Resposta sem falhas

Carolina, despachaste-te? Vou chegar atrasada à escola! Leonor sacudiu a última camisa do Diogo e pendurou-a no estendal do velho varandim. Ainda cheirava ao sal do mar e à tinta descascada que escalavrava as paredes como crostas de pão. Ali era o seu refúgio, o poleiro secreto onde o mundo lá fora parecia menos nublado e mais dela.

Chegou-se às grades de ferro, sentiu o frio nos dedos magros e ficou especada. Do sétimo andar via o Tejo a enrolar-se no casario, ondulava como sonho antigo, inundado por um sol de Primavera tão brilhante que obrigava os olhos a fechar-se. A vida estava ali mesmo, a respirar-lhe nos braços: clara, intensa, demasiado intensa para alguém que tem tantas dúvidas e tanto futuro. Leonor apertou os olhos até as pestanas fazerem sombra no rosto. Se conseguisse despachar as tarefas todas, talvez tudo corresse mesmo como ela imaginava, talvez… A esperança, de repente, tinha o sabor de limão.

Um sopro de nuvem engoliu o sol por uns instantes e Leonor estremeceu, como se acordasse de repente de um embalo. A realidade sempre vinha assim: de rompante, com cheiro a chão, seca e rugosa como pão de véspera. “A Vida é o que fazemos dela”, dizia a Dona Teresa, a vizinha do segundo esquerdo, sempre com o avental e as orelhas atentas. E Leonor pensava se seria mesmo assim. Dona Teresa não tinha curso mas dizia cada coisa sábia! O pai não dava conta de tudo, o dinheiro era migalha, os irmãos ainda tão pequenos teria ela que escolher entre universidade e trabalho. Mas a cabeça não parava no querer; era preciso decidir, pesar, agir. Por ora, não havia saída: só trabalhando ajudaria o pai.

O relógio pequenino no pulso prenda do pai no segundo ano de escola dizia que já se fazia tarde. “Atraso outra vez!” Leonor fechou os olhos, respirou fundo, recolheu o alguidar vazio e empurrou a porta do varandim.

Carolina dormia adormecida, uma mão pequenina debaixo da face, loura de caracóis que enevoavam a almofada. Foi ali, no silêncio, que Leonor se perdeu a contemplá-la por um instante. Tão bonita pestanas quilométricas a desenhar sombras doces, cabelo de filme antigo. Cortar aquela preciosidade? Nem pensar! A mãe também tinha caracóis assim mas falar da mãe era coisa sem jeito. Perdoava muita coisa, mas traição não. E a mãe partira as deixara. Carolina, tão bebé, chamava Leonor de mãe e as vizinhas e mães dos outros na praceta olhavam de lado, invariavelmente. Lembrava-se bem do dia em que teve de enfrentar as línguas afiadas das vizinhas.

Tinham mudado para aquele prédio depois da morte da avó Emília, quando o apartamento ficou para o pai. Na T2 minúscula antes já não cabiam todos; ali ao menos podiam fugir uns dos outros, tropeçar menos nas mágoas.

A avó, professora catedrática da Universidade de Lisboa, era mulher de pedra e mármore, nunca sorria para estranhos e tinha mil reservas. Leonor, ainda miúda, nunca percebeu a dureza; depois percebeu que pouco podia fazer só suportar calada as palavras afiadas como faca.

Tu és igual à tua mãe… Dificilmente daí sai alguma coisa que preste, a não ser que dominem os nossos genes, mas o teu pai… Enfim. Só o estudo te há de salvar, ou vais acabar como ela.

Nem resposta dava, só arranjava modo de sumir sem fazer barulho, dentes cerrados e mãos ocupadas a limpar o chão ou a arrumar bibelôs. Uma vez, quando a avó lhe disse, sem piscar, que os irmãos não eram netos dela, Leonor perdeu-se de raiva, gritou e quase partiu a colecção de porcelana.

Nunca mais ponho os pés nesta casa!

A avó ficou atónita; Leonor saiu, já com o casaco mal vestido, correu escada abaixo. Chegou a casa a arfar. Carolina balbuciava no parque. Tirou só as botas e correu logo a pegar na irmã:

Tu és minha. E o Dioguinho também. Não interessa quem diz o quê, não precisamos de mais ninguém.

O pai apareceu à porta, as mãos cheias de lavagens, sem perceber as lágrimas da filha mais velha. Carolina acendeu o choro também, só por solidariedade, e o Diogo, da mesa dos trabalhos de casa, espreitou e encolheu os ombros:

Mulheres! Vão jantar? Nós fizemos esparguete.

O telefonema da avó chegou uma hora depois. Leonor largou a loiça suja e ficou a ouvir o tom do pai, que mudou rápido de espantado para irritado até rebentar em zanga. Sentou-se à mesa, aninhada, à espera do escândalo… Mas nada. Só o pai, que apareceu mais tarde, puxou-a para um abraço e beijou a testa.

Não precisas de voltar lá. Ninguém família ou não tem o direito de te humilhar.

Sentiu o alívio a tremer-lhe no peito. Afinal, podia haver paz na casa e nos dias.

A avó morreu passado um ano e meio; Leonor reatou a visita nas últimas semanas, acompanhando o pai ao hospital. Era como ver uma sombra da mulher que fora. Só a secura das palavras se mantinha. As enfermeiras suspiravam de alívio pela presença de Leonor, que, sentada sempre tão direita, acalmava a velha senhora e permitia que cuidassem melhor dela.

Miúda, és uma força elogiava a enfermeira-chefe, numa palmada de ternura. Não guardes rancor, filha. Quem nunca foi feliz, não sabe amar. Isto é que assusta.

Na última tarde, avó ficou calada, olhos nos telhados cinzentos para lá da vidraça húmida. Leonor arrumou o caderno do ensaio numa mochila.

Vou-me embora.

Espera… perdoa-me, menina… cuida do teu pai…

Leonor acenou, fechou a porta, mas voltou para depositar um beijo na face antiga da avó. Foi a última vez. Demorava quase uma hora a ir para a escola e estava em cima da hora.

No dia em que a avó morreu, Leonor ouviu tudo do pai, buscou os irmãos e recolheu-se, protegendo-lhes a dor, porque o que para ela era custoso, para o pai era ruína. Sabia que ele ficaria a chorar, sozinho na cozinha, antes de cuidar do futuro dos três.

A mudança foi coisa de novela: Carolina doente, Diogo revoltado, o pai sem tempo para respirar. Leonor embalava caixas e fazia promessas mudas ao desconhecido, como se alguém ouvisse lá em cima.

Na nova casa, cada um buscou refúgio nos seus cantos. Mas rapidamente Carolina acabou por dividir o quarto da Leonor nunca dormia sozinha e Diogo passava a vida na cozinha, o reino onde Leonor conquistava cada dia. O ritual dos trabalhos de casa, da sopa e das dúvidas matemáticas foi o fio condutor das tardes.

Traz-me o sal! pedia Leonor, enquanto tentava decifrar a física.

O que faço ao arroz?

Espera aí… já vejo.

Isto não bate certo! Negativos outra vez, Leonor?

Mostra cá.

Carolina desenhava a lápis num bloco ao lado: “Se os grandes fazem, também quero”.

As dificuldades multiplicaram-se nos dias seguintes. Quando Carolina adoecia, Leonor faltava à escola. Entre irmãos, só a creche dava um descanso de vez em quando. Assim foi até conhecer Matilde.

Foi acaso. Numa ida ao parque, na primeira semana, Carolina quis ir ao baloiço, mas já havia fila. Gritou:

Mãe!

Um silêncio tenso cortou o ar da praceta. As mães sentaram-se espertas, a condenação pronta, língua mordaz.

Tanta juventude… que vergonha… murmuravam.

E Leonor, sem saber para onde levar a irmã, sentiu o cerco.

Então, o que se passa aqui?

Leonor estremeceu. Por instantes, achou escutar a avó, voz dura como metal. As senhoras calaram logo.

Ah, Matilde, bem aparecida. Temos vizinha nova, mas pelos vistos não encaixou

Matilde, ainda nova, agarrou o filho, fitou tudo em volta, largou um desdém.

Algum problema? olhou o grupo.

Uma senhora apressada atirou:

Uma criança a criar outra… é uma vergonha! Deviam levar a putinha para um lar, que não é trabalho de menina! Só os adultos é que…

Mais alguma? Matilde arqueou uma sobrancelha, olhar de gelo.

A questão ficou no ar. As vizinhas dispersaram envergonhadas.

Como te chamas?

Leonor. E esta é a Carolina.

Eu sou Matilde. Escusas de me chamar dona. Nem tía.

Matilde serve, prometo.

Depois, tornaram-se amigas, como se o destino tivesse escrito nas entrelinhas. Quem diria? Quase trinta anos de diferença, mas ali formava-se uma ilha de afectos.

Matilde era advogada, temida e respeitada no prédio inteiro, sabia todos os segredos do condomínio. Animava a Leonor, rir-se das cortinas, e arranjar desculpas para conversar.

Imagina o que já não sei destas portas para dentro… Mas é tão mais fácil viver de fachada, Leonor.

Leonor entendia bem; foi o pai que fugira para ali por causa das histórias da mãe…

Matilde foi a primeira pessoa a quem Leonor contou do abandono materno. Guardara para si todo o fel, mas a amizade permitiu-lhe deixar pingar perguntas e mágoas.

Num dia de tempestade, Matilde pediu-lhe para alimentar o gato Manel.

Tenho julgamento, depois consulta médica. Pode ser que não chegue a tempo. Avisa-o, que senão fica ofendido e mia a noite toda

Leonor riu-se.

Que seja, é um gato…

Tu vais ver. O bicho é um general, vivo para o servir.

Mostrou-lhe a comida na despensa e correu a sair.

A tarde demorou, o irmão e Carolina prenderam Leonor. Quando chegou à casa da Matilde, já passava das oito.

Desculpa, Manel, veio como foi possível!

Manel nem bufou, apenas roçou-lhe as pernas, ofendido com a demora.

A porta bateu e Matilde irrompeu, pó de desalento.

Obrigada, Leonor. largou a mala e desabou na cadeira. Um pranto estranho. Leonor ficou sem palavras e só lhe aconchegou o ombro, como fazem as amigas sem saber porquê.

Desculpa, é só o mundo a pesar. Não tenho mãe, não sobrou ninguém.

E eu? Não conto?

E Matilde, a rir-se de lágrimas, puxou-lhe um caracol entre os dedos.

Sempre quis estes cachos… As mulheres querem sempre o contrário do que têm; eu queria cachos. E um filho.

Ficou suspensa na frase.

Os caracóis fazem-se, Matilde.

Um filho é mais complicado Este é o meu fado, Leonor. Por culpa minha nunca serei mãe. Asneiras pagam-se caro.

Contou de uma gravidez que terminou numa viagem: uma queda de mota na Tailândia, ossos quebrados, hospital, tristeza crónica. O marido, Maximiano, não suportou aquele abismo, e quando voltaram a Lisboa, separaram-se.

Fiquei sozinha, mas sobrevivi. Anos depois, voltámos a cruzar-nos. Já sem mágoa; ficámos amigos.

Mesmo assim, sabia que ele sempre quisera um filho. Leonor revirou nos papéis não havia esperança? O médico tinha sido peremptório.

Tenta na mesma. Se não resultar, então chora.

Matilde sorriu e agradeceu. Às vezes, a sabedoria chega antes do tempo.

Já agora, conta-me tu, Leonor. Onde está a tua mãe?

Leonor ficou em silêncio, abriu o coração e enfim, pela primeira vez, deixou entrar no sonho alguém de verdade. Lá fora, Lisboa já adormecia, mas por dentro soava um fado de esperança, como se o destino apesar de tudo pudesse ser mudado.

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