No Lugar de Si Mesmo

Em seu olhar frio havia algo de ameaçador, e era isso que fazia o coração de Lídia palpitar de pavor. Não era a diferença de idade, nem sequer o facto de ele ser viúvo com uma menina pequena. Era aquele olhar que a atravessava como punhais, deixando-a a tremer, a ponto de seus olhos não conseguirem sair do chão. Quando ousava encarar, iam-se formando lágrimas que deslizavam em onda, pelas suas faces coradas de vergonha, como se uma humilhação silenciosa a percorresse.

As mãos trémulas de Lídia mal conseguiam lutar contra a pressão da madrasta, nem contra o pretendente que lhe fora arranjado. Mas a traição do próprio idioma, que nela explodiu subitamente, fez sair um sussurrado Vou.

Então está combinado. Não se recusa uma casa assim, com um homem daqueles vaticinou a madrasta, inchada de decisão. D. Américo, viúvo, bom senhorio, sofreu ao lado da primeira mulher. Ela era doente, pobrezinha, fraca… Tossia sempre e tudo lhe custava. Ele cuidava dela, com carinho e paciência, nunca com gritos nem impaciências como o teu falecido pai, Deus o tenha. Caminhavam juntos, ele três passos à frente, ela um, ofegante como locomotiva antiga, mas ele a amparava, sem nunca se impacientar.

Quando engravidou, poucos a viram de pé. Estava sempre estendida, e após o parto, era ele quem se levantava noite fora para cuidar da menina, sozinho, a esposa cada vez mais débil.

E tu, Lídia, és forte, sã, cheia de energia, criada para a lida da terra, entre foices e enxadas, sabes fiar e tecer, sabes ser mulher. Não te deves dar a rapazotes inconstantes. Um homem feito vale mais: já o conhecemos, sabemos quem é. É sorte grande a tua, rapariga!

Trataremos de um jantar simples, sem bailaricos, respeito à memória da primeira mulher… O enxoval ele não quer, que casa há de sobra.

D. Américo casou por amor, todos conheciam a doença de Vera, mas nem ele, nem os outros, conseguiram demovê-lo. Corria pela aldeia que fora enfeitiçado só assim se entendia alguém juntar o seu destino a sofrimento tão certo.

Vera tinha os pulmões frágeis, dizia o doutor da vila, que qualquer constipação virava catástrofe. Américo acreditava que o amor curava, cuidava de Vera, velava por ela, afagava o cabelo dela nas madrugadas geladas, prometendo saúde aos céus onde ninguém ouvia. No princípio parecia resultar. Felizes, riam, planavam juntos sobre os dias.

A gravidez, no entanto, sugou toda a força de Vera. Fraqueza constante, corpo a desmaiar, até pentear-se se tornara impossível. Diziam ser mau estar da gravidez, que logo passaria. Américo cuidou dela com ternura incansável, enfrentando sussurros e censuras da mãe, que o acusava de levar para casa um peso e não uma companheira. Ele defendia Vera, expulsando até a mãe debaixo do seu teto.

Nasceu Teresa, a filhinha. Um breve regresso da alegria, logo tragado pela doença, que levou Vera sem apelo. Levaram-na ao hospital de Coimbra e o médico foi direto:

Isto é fatal, menina. Os pulmões não dão mais.

Os olhos de Vera, tristes de futuro, sorriam forçados, a mão fina tremia quando pediu ao marido escutar as últimas palavras:

O que Deus escreve, ninguém apaga. A doença já me venceu, Américo. Perdoa-me, a ti e à nossa menina querida. Não escolhemos a dor. Foi-me dado sofrer e, contigo, também a ti dei lágrimas.

Ela agarrou nas mãos dele, urgindo as palavras.

Quero pedir-te uma coisa… Casa com Lídia. Ela será boa esposa, mãe para a nossa filha. Conheço a vida difícil daquela rapariga, soube toda a dureza de ser rejeitada em tua casa, sei o que lhe falta e como saberá dar aquilo que eu não consegui. A minha mãe e a dela já conversaram, tudo a seu tempo.

Serás feliz, mas só te peço, marido meu: trata-a como a mim. Ama-a como se eu cá estivesse, nunca magoes Teresa senão, de onde estiver, juro que te lanço uma maldição. Estas palavras ditou-as com toda a força que ainda tinha, apertando-lhe as mãos uma última vez.

Américo chorou, beijando-lhe as mãos e o rosto esquelético. Sentiu, naquele hálito entrecortado, a vida a escapar-lhe. O rosto dela, pálido, ficou sereno, olhos numa prece muda. E assim ficou, a mão agarrada à dele. Ele jurou cumprir a promessa: procurar Lídia e cuidar da filha.

Após um ano de luto, Américo foi bater à porta de Lídia. A madrasta preparara o terreno, incentivada por D. Antónia, mãe de Vera: doente, temia morrer e queria ver a neta e o genro amparados. Conhecia os sacrifícios do genro, agradecia-lhe no coração, pedindo a Deus que o recompensasse.

O dia do pedido foi um torvelinho. Lídia compreendeu então que tinha à sua frente não apenas o fim das humilhações da madrasta ou das zangas com o pai alcoólico, mas um novo peso a suportar cativar e ser cativada por Américo.

Pouco a pouco, começou a notar que o viúvo era atento e respeitador, diferente do que os rumores pintavam. Levou-a à sua casa: não para exibições, mas para conhecer Teresa, a filha. Lídia ficou atónita com a beleza do lar, com móveis feitos à mão, paredes vivas de quadros bordados, madeira cheirando a cera e aconchego, assoalhadas inundadas de luz. Teresa, pequenina de três anos, correu com os brinquedos, colou-se a Lídia, pedindo-lhe para brincar juntas e oferecer-lhe aquele sorriso terno herdado da mãe.

Queres que eu te faça uma trança, filha, como faziam às princesas nas histórias? perguntou Lídia, entre carícias aos cabelos suaves de Teresa.

Américo observava, o coração a transbordar. Desde a morte de Vera, a filha esperava ansiosa junto à janela, perguntando todos os dias pela mãe. Compreendia enfim que só uma nova mãe poderia dar descanso e alívio ao vazio imenso.

No fim daquela tarde, Teresa não queria largar Lídia. Puxou-a pela mão até ao quarto, desfez a cama, brincou, saltou. Lídia sentou-se com ela na cama, memórias duras a invadi-la a dor de ser renegada, as pancadas da madrasta, os carinhos negados, a fome calada, o pai entregue à má sorte. O aperto doía-lhe mas apertou ao invés a filha da outra nos braços, prometendo nunca ser igual a quem lhe faltou.

Teresa adormeceu segura. Lídia ficou ali, de mão enlaçada à dela, sentindo uma paz trémula invadir o peito. Américo ofereceu-lhe chá e eles sorriram em silêncio. Não a deixou regressar à casa da madrasta naquele dia. Não podia já entregá-la ao mesmo infortúnio.

Casou-se com ela em breve, simplesmente, apenas com a bênção das mães do céu. E assim Lídia encontrou, naquele lar português, a promessa de uma família que nunca teve, e Teresa, uma nova mãe que soube amá-la como se fosse sangue.

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