alguém se põe entre uma criança e o céu, ela não é órfã! É uma criança feliz

Sabia bem! Era preciso seguir em frente. Filhos, netos. E mesmo que cada um tomasse o seu rumo, por causa do trabalho e pela lógica da vida, Ana sabia-se necessária e amada. Era só fazer a mala, comprar uns presentes, e partir para uma visita. Ao filho, à filha. Era bem-vinda em qualquer lado. Ou então esperar pelas férias. Aí a casa enchia-se de netos: voltava o corre-corre, não dormia de noite a ouvir as respirações ao lado. A sua cama grande nunca ficava vazia. A neta mais velha girava acanhada, mas depois se encaixava junto dos mais novos a ouvir histórias, fingindo surpresa nos enredos que já sabia de cor.

Então voltava a paz ao coração. E a alegria. Suave, leve como uma pena. Talvez não tão bonita como aquela dada pelo marido, mas, de certeza, desejada.

Nem todas têm assim. Há quem peça ao céu, e o céu oponha-se. Ana e Valéria tiveram sorte. Não apanharam o pássaro mágico, mas não deixaram escapar a sua felicidade. Perceberam cedo, mesmo sendo pequenas, qual era o segredo de uma mulher feliz. Para cada uma, a felicidade é diferente, claro. Para elas, era esta, imaginada naquela infância. Os filhos saudáveis o resto aparece, se houver força de vontade.

Valéria quis e conseguiu. Podia até ter ficado sem filhos. Com o marido não conseguiam engravidar. Mas amavam-se tanto que toda a gente invejava. Sempre juntos, nunca fartos, sentiam saudades só de se afastar. As vizinhas reclamavam dos maridos, Valéria calava-se. Não era falta de vontade de partilhar a vida, mas da dela só falava coisa boa.

Viviam em perfeita sintonia.

Ana desconfiava de histórias assim. Achava impossível. Depois conheceu o Joaquim e percebeu. Só de olhar para a Valéria, via-se que ali morava o amor.

A vida do casal também não era fácil. Valéria casou com António, que tinha centenas de parentes só tias eram sete. E ele ainda dois irmãos mulheres, um autêntico tormento! Ninguém infernizou tanto a vida da Valéria quanto essas cunhadas. Claro que tem de se adaptar ao casar, mas não a esse ponto! Sempre a apontar: para onde foste, o que compraste, porque olhaste assim?

Por sorte, a sogra de Valéria, Maria, era um doce. Foi das poucas que logo a aceitou na família e nunca lhe cobrou nada em todos esses anos. Como teve filhas tão más, é um mistério. Criou bem o filho.

Era muito meiga. Não sabia dizer não, não sabia zangar-se. Bastava um problema, caía em lágrimas. Valéria tinha pena dela, chamava-a de mãe desde o primeiro dia.

Toda a gente junto, sempre.

Foi um escândalo quando Maria vendeu o apartamento e se mudou para perto do filho. As filhas ficaram furiosas, mas ela não foi morar com Valéria, apesar do convite do filho. Comprou casa no prédio ao lado. Dizia que não queria atrapalhar, que o apartamento era pequeno, só dois quartos. E já sabia dos planos do casal, mas nunca os revelou a ninguém.

Sabia da dificuldade em manter a paz na família. Ela própria passou por isso quando o marido a deixou com três filhos. Ajudava, sim, mas não era igual. Só muitos anos depois, abriram o coração. Valéria foi fundamental no processo. Percebia o sofrimento da sogra. Muitos anos a viver juntos e, de repente, acabou tudo. Para onde foi o marido? Porquê?

Afinal, não era falta de nada. Simplesmente apareceu um novo amor, que de qualquer forma não apagava o antigo. Vida de sultão, só faltava o turbante.

Maria nunca aceitou poligamia, mas pelo menos reconstruiu a vida. Agradeceu à nora e recomeçou do zero.

Foi Maria quem ajudou Valéria e António a encontrarem o filho que tanto desejavam. Saiu do hospital onde trabalhava há anos, foi para a maternidade, e lá encontrou o neto.

Tiveram de pensar bem na decisão. Não tinham conseguido engravidar e sabiam que a família dificilmente aceitaria uma criança adotada. Viveram um tempo fora. Voltaram com o filho. De onde vinha ou se a Valéria tinha dado à luz, não explicaram. Ana sabia. Foi a primeira vez que Valéria ergueu uma barreira à curiosidade alheia. A família resmungou, mas, vendo o amor de Maria pelo neto, calou-se. Passou a ser da família.

As cunhadas desconfiaram, mas não arriscaram hostilidade. Tudo por causa de Maria, que mudara bastante diante de qualquer desrespeito, apenas franzia os lábios e desligava o telefone. A sua brandura nunca se foi apenas decidiu dedicar-se totalmente ao neto, convencida de que um órfão merece ainda mais carinho até se aquecer. Cuidava, ajudava Valéria. Sabia que assim salvaria o filho e manteria a felicidade da família.

Assim viviam, Valéria com o marido e filho. Ana também de família cheia.

Felizes!

Iam de férias juntas, filhos juntos. Portas sempre abertas, sem o stress das chaves. Mas desta vez, bem atentas, não fosse repetir-se a história do passarinho.

Até que Joaquim partiu, deixando atrás de si saudade e o sabor amargo de dias que já não podiam vir.

Depois, também António adoeceu, uma surpresa. Nunca se queixou de nada, mas ali um trombo logo ele, que trabalhava num hospital! Passou despercebido

Valéria quase desmoronou. E foi a vez da Ana estar ali, amparando, impedindo que caísse num vazio sem retorno.

Tens um filho, Valéria! Sogros! Maria! Não podes render-te! Quem mais os vai segurar? O que António pensaria de um mês de lágrimas? Era ele que mais te amava. E agora queres deitar fora todo esse amor? Não pode ser. O António nunca permitiria

Se foram estas palavras ou o simples facto de perceber de quanto dependem dela, Valéria ergueu-se. E, tal como a Ana, soube encontrar nova forma de viver e guardar o amor à sua maneira.

O filho, Paulo, cresceu, estudou, fez-se oficial do exército. Anda de um lado para o outro, mas nunca se esquece da mãe. Vem com os netos duas vezes por ano. Se não pode, vêm a nora, Graça, e as crianças. Entre sogra e nora, melhor relação não há. Valéria tirou boas lições da vida e soube criar vínculos. Por isso aceitou de coração a escolha do filho.

E havia razões para duvidar.

O filho apresentou não só a noiva como também o filho dela, de outro relacionamento. Nenhum grande romance: o pai foi embora deixando a companheira grávida de seis meses e acabou por autorizar Paulo a adotar o menino.

E o que fez Valéria? Nada de especial. Quando o filho a apresentou, afastou-o, pegou no pequeno ao colo:

Olá! Eu sou a avó Valéria! Queres uma bolacha? Não? E ir ver o que o Pai Natal deixou na árvore para ti? Juro que vi! Vamos espreitar?

O que é preciso para derreter o coração de uma mãe? Aceitares o filho dos outros como teu, e ganhas amor para sempre.

Valéria reconheceu logo essa verdade e aplicou-a.

Por isso, Graça já é como filha. E Valéria conta netos a começar por esse, o primeiro, o mais querido.

Valéria, quando vamos à terra? Já devíamos! Está uma brisa fantástica! Ana levanta a cabeça olhando as flores da cerejeira sobre si.

No fim de semana. Assim que lave as janelas, partimos.

Nem me lembrava que a Páscoa este ano chega mais cedo. É tempo de pôr tudo em ordem!

É pois! Ainda tenho muito a cozinhar.

Os teus vêm?

Dois dias. Vão a Lisboa ver as universidades. Só dão um salto, mas na volta devem cá ficar mais um pouco. Se calhar deixam os mais novos comigo umas semanas ainda não está decidido. E os teus?

Só no verão. A escola ainda não acabou. Tenho que esperar.

É só mês e meio!

Pois para mim parece uma eternidade.

O tempo nunca passa quando esperamos coisa boa. Quando chega, desaparece num instante. Depois só resta esperar outra vez. Mas sabes uma coisa, Ana?

O quê?

Por esse instantes, eu dou tudo. Mesmo curtos, são eles que me fazem viver, lembro-me deles como contas de alegria. A felicidade é assim. Nunca é muita, só parece pouca quando não vemos quanto temos.

Tão verdade! Lembras-te de quando fomos à caça do passarinho da felicidade?

Como poderia esquecer? Valéria ri, pondo as mãos sobre o peito. Fiquei uma semana sem poder sentar, tamanha foi a preocupação da mãe, e o castigo do pai. E tu de lado a side a dançar a rir!

Pois foi! Mas sabes uma coisa, Valéria?

Diz!

Acho que apanhámos mesmo o passarinho por uma pena. Talvez nem demos conta, mas ele ficou sempre ao nosso lado. Como explicar termos recebido tudo o que tanta mulher pede e não alcança? Famílias, maridos bons, filhos maravilhosos. E netos então, nem se fala! Achas que não somos felizes?

Acho que tens razão. E devíamos até agradecer ao nosso passarinho. Que ele vibre as asas, balance bem a cauda. E que traga felicidade aos que amamos…

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