Veneno da Inveja

Veneno da Inveja

Duarte tenho medo Susana apertava um guardanapo entre os dedos, a voz dançava num tremor que ela não conseguia controlar. Olhou-o nos olhos, procurando abrigo no rosto do homem à sua frente. Mensagens outra vez

Ela puxou o telemóvel da mala com as mãos trémulas, destrancou o ecrã e estendeu-o a Duarte. Ele segurou o smartphone, lendo atentamente: Obrigada pelo serão maravilhoso, Já tenho saudades, Quando voltamos a ver-nos?, Em breve estaremos juntos outra vez, Espero-te no nosso sítio quando saíres do trabalho. A testa dele franzia-se cada vez mais, as sobrancelhas cerradas numa linha profunda.

Quando chegaram? perguntou serenamente, devolvendo-lhe o telemóvel.

A última, há cinco minutos. Exatamente quando fizemos o pedido, Susana engoliu em seco, sentindo um peso repentino no peito. E isto repete-se sempre que estamos juntos. É como se alguém nos observasse como se soubesse a cada momento onde estamos e o que fazemos.

Duarte recostou-se na cadeira, passou os dedos pela barba, um brilho afiado a surgir-lhe no olhar. Já calculava os caminhos possíveis na cabeça.

Mostra-me as mensagens todas. E as datas, disse num tom firme, sereno.

Susana deslizou, nervosa, pela conversa no telemóvel. Duarte leu uma a uma, observando horários, palavras, aquela insistência quase calculista. Entre as mensagens, surgiam outras: Não te tiro da cabeça, Lembras-te da última conversa? Espero o próximo capítulo, Sabes onde me encontrar se mudares de ideias. Cada nova notificação aumentava o senso de que uma sombra se infiltrava na vida deles, como mãos invisíveis a tentar separar-lhes.

Isto é demasiado estranho, murmurou ele por fim, com um aço discreto na voz. Não é ao acaso. Alguém tenta fazer parecer que tens um caso secreto. E parece saber exatamente quando estamos juntos demasiado planeado.

Susana soltou um suspiro, os ombros caíram sob um peso que parecia invisível. Com vinte e cinco anos, era designer numa pequena agência de Lisboa, sonhadora de um amor calmo e seguro, não por status ou dinheiro, mas por cumplicidade. Duarte, um advogado prestigiado de trinta e cinco anos, era tudo o que ela sempre esperara: atento, maduro, paciente. Ao lado dele sentia-se protegida algo raro, valioso.

Namoravam há seis meses. Em pouco tempo, Susana percebera a capacidade dele de resolver problemas sem drama, o humor afiado, a forma genuína como a procurava. Ele nunca apressou nada, mas também não escondia que a via como futura mulher. Susana, mesmo sem pressas, começava a sonhar com um futuro conjunto.

Não sei quem faria isto, murmurou, a voz embargada. Não tenho admiradores secretos. Nunca dei motivos E aquelas frases no nosso sítio, a nossa última conversa parecem saídas de uma história inventada. Como se alguém criasse uma ilusão de passado que nunca existiu. Como se brincassem connosco.

Deixa isso comigo, cortou Duarte, determinado. Tenho contactos. Vamos descobrir a origem destes números. Sinto que nada disto é coincidência. É tudo demasiado sistemático.

Nos dias seguintes, Duarte ficou imerso em contactos e pesquisas. Susana tentava distrair-se no trabalho, entre amigas, fugindo da angústia que pairava como uma nuvem fria ao peito. Recusava-se a acreditar que alguém se dava ao trabalho de destruir a felicidade que recém-construía. Cada vez que pegava no telemóvel, sentia o coração acelerar e suspirava de alívio ao não encontrar novas mensagens mas apenas por instantes: o medo logo regressava, ainda mais intenso.

No quinto dia, Duarte telefonou-lhe ao final da tarde.

Susana, descobri. As mensagens vieram de cartões comprados no anonimato. Mas conseguimos seguir o rasto. Foi a Inês.

O mundo gelou. O telemóvel quase lhe caiu das mãos. Inês, a amiga de faculdade. Vinte e oito anos, divorciada, dois filhos. Amigas há muitos anos, partilhavam segredos, choraram juntas muitas vezes. Mas ultimamente notava uma tensão fina, como uma racha discreta no vidro. Inês queixava-se, frequentemente, da solidão, da dificuldade de ser mãe solteira, de que os homens fogem das responsabilidades Tudo a vida parecia um fardo.

A Inês? sussurrou Susana, dor e incredulidade inconfundíveis. Mas porquê ela? Como foi capaz?

Acho que sabes, respondeu Duarte, num tom resignado. Inveja. Estás livre, tens sucesso, um homem que te cuida. Ela sente-se privada disso. Apostava que ela esperava que desconfiasses de mim, que eu desconfiasse de ti.

Duas semanas antes, Susana, Duarte e Inês tinham estado juntos num jantar de amigos, em Campo de Ourique. A música, as conversas, o cheiro de tapas e vinho e uma atmosfera quase familiar preenchiam a casa. Susana, num vestido azul-petróleo, chamava a atenção: o tecido fluía ao menor movimento, o tom realçava-lhe os olhos castanhos. Duarte não se afastou de si toda a noite: ora servia-lhe um copo de espumante, ora oferecia petiscos, ora puxava-a para conversas.

Parecem capa de revista, comentou Inês, sorriso apertado, braços cruzados sobre a camisola bege. Tudo perfeito: vestido, namorado, o pacote completo.

Obrigada, sorriu Susana, genuinamente feliz com o elogio. Nem eu esperava gostar tanto deste vestido.

Que sorte a tua Inês baixou os olhos, correu a mão pela camisola. Com dois filhos, a moda fica para depois. Tudo o que entra de ordenado voa para botas ou medicamentos.

Inês, mas quê, isso agora importa? tentou Susana aproximar-se, tocando-lhe delicadamente no cotovelo. Continuas linda. Tens estilo, tens graça brilhas sempre!

Pois riu-se Inês, amargo. Umas têm tudo de mão beijada, outras têm de escolher entre um vestido novo ou ténis para o miúdo. Entre cabeleireiro e mensalidade da ginástica para a Matilde

A voz dela quebrou ao final, desviou o olhar para a janela. Duarte, com tacto, mudou de tema contou sobre um restaurante novo em Alvalade, sugerindo uma ida de grupo. Susana foi com o fluxo, mas percebeu que Inês ficou durante largos minutos observando, de longe, com um olhar preso entre inveja e mágoa, enquanto ela e Duarte dançavam. Havia ali não apenas ciúme, mas carência do que não tinha: despreocupação, sentirem-se especial para alguém.

Outro sinal discreto aconteceu num café da Graça, enquanto a chuva fina caía para lá das montras. Susana contava, feliz, de um passeio pela Serra de Sintra com Duarte recolher folhas douradas, grelhar bifanas num parque, rir juntos. Depois, ao lusco-fusco, ficaram ao calor da fogueira, a ver as estrelas.

Parece um conto de fadas, disse Inês, mexendo o café violentamente. Um homem perfeito, paisagem romântica…

Valeu a pena, sim, riu Susana, apertando a chávena. Ele prometeu ensinar-me a andar de ski. Se quiseres, venham também!

Ski? Só se me cair uma semana livre. Os meus dias são: levar a Matilde ao colégio, consultas, TPC com o Miguel, ir buscar ao balé, cozinhar, limpar… Realidade, não romance.

Havia cansaço, não raiva, na voz. Uma amiga comum tentou apaziguar:

Inês, a Susana não se está a gabar. É bonito partilhar felicidade!

Não estou a culpar, respondeu Inês. Só a constatar: uma vive num filme, outra repete o mesmo ciclo todos os dias. A Susana ainda pode improvisar. Eu tenho de organizar tudo ao minuto, esticar o salário E mesmo assim há sempre imprevistos.

O nó na garganta de Susana apertou-se. Tentou consolar, mas todas as palavras soaram vazias. Em vez disso, pousou a mão sobre a de Inês:

Sei que não é fácil. Posso ajudar-te, podemos organizar um sábado com os miúdos, fazer piquenique…

Inês hesitou, a lágrima à porta, mas fechou-se rápido:

Obrigada, mas não. Aproveita a tua liberdade enquanto podes.

Na altura, Susana não deu grande importância, apenas enxergou ali a fadiga de uma mulher sobrecarregada. Agora via: era inveja antiga, não maldade era dor, era revolta, um sentimento que Inês nunca soubera digerir. Viu-se recordando detalhes: o desviar do olhar, o sorriso disfarçado, as conversas abruptamente interrompidas. Pequenos sinais súplicas abafadas.

O que vamos fazer? perguntou baixinho, ciente de que não podia fugir ao confronto.

Vamos ter com ela. Agora. Esclarecer isto de uma vez por todas, decidiu Duarte.

Foram a casa de Inês. Ela abriu a porta, empalideceu, os punhos cerrados, o medo escreveu-se-lhe no rosto:

Vocês aqui? Aconteceu alguma coisa?

Poupa-te, atalhou Duarte. Sabemos que foste tu. Temos provas.

Inês recuou, encostou-se à parede, rosto tenso, olhos brilhando de dor e raiva.

Sim, fui eu! E daí? Achaste que ia assistir calada à tua felicidade enquanto a minha vida é um caos? Sempre foste a menina bonita, sem preocupações! Eu… sou um peso morto!

A voz dela fendeu-se num tom rouco, lágrimas luminosas a deslizar. Soltou, há tanto tempo guardadas, mágoas que ninguém ouvira.

Não imaginas o que é sentir-te invisível, continuou ela, quase num sussurro. Sempre que falavas das saídas com o Duarte, mordia-me de inveja. Não fazes ideia da sorte que tens! Só queria que sentisses o mesmo desespero, alguma imperfeição. Que o teu mundo perfeito estalasse!

Susana sentia uma dor aguda, física. Via uma mulher que partilhou cafés e lágrimas na faculdade, que acorreu ao seu lado na noite do divórcio agora deformada pela amargura.

Então quiseste destruir a minha vida por inveja? perguntou, sem acusação, só tristeza. Só porque estás infeliz? Querias que Duarte desconfiasse de mim?

E o que mais podia fazer? desabafou Inês, com um meio sorriso quebrado. Sempre viveste sob os holofotes. Eu… só sobro.

Duarte colocou-se entre as duas, erguendo-se protetoramente.

Chega, cortou, grave. Fizeste algo feio. Tens de arcar com as consequências.

No olhar de Inês passou uma onda breve era arrependimento, mas logo sufocada num novo ataque:

E vão fazer o quê? Chamar a polícia? Acham que querem saber das vossas mensagens?

Não queremos polícia, respondeu Duarte. Só queremos que respeites a Susana. Nunca mais nenhum texto, entendido?

Inês olhou para Susana, nos olhos agora frágeis, quase de menina assustada, admitindo finalmente a dimensão do erro. Seca as lágrimas, mas não para de desafiar.

Como se não soubesses que eu invejava! a voz vacilou, ficando mais trémula. Sempre tapaste com sorrisos quando brilhavas nos jantares e eu ficava no canto

Susana lembrou-se desse aniversário, em que de facto rebentou com as atenções, sem pensar e de como Inês ficou à margem. Agora percebia.

Não queria eclipsar-te, Inês, disse, com uma dor sincera. Tive uns dias bons, só isso. Mas nunca vi isto como competição. Sempre te vi como igual, amiga do coração.

Pois, bonita, bem sucedida, com o Duarte a teus pés E eu? Dois filhos, uma hipoteca, e abandono! Queria que sentisses o que é estar sozinha, fora do palco.

Duarte escutou em silêncio, depois falou baixo e firme:

A inveja é um veneno silencioso. Escolheste magoar em vez de cuidar de ti própria. Não honras isso.

Inês estremeceu e, talvez pela primeira vez em muitos anos, chorou sem fingir, quase em silêncio. As lágrimas escorriam por entre dedos, como quem se dá, finalmente, por vencida.

Desculpa-me, implorou. Nunca pensei que as coisas chegassem a este ponto. A vida rebentou comigo. Aguentei anos sem falar até que perdi o chão.

Susana sentiu um aperto na garganta. Havia tristeza e mágoa, mas também uma honestidade inesperada um retrato de uma mulher cansada, sem alternativas, que explodiu no pior momento.

Lembrou-se de outra conversa, café na mão, Inês a murmurar: Parece que vives noutro mundo. Em ti, tudo encaixa. Eu só repito de novo e de novo dias iguais. Às vezes queria só acordar e sentir esperança.

Na altura tentara animá-la A vida é feita de ciclos, deixas-me ajudar com o currículo? Tens tanto talento, vai aparecer coisa melhor mas Inês recusara: Eu não tenho escolha. Tu tens, e isso custa engolir.

Agora Susana percebia: aquilo era mesmo o grito desesperado de quem se afoga em silêncio. E ela, como tantas vezes, só viu a superfície.

Inês sussurrou, comovida, nunca percebi que sofrias tanto. Se tivesses falado, faríamos força juntas. Mas agora, o que fizeste magoa demais. Não é fácil esquecer que tentaste separar-me do Duarte.

Compreendo, assentiu Inês, limpando o rosto. Não espero perdão imediato. Só queria que soubesses o quanto me perdi. E, estupidamente, achei que magoar-te aliviaria a minha dor.

Duarte pousou a mão no ombro de Susana:

Vamos por um ponto final. Susana, aceitarás esta explicação?

Ela demorou-se numa pausa. Olhou para Inês: olhos inchados, ombros curvados, expressão vazia. Aos poucos, a mágoa diluía-se em compaixão.

Entendo que haja dor, angústia, inveja, disse calmamente. Mas não aceito que transformes sofrimento em veneno. Preciso de distância, Inês. Só consigo ser tua amiga se fores capaz de alegrar-te por mim e não viver contra mim.

Inês acenou, mais uma lágrima a escapar. Obrigada por, pelo menos, ouvires. Perdoa-me por não conseguir pedir ajuda.

Susana e Duarte saíram para uma Lisboa húmida, as luzes douradas dos candeeiros a brilharem sobre o empedrado ainda molhado. O outono tinha deixado um cheiro fresco de terra e folhas.

Sinto-me vazia, confessou, encostando-se a Duarte. Tudo ficou claro, mas dói tanto. É como perder uma parte de mim.

É normal, murmurou ele, envolvendo-a nos braços. A traição dói. Mas agora sabes o que se passa, e podemos enfrentar juntos o que vier. Não estás sozinha.

Susana sorriu por entre lágrimas. Juntos.

E enquanto caminhavam, percebeu que as feridas levariam tempo a sarar, mas também que aprendera algo essencial: a inveja é silenciosa, nasce onde menos se espera, mas quando cuidamos das nossas dores e somos honestos, acaba por perder a força. Valorizar os verdadeiros laços e cultivar compaixão, mesmo ao custo do próprio orgulho, é o que nos faz crescer.

E assim, com passos mais leves, Susana seguiu em frente. Porque, na vida, o que nos une é sempre mais forte do que o que nos pode separar.

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