O Laço Vermelho
Marília estava encostada à bancada da cozinha e observava o vapor a subir lentamente do tacho onde o arroz carolino fervia. Não era daquele arroz branco e solto, era do mais barato, do que vinha em sacos transparentes na prateleira das promoções do Continente, comprado por cêntimos atirados à pressa sobre o balcão. Mexeu o arroz com a colher de pau, tapou o tacho com a tampa um pouco empenada e, com um suspiro, apoiou-se no velho frigorífico “Frigidaire”. A máquina gemeu, vibrando de cansaço, como se aprovasse a sua imobilidade.
Lá fora, a Rua dos Pinheiros esticava-se junto às traseiras do prédio. Blocos de apartamentos pintados à pressa, plátanos que na Primavera enchiam as varandas de pólen e um quiosque de flores na esquina. Marília vivia ali há treze anos, tanto tempo que já não sabia onde acabava a rua e começava ela própria. Era como um calo no calcanhar, uma Sra. das Dores familiar, a certeza de que o segundo degrau do lanço da escada gemia quando subia para casa.
Frederico apareceu na cozinha sem avisar, como de costume. Tinha esse dom de se materializar, alto, de ombros largos, vestido numa camisa azul-clara que Marília nunca lhe tinha visto antes. Só depois, já naqueles segundos onde o cheiro é mais rápido que a razão, percebeu que aquele perfume não era dela doce, floral, uma base quente, coisa de mulher, não de desodorizante ou de pele de homem acostumada ao carro.
Então, ó minha guerreira lusitana? Frederico espreitou o arroz. Torceu a boca com brandura. Mais arroz e cebola?
Hoje é com cebola e alho, disse Marília, devolvendo-lhe o olhar.
Com cebola? Isso já é vida de luxo. Ele deu-lhe uma pancadinha no ombro. Aguenta só mais um pouco, Marília. Vais ver, quando tivermos a casinha na Azambuja, isto tudo vai valer a pena.
Marília acenou. Aprendera a concordar com gestos breves, gestos que não eram assentimento, só cansaço. A cabeça rodava de novo, pelo terceiro dia seguido, um vertigem levezinha, como se a sala estivesse sempre um nadinha inclinada. Ela sabia a razão a barriga vazia faz dessas coisas. Sabia e calava.
Já te deram de comer hoje? perguntou.
Almocei no escritório, uns petiscos, nada de especial.
Ele encheu um copo de água, bebeu de pé, deixou tudo na banca e foi para a sala. Marília ficou a olhar para o copo. Depois apagou o lume e foi dividir o arroz entre dois pratos.
Aos poucos, em três anos de contenção, ela habituou-se: já não comprava queijo, trocava-o por iogurtes do mais barato; remendava a própria gabardina, que já ia na quinta estação; e não punha os pés na cabeleireira desde o Outono transato. Cortava o cabelo sozinha, em frente ao espelho pequeno da casa de banho, sem nunca encarar o próprio reflexo de verdade. Às vezes até corria bem. Noutras, voltava a prender com elásticos.
Três anos antes, Frederico mostrou fotos. Uma casa pequena na Azambuja, quarenta minutos de comboio de Lisboa. Tão portuguesa, com paredes caiadas e toldo verde nas janelas, um quintal com uma ameixeira e um poço só de enfeite. Uma varanda de madeira. E um banco de pedra por baixo de um arbusto de alfazema.
Olha, disse ele, pousando o portátil no colo dela. Vê.
E Marília viu. Não era felicidade, era outra coisa, uma esperança morna que era quase suficiente. Uma porta aberta na sensação de sempre ter vivido entre paredes das quais não sabia o nome. E, naquelas imagens, havia árvores, havia azul.
Vamos precisar de três anos a apertar o cinto, explicou ele, sério. Já fiz as contas. Se pusermos este dinheiro de lado todos os meses, e tu também cortares um pouco do que gastas contigo
Quanto é?
Ele disse o valor. Marília calou-se.
É muito, murmurou.
É uma casa, Marília. O nosso canto português. Não achas que vale o esforço?
Ela aceitou. Não logo, mas aceitou. Abriram uma conta conjunta. Marília passava ali metade da sua pensão e mais uns trocos das limpezas que fazia noutros prédios. Trabalhava meio horário numa empresa de contabilidade, era pouco, mas era o que havia. Frederico garantia que punha três vezes mais do salário dele.
Marília acreditava.
Aliás, sempre soube acreditar. Era o seu fado, diriam. Não por ser crédula, mas porque isso tornava tudo menos penoso. Quando não acreditamos, temos de contar e desconfiar e isso pesa.
O primeiro Inverno quase correu alegre. Marília desenrascou, comeu menos, vestiu mais roupas, sentiu-se criança que faz birras ao querer gelado e, não podendo, inventa outro sabor. Sopas económicas, receitas do tempo da avó, alegria a cada feira de descontos. Tudo parecia uma brincadeira de imaginação.
No segundo ano, o corpo começou a avisar. Nada súbito, só um cansaço persistente. Pernas fracas, sono crónico, viagens de autocarro em que não sabia se subia ou descia, olhava só para a cidade sem pensar em nada. Não foi ao médico. Não havia dinheiro, nem energia para esperar na consulta do centro de saúde.
Devia mandar fazer análises, disse a Frederico um dia.
Isso paga-se caro, não é?
No privado, sim. Mas é rápido.
Marília, cada euro conta, amor. Vai ao centro de saúde, é só ter calma na fila.
Ela foi. Fez as análises. O hemoglobina vinha quase no limite da anemia, nada dramático, mas longe do ideal. Mais carne vermelha, feijão, brócolos, vitaminas, disse a médica, sem lhe cravar o olhar.
Marília comprou vitaminas das baratas. Carne vermelha, já não, isso era luxo.
No terceiro ano, parou de se pesar. O espelho da casa de banho dizia-lhe tudo. Ficou mais magra, a pele amarelada por baixo dos olhos, o cabelo perdeu o corar.
Numa loja de roupa usada em Benfica, encontrou um sobretudo azul-escuro, quase perfeito. A empregada, uma senhora de cabelo pintado de vermelho-escuro, comentou:
Que bela peça vai-lhe durar uma vida inteira.
Sei, respondeu Marília.
Todas sabemos, respondeu a outra, com um sorriso cúmplice e sem alegria.
Marília levou o casaco.
Frederico, ele, continuava com o seu otimismo. Sabia criar a ilusão de que o pior estava sempre a um passo de acabar. Mais um pouco!, dizia tantas vezes que aquelas palavras se tornaram fundo musical da casa.
És uma mulher forte, dizia-lhe, quando a via jantar arroz e cebola. És mesmo uma guerreira. Eu respeito-te por isso.
Marília sorria. Era um sorriso sincero, mas não feliz. Só músculos a saberem o seu papel.
De vez em quando, ela telefonava à filha, Rita, que morava no Porto, casada, muito ocupada. Marília nunca se queixava.
Estás bem, mãe?
Vamos juntando para a casa.
Ainda?
Está quase.
O tema logo cambiava para netos, roupa, a chuva.
Naquele terceiro Outono de contenção, Marília notou que o mundo cheirava mais. Talvez o corpo, privado de tudo, apurasse os sentidos, como um cão magro apura o nariz.
O perfume da camisa de Frederico apareceu pela primeira vez em Outubro, na cozinha, ao mexer o arroz. Depois teve a certeza. Talvez alguém do autocarro tivesse deixado o cheiro. Ou talvez Frederico.
Em Novembro, foi impossível duvidar. Frederico chegou mais tarde, corado, animado, com aquela roupa. Ligue-se ao cheiro de flores, coisa de perfume caro, de mulher que nunca foi ela. Estive em reunião, desculpou-se, tirando o casaco. Marília pendurou-o e ficou um ou dois segundos a olhar para ele. Depois voltou ao arroz.
Era exímia no talento de não pensar sobre o que não queria saber. Não por medo do marido, mas por medo das consequências.
A conta conjunta crescia. Mais devagar, mas subia. Frederico mostrava-lhe o extrato, apontando para os números. Vês? Estamos perto.
Vais tratar da negociação com os donos, Frederico?
Eu trato disso. Tu trata da economia.
Assim ficou combinado.
No Natal, o marido começou a chegar tarde com mais frequência: são jantares da empresa, sabes como é. Marília aceitava. Aceitava quase tudo.
Porém, a 28 de Dezembro, ela encontrou um talão. Quase por acaso, ao preparar o novo blazer para o guardar. O talão dizia Restaurante Ostras do Parque, data, hora. O valor era o que ela gastava num mês em refeições, contado centavo a centavo, feito arroz, enlatados, chá do mais raso.
Devolveu o talão ao bolso e olhou pela janela. Viu uma senhora a passear um cão pela calçada.
À noite, perguntou sem olhar:
Frederico, o Ostras do Parque é caro?
Ele ergueu os olhos, um segundo de pausa:
Sei lá? Nunca lá meti os pés.
Marília sorriu e voltou ao chá.
Fevereiro foi frio e mudo. Voltou à consulta. A médica repetiu: Está no limite. Continua com os suplementos, mas, se puderes
Não posso.
Frederico apareceu animado. Tinha novo cinto, novos sapatos (uns castanhos, de sola fina, nada baratos).
São novos?
Estavam em promoção.
Ela acenou.
No início de Março, viu no telemóvel dele uma notificação do AutoLisboa. A sua Essence-Sport está pronta e o laço vermelho foi colocado, como pediu. Um carro grande, novo e caro. E aquele laço, como nos anúncios das surpresas românticas.
Só tarde, já deitada, percebeu: era um presente para alguém. Não era para ela. Era um enfeite de novela, a promessa de outro viver a acontecer em paralelo.
Pensou no arroz.
Nos comprimidos de vitaminas.
No casaco velho da loja em segunda mão.
No cabelo sem corte. Na conta conjunta.
Na manhã seguinte, ligou ao banco. O saldo era metade do que devia ser. Metade. Dois anos poupados, metade.
Nesse dia, começou a seguir-lhe os passos. Não gostava do termo, mas sentiu a necessidade.
Numa tarde de quinta, saiu atrasada, só para arejar, pensava ela. Mas seguiu o carro do marido, que parou não no escritório, mas num centro comercial.
Frederico estava no balcão das pratas, com uma mulher loura, uns trinta e muitos. Eles riam, próximos, a partilhar o mundo, escolhendo, talvez, uma pulseira ou corrente. Ele pagou com o cartão comum o gesto tão rotineiro como comprar pão.
Marília não se aproximou. Ficou atrás de uma coluna, a disfarçar o olhar com um SMS inventado.
Depois, andou devagar até casa, sem raiva nem lágrimas, só um peso silencioso por dentro.
Nos dias seguintes, seguiu a rotina. Cozinhou, limpou, ouviu o marido.
Acho que os donos podem aceitar prestação. Assim nem precisamos de juntar tudo de uma vez.
Prestação repetiu Marília.
Sim, claro, é o futuro.
E quanto temos agora?
Não sei, amor. Preciso ver.
Vê quando puderes.
Liame de silêncio.
Ligou à filha nessa noite.
Mãe, está tudo bem? Pareces outra.
Estou só cansada. A poupar.
A sério, mãe. Vale assim tanto aquela casa? E se comprasses um T2 aqui mais perto?
Frederico quer a casa.
E tu?
Também quero.
Desligou e ficou a pensar na ameixeira. Talvez nem houvesse ameixeira. Talvez fosse só uma imagem da internet, escolhida porque sabia que era isso o que ela sonhava.
Um dia depois, ligou para o AutoLisboa, perguntando sobre o Essence-Sport.
Ah, foi entregue um com laço vermelho na semana passada. Um presente romântico, lindo!
Pois, obrigada.
Desligou. Fez café instantâneo.
Consultou a conta, os extratos. Via os movimentos: depósitos guarnecidos pelo seu rigor, outros raros e tímidos vindos do ordenado dele. Depois, as saídas maiores, regulares, nunca explicadas.
Abriu o caderno das despesas domésticas, linha a linha, página a página. Fez contas durante horas ao som do Frigidaire. Quando terminou, a imagem era nítida: três anos de esforço, dinheiro a evaporar, uma mulher em segunda mão loira, laços vermelhos, restaurantes de frutos do mar caríssimos, camisas desconhecidas.
Naquela noite, viu Frederico na cadeirão a ver o telejornal.
Queres jantar?
Não, obrigado. Já é tarde.
Deitou-se. Ficou a olhar o tecto. Ele chegou, deitou-se e adormeceu em minutos.
Marília esteve acordada, a pensar em si, em quando esquecera que era pessoa com vontades, não só necessidades. Gostava de café verdadeiro, aquele dos Açores, amargo e encorpado. Não comprava há meses. Sonhava em comer queijo da serra, ou pelo menos um bom pedaço de Broa de Avintes com uvas ao jantar, como antes.
Nunca tinha comido ostras, mas recordava de as ver em férias no Algarve, quando era jovem e achou que nunca teria dinheiro para tanto luxo.
A decisão veio lenta, como pão a cozer em fogo brando. Não soube apontar o segundo em que decidiu. Mas, de manhã, o sentimento era um, pleno na sua clareza.
Durante uma semana agiu normalmente, cozinhando, limpando, suportando conversas e profundas ausências. Numa quinta-feira, vestiu o velho sobretudo cinzento guardado no roupeiro. Seguiu Frederico e viu o beijo na mulher da loira, o presente nas mãos dela, a certeza no gesto dele.
De regresso a casa, começou a arrumar as coisas numa mala grande só o que era seu: alguma roupa, documentos, papéis. O cartão da reforma. Uma agulha de coser. O casaco azul da loja de usados.
Escreveu num papel: Obrigada pelo laço e pelo jantar. Espero que te saiba bem.
Pousou a folha na mesa da cozinha, junto de uma nódoa de café.
Levantou-se.
O frigorífico resmungou na sua canção.
Até à próxima, murmurou Marília, e fechou a porta.
Na rua, gente apressada, cachorros, luzes do quiosque de flores acesas.
Sabia para onde ia.
O grande supermercado Mercado dos Sabores ficava a dois quarteirões. Passava por ele sempre a caminho do autocarro, mas nunca entrava. Era dos caros, da gente próspera. Desta vez, entrou.
O cheiro a pão quente e café recém-moído envolvia as gôndolas. Música jazz baixinha. Prateleiras altas carregadas.
Pegou num cesto. Campeava.
Foi direto ao balcão do peixe. Na banca, atum fresco, filetado, uma cor vibrante, quase a chamar por ela.
Quero este, se faz favor.
No expositor do marisco apanhou uma caixa de ostras. No corredor dos queijos, escolheu um pedaço azul, daqueles agradáveis e picantes. Um trigo escuro, crocante, com sementes. E, por fim, café moído dos Açores, embalagem azul-escura: Notas de mirtilo na prova.
Na caixa, passou todos os produtos. Pagou sem pestanejar com o cartão da sua conta pequena.
Saiu.
Não tinha destino claro. Não queria ir já para o norte, para casa da filha, nem telefonar à amiga Clara. Deu por si a entrar numa pensão pequenina para passar a noite.
No quarto, desembrulhou tudo na pequena mesa redonda. Abriu ostras a custo. Comeu uma, depois outra, mastigou pão e queijo, saboreou atum cru. Fez café. O aroma era mesmo de frutos vermelhos.
Marília sentou-se a olhar pela janela: Lisboa brilhava nas luzes húmidas de Março.
Não pensou em Frederico. Não pensou em promessas. Pensou só em si, nesse instante breve em que a liberdade tem sabor: o das ostras frias, do pão denso, do queijo forte, do café aromático.
E percebeu: não era guerreira, nem mártir, nem heroína. Era só alguém que diferenciava uma ostra verdadeira de uma merenda barata; alguém a reaprender a viver.
Bebeu o café às golfadas pequenas. Lá fora, acenderam-se os candeeiros da rua, um após outro, como se alguém finalmente acertasse o botão certo.
Marília comeu o último pedaço de queijo, sobre pão escuro, e ficou a olhar as luzes, sem falar, sem precisar de mais.
Aquilo bastava.
***
Quando acordou, o céu estava branco. O tecto da pensão tinha uma mancha de humidade, mas não lhe pesava sobre o peito.
Arranjou-se devagar. Enviou uma mensagem à Clara: Posso passar aí? Preciso conversar.
A resposta foi rápida, calorosa: Claro que sim. Tenho chá. Vem.
Tomou o pequeno-almoço no café da pensão: ovos mexidos, tosta, café a sério.
Na mesa ao lado, uma senhora lia jornal, indiferente ao mundo.
Marília olhou-a e achou que, afinal, quem come sozinho nem sempre é solitário. Pode ser simplesmente livre.
Mais tarde, saiu, vestiu o casaco velho, apanhou o autocarro para o bairro de Clara.
O cheiro do ar era outro, ligeiramente húmido, promessa de Primavera. Na paragem, uma jovem empurrou um carrinho de bebé; uma gralha pousou num poste, a observar tudo.
E tu, pássaro, o que dizes? sussurrou Marília.
A gralha voou, ocupada.
Ela sorriu discretamente e embarcou.
O autocarro rolou por Lisboa. Prédios, lojas, árvores, outdoors. Marília pensou em como, nos últimos três anos, deixou de reparar no mundo. Não havia espaço mental para ele.
O tempo de olhar recomeçara agora.
O veículo parou no semáforo. Ao lado, noutro carro, uma mulher cantava alto, despreocupada no seu mundo.
Verde. O autocarro avançou.
Marília recostou-se e deixou o olhar vaguear. O telemóvel ficou calado no bolso. Frederico talvez já tivesse acordado, talvez não. Era agora assunto dele.
Ela ia ter com Clara, chá à espera e conversa longa. Depois, logo se via: problemas, receios, dias incertos. Nada de felicidade pronta, só reconstrução delicada.
Mas haveria café bom, ostra fresca.
Um espelho onde olhar sem estranheza.
Haveria, talvez, ainda ameixeiras e alfazema. Mas não de promessas alheias das que ela pudesse plantar por si.
Quando calhasse.
Por agora, tinha Marzo, o autocarro, Lisboa a passar devagar nas janelas, e tudo ainda por descobrir.
E isso, como quem encontra um sabor antigo na boca, já era mais do que suficiente.







