O anel que chegou atrasado

O anel que chegou tarde

Vieste em vão, Nuno. Agora o lugar está ocupado.

Ela estava parada à porta e não recuava. Não porque quisesse ser cruel. O vão era estreito, e ela tapava-o com o corpo, e havia ali uma verdade simples, que Nuno, naquele instante, ainda não compreendia.

Chegou com flores. Crisântemos brancos, uns quinze, embrulhados em papel pardo, como lhos deram na florista junto à estação do metro. A vendedora perguntou: É para alguma ocasião? Ele respondeu: Tenho um assunto importante a tratar. Ela acenou com a cabeça e enfiou um raminho de eucalipto de borla. Naquele momento, Nuno pensou que aquilo era um bom presságio.

Agora estava na escada do terceiro andar, de flores na mão, a olhar para a Violeta. Ela vestia um roupão azul, com pequeninas flores brancas, e o cabelo apanhado, nada de especial, só mesmo para estar em casa. Não parecia estar à espera de visitas. Ou, se calhar, sim mas não dele.

Posso entrar? Pelo menos para falarmos.

Já não há nada para dizer, Nuno.

Não era pergunta. Era sentença. Cansada, definitiva, como janela fechada em novembro chuvoso.

Lá dentro cheirava a empadas. Não apenas a bolo ou a pão, mas àquele cheiro que Nuno conhecia desde o primeiro dia em que entrara em casa de Violeta. Fazia-as com couve e ovo, um aroma quente, caseiro, que sempre quisera dizer que o esperavam, que havia lugar para ele ali. Tantas vezes regressara a esse cheiro, que se tornara o seu porto seguro: se havia empadas, a casa estava bem, alguém o aguardava.

Mas hoje não era para ele.

Atrás de Violeta, no corredor, vinha uma luz suave, amarela. E, da cozinha, uma voz masculina fez-se ouvir:

Violeta, achas que ponho o temporizador para cinco ou dez minutos?

Ela virou ligeiramente o rosto:

Para dez, Sérgio.

Sérgio. Algum Sérgio estava na cozinha dela e perguntava do tempo das empadas. Os crisântemos nas mãos de Nuno começaram a arrefecer.

Não se recorda de como desceu. Lembra-se apenas de não ter chamado o elevador, mas descer pelas escadas, contando os degraus. Trinta e seis: três lanços de doze. Lá fora estava um frio húmido, uns dois graus e chuva miúda quase invisível. Sentou-se no carro, pôs as flores no banco de trás e ficou tempo sem fim a olhar pelo vidro da frente, onde as gotas corriam.

Depois tirou do bolso do casaco uma caixinha. Pequena, de veludo azul-escuro. Abriu. O anel repousava numa almofada branca, brilhando sob o candeeiro da rua. Simples, de ouro, com um pequeno diamante. Não era barato. Andou quase uma hora na ourivesaria a escolher, a experimentar, a pedir conselhos.

Fechou a caixinha e guardou-a.

Dez anos. Dez anos a conhecer aquela mulher. Conheceram-se quando ela tinha quarenta e quatro, ele quarenta e cinco. Amigos em comum, uma festa da empresa em Lisboa, para onde um amigo o arrastou. Violeta era contabilista, estava casada, mas quase de saída do casamento. O marido já bebia demais há uns bons anos, e ela aguentava aquilo em silêncio. Nuno viu-a ao pé da janela, com um copo na mão, a olhar lá para fora, e havia nela qualquer coisa que nunca conseguiu explicar. Não era propriamente a beleza, ainda que fosse bonita. Não era elegância. Era uma dignidade interior, quieta, que só se sente.

Aproximou-se. Falaram durante duas horas, enquanto à volta toda a gente dançava e bebia. Ela ria baixo, mão à frente da boca, um hábito antigo de quem em tempos se envergonhara dos dentes. Os dela eram perfeitos; disse-lho logo, ficou embaraçada.

Meio ano depois, divorciou-se. Um ano após, já estavam juntos ou lá o que era aquilo, difícil pôr nomes.

Nuno era livre há muito. Sete anos antes. Tinha um divórcio, um filho já crescido a viver no Porto, apartamento, carro, emprego estável. Era engenheiro civil numa construtora, ganhava razoavelmente, vivia sem grandes perturbações. Estar com Violeta tornou-se parte boa da vida. Iam estando. Ele podia chegar quando queria; ela abria-lhe sempre a porta e não pedia mais. Ia-se embora quando lhe apetecia; ela não reclamava.

Uma vez, ao fim de três anos, Violeta arriscou:

Nuno, achas que vamos a algum lado?

Ele ficou de surpresa, como quem apanha um balde de água morna a meio do dia. Encolheu os ombros, respondeu: Estamos juntos, não estamos? E ela acenou. Ou fez de conta que sim. Achou que tudo estava entendido.

Nunca lhe fez cenas. Nem lágrimas, nem exigências. Uma vez esteve duas semanas na pesca com amigos, sem ligar sequer. Quando voltou, ela recebeu-o com jantar, perguntou do peixe. Ele pensou: que mulher fantástica. Sem dramas, sem pressas.

O que não percebeu só agora, tantos anos depois, ali no carro com os crisântemos gelados é que aquela paz não era resignação. Era outro tipo de paciência. De quem espera, observa, tira as suas contas. Devagar, sem pressa; quando já se viu tanto, não vale a pena correr.

Acendeu um cigarro. Não fumava há cinco anos, mas no porta-luvas havia um maço velho, amarrotado, três cigarros. Olhou a janela do terceiro andar: luz acesa, amarela, quente.

Na manhã seguinte telefonou.

Temos de falar.

Tu já disseste tudo em dez anos. E eu disse-te tudo ontem.

Violeta. Espera. Eu não vim por acaso. Trouxe um anel. Ia pedir-te em casamento.

Silêncio longo, três, quatro segundos. Pensou que tinha caído a chamada.

Estás a ouvir?

Ouço-te. Nuno, foste querido. A sério. Mas já não faz sentido.

Como não faz? É verdade. Comprei o anel. Pensei em tudo.

Eu sei que pensaste. Esse é o problema.

Desligou. Sem barulho, simplesmente pousou.

Tentou de novo. Sem resposta. Mandou mensagem: Violeta, vêmo-nos uma vez? Só para conversar. Ela respondeu duas horas depois: Não, Nuno. Não agora. Esse agora não ele tomou por um dia talvez. Errou.

Na ourivesaria disseram-lhe que podia devolver em quatorze dias. Não devolveu. Guardou a caixinha na cómoda; às vezes abria, olhava. Nem ele sabia bem porquê. Para acreditar no que tinha acontecido, talvez.

Uma semana depois, enviou-lhe flores para o trabalho. Grande ramo, cartão: Desculpa. Temos o que salvar. Ela aceitou mas não telefonou. Por uma colega soube que o colocou num jarro na copa, sem mudar a expressão.

Serenidade. Não alegria, não emoção. Serenidade.

Isso desestabilizava-o. Estava habituado à outra Violeta: a que corava, a que lhe fazia bacalhau com natas sem ele pedir, a que atravessou a cidade de transportes quando ele só lhe dissera ao telefone estar engripado.

Aquela Violeta não podia simplesmente fechar a porta, falar curto, ser branda. Achou que estava com raiva, ou era orgulho, ou talvez encenação talvez, pensou, a verdadeira Violeta ainda estivesse lá dentro, à espera que ele lutasse.

Começou a tentar.

Três semanas depois, apanhou-a na entrada do prédio. Vinha do supermercado, sacos pesados, um pouco inclinada pelo peso. Foi ter com ela, tirou-lhe os sacos das mãos antes que recusasse.

Dá cá, Nuno.

Eu levo. Pesam-te.

Dá cá, Nuno.

Entregou-os. Ficou a vê-la entrar, levando o peso sozinha até ao elevador. Disse-lhe nas costas:

Sinto a tua falta. Ouvisto? Muita.

Ela parou à porta do elevador. Não se virou. Disse à parede:

Ouvi dez anos o teu silêncio. Vai para casa.

O elevador abriu. Ela entrou. As portas fecharam-se.

Ficou ali, no frio, achando-a cruel. Que era vingança, incompreensão, que ele mudara. Não percebia que não havia vingança. Havia aritmética. Uma conta que ela fizera durante anos e um dia acertou.

Nuno crescera em família portuguesa comum, na margem sul. Mãe professora, pai operário. Quarenta anos juntos. Nuno via sempre o mesmo modelo: mulher espera, homem faz a vida, e a família não desfaz. Não criticava o pai; era assim que se fazia. Mulher espera, homem vai e vem. Com a primeira mulher, Clara, separou-se porque ela não ficou à espera. Queria presença, tempo, conversa. Irritava-o. Discutiram, acabaram. O filho, Rui, tinha cinco anos. Ainda doía, mesmo que não o confessasse.

Com Violeta foi tão bom porque pensava que ela nada exigia. Enganou-se.

Ela exigia, mas não pedia. Exigia pela presença, pelo tempero, pelas empadas, pelo bacalhau, pelas idas pela cidade fora com medicamentos. Dava sempre, esperando que um dia ele dissesse: Violeta, estou contigo. Fica.

Nunca disse. Dez anos não disse.

Uma vez, há seis anos, foram juntos ao Algarve. Dez dias em Tavira, o único verão a dois. Ficaram no mesmo quarto, iam à praia, jantavam ao luar. Parecia vida de casados, e sentiram-no, à sua maneira. Ela floresceu. Riu-se mais alto, agarrou-lhe a mão no calçadão, sem pedir licença. Ele não a largou, mas teve um arrepio demasiado público, demasiado… compromisso.

De regresso, voltou-se a afastar. Sem combinar. Começou a estar menos tempo. Ela não perguntava porquê.

Ele achava: está tudo certo, mulher que compreende. Sempre ficará.

Sérgio conheceu-o há cerca de um ano e meio. Não na internet, mas numa casa de campo, amiga da Ilda. Ele fora ajudar a arranjar o telhado, amigo do marido da Ilda, viúvo, mestre de fábrica, vivia ali perto. Chamava-se Sérgio Manuel, mas todos tratavam por Sérgio, tinha cinquenta e dois anos. Baixo, mãos enormes, fala calma. Não era bonito, nem brilhante, mas sabia ouvir ouvir de verdade. E sabia estar em silêncio sem pesar.

A Ilda contou a Violeta que ele, depois desse dia, perguntou por ela três vezes. Sem pressas, só com curiosidade. Ilda, sabida, juntou-lhes numa jantarada, fingindo que era acaso.

Conversaram três horas. Ele levou-a a casa num carro velho, mas limpo. À porta disse:

Posso ligar-te um dia destes?

Ela hesitou. Contou à Ilda que, nesse segundo, relembrou os dez anos com Nuno. Respondeu:

Podes.

Fez agora quatorze meses.

Nuno soube de Sérgio, não por Violeta, mas pela Ilda não conseguiu omitir tudo. Encontraram-se na farmácia, ela falou mais do que queria, corou. Nuno ficou pasmado à porta, sem saber para onde ir.

Ali, pois, sentiu não ciúme, mas estranheza: como quem chega a casa e encontra fechaduras mudadas.

Foi então que comprou o anel.

Decisão estranha, impulsiva, pouco Nuno. Nunca fora de pressas. Mas entendeu, de súbito, que perdia. Não em teoria, mas agora, perdia aquela Violeta, das empadas e do roupão azul e da mania de tapar a boca a rir.

Foi à ourivesaria, comprou anel. Como se o anel pudesse remediar.

Correu a casa dela. Ela abriu. Disse: Vieste em vão, Nuno. O lugar já está ocupado. E da cozinha vinha o cheiro das empadas desta vez para outro.

Duante as duas semanas seguintes não telefonou, não foi lá. Depois mandou mensagem, pediu um encontro num café neutro só conversar. Ela aceitou: Sábado às quatro, na Pastelaria São Martinho.

Chegou vinte minutos antes. Escolheu mesa à janela, pediu café, depois trocou por chá, voltou ao café. Disfarçava o nervosismo.

Ela apareceu certa à hora. Casaco cor de vinho, que ele nunca vira. Cabelo solto, brincos novos, de âmbar. Estava bonita. Não provocante, só alguém a quem as coisas correm bem.

Pediram café. Silêncio.

Tens algo a dizer, diz, disse ela.

Violeta. Não vim por susto, nem por não ter outro caminho. Vim porque percebi que és tu.

Segurava a chávena com as duas mãos, olhando-o de frente.

Acredito que aches isso.

Não acho. Sei.

Nuno. Dez anos julgaste que nunca te iria faltar. E foi verdade. Nunca faltei. Esperei. Não pressionei, não pedi, porque pensava: não se apressa um homem. Vem quando quiser. Não vieste. Esperei por outro.

Mas quem é ele ao fim de um ano e pouco? Eu conheço-te há dez.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, como quem mede as palavras.

Aprendi nestes quatorze meses que conhecer alguém e viver com alguém não é igual. Tu conheces-me. Com o Sérgio, vivo. Todos os dias. É diferente.

Esteve calado. Depois:

Gostas dele?

Pausa.

Com ele estou serena. Não espero. Não fico à espera de chamada, nem de saber se vem ao fim de semana, nem de adivinhar-lhe o humor. Só estou. Todos os dias.

Não respondeste.

Respondi. Só não como querias.

Olhou pela janela. Na rua, pessoas com cães, com carrinho de bebé sábado igual a tantos. A vida a passar lá fora.

Que devo fazer? perguntou, baixo, quase para si. Diz-me. Faço.

Não deves fazer nada, Nuno.

Porquê?

Ela pousou a chávena, olhou-o sem mágoa nem triunfo.

Porque não se recupera em semanas o que nunca existiu em dez anos. Porque estou cansada. Não de ti, da espera. Dez anos fui sempre alternativa. Tu não viste, eu sabia. Continuei porque quis. A culpa também é minha. Mas agora escolho diferente.

Ouviu-a, e as palavras eram como agulhas, não por serem cruéis, mas porque acertavam no alvo. Não havia como rebater.

Ficaram mais um pouco, beberam o café. Depois papo sem importância: inverno, obras na baixa. Vestiu o casaco, ele ajudou-lhe com as mangas, por instinto. Ela não se esquivou, mas no gesto houve um fecho, página final de livro.

À porta disse-lhe:

És boa pessoa, Nuno. Mas já não és meu. Já não.

Saiu atrás, mas parou, vendo-a afastar-se, casaco cor de vinho na rua cinzenta de novembro.

Veio-lhe então aquela fase que mais tarde batizou de nevoeiro. No trabalho tudo andava. O projeto foi entregue; os chefes contentes. Por fora, nada de novo. Mas por dentro, só ruído. Não dor, mas ruído como estática de televisor velho.

De vez em quando telefonava ao filho Rui, que vivia no Porto, programador, casado, dois filhos. Não eram próximos de alma, mas falavam uma vez por mês ou duas. Nuno nunca contara a Rui sobre Violeta. Não por segredo, mas não sabia como explicar. Agora, já nem queria.

Um dia, em novembro, Rui perguntou:

Estás estranho, pai. Passa-se alguma coisa?

Nada, filho.

Voz diferente.

É o tempo.

Rui não insistiu. Falaram de futebol, dos miúdos, de séries. Desligaram. Nuno ficou tempo na cozinha às escuras.

Certa noite foi ao prédio dela. Sem plano. Só foi. Estacionou em frente. Olhou a janela do terceiro andar: luz branda atrás das cortinas. Ficou cerca de quarenta minutos, a fumar os últimos cigarros. Imaginou o que se passava lá dentro. Empadas, talvez. O Sérgio à mesa, a ouvir-lhe o riso abafado.

Sentiu-se mal. Não sabia que fazer com aquilo.

Quando gelou, foi-se embora.

Em dezembro houve jantar de Natal da empresa. Foi não era bonito faltar. Conversou mais nesses dias com uma colega, Marina, divorciada, da idade dele, risonha, faladora. Ela deu-lhe número de telefone: Liga se precisares. Ele guardou-o, mas não telefonou. Não tinha ânimo para novos inícios.

No fim de ano fez o impensável. Escreveu a Violeta um longo texto, páginas de verdade. Sobre o que percebera. Que os dez anos não tinham sido vazios. Que mudara. Falou das férias no Algarve, de como ela lhe pegou na mão. Disse o quanto agora lamentava ter fugido. Contou que o anel estava ainda na gaveta. Que pensava nela todos os dias.

Ela respondeu no dia seguinte, breve.

Nuno. Li tudo. É verdade. Importa que tenhas percebido. Mas o trabalho é teu, não meu. Fico feliz por ti. Mas não tenho para onde voltar, nem vontade. Sê feliz.

Sê feliz. Três palavras. Calmas, definitivas.

Janeiro foi incolor. Trabalhava, comia, via televisão, sem guardar nada. Um dia telefonou ao velho amigo Luís, amigo da faculdade, casado na segunda vez, três filhos, olhar de quem já nada teme da vida.

Foram ao café, beberam uma cerveja. Nuno contou tudo desde o princípio. Luís escutou.

Depois:

Pronto, Nuno. Comeste empadas dez anos, nunca pagaste o almoço, agora espantas-te que te peçam para sair do restaurante.

Não tem piada.

Não estou a brincar. É o que é.

O que faço agora? Fico parado?

Que mais podes fazer? Já fizeste tudo. É tarde. Às vezes é assim mesmo. O pior na vida é perceber que é tarde. Não por desgraça, só porque já passou. Irreversível.

Nuno não disse nada.

Era boa mulher, acrescentou Luís. Vi-a na tua festa há uns anos. Até levou salada feita em casa. Pensei: mulher de se lhe tirar o chapéu.

Para que dizes isso?

Tu é que pediste conselho. Não perguntaste? O meu é este: não voltes a insistir. Não ligues. Deixa-a viver. Parece que agora sim, está a viver. Tu também devias começar.

Pagou a cerveja. Nuno voltou para casa, martelado pela palavra “irreversível”.

Houve um momento que ficou a pensar depois. Em fevereiro, na baixa da cidade, viu-os. Por acaso. Estavam à porta da livraria. Violeta e o Sérgio. Ela dizia algo, rindo, apontando para a montra. Ele ouvia-lhe, cabeça inclinada. Não se davam as mãos, não havia beijos; só estavam ali, conversando, como quem está onde quer estar.

Nuno parou à sombra de um candeeiro, a uns vinte metros. Não o viram. Observou Violeta. O riso dela, aberto, sem mão a tapar a boca. Nunca antes a vira rir-se assim naqueles anos. Talvez Sérgio lho dissesse ou só a visse como ninguém.

Percebeu, por fim, caminhando por fevereiro molhado: não se trata de ser melhor ou pior. É que uma pessoa faz outra sentir-se mais ela própria. E há quem, sem saber, a torne mais pequena.

Achava que Violeta o esperava. Descobriu que ela esperava por si mesma pela coragem de escolher diferente.

Histórias reais parecem banais contadas: o homem não valoriza, a mulher vai embora, ele arrepende-se. Simples mas dentro de cada história cabem dez anos de vida real, sextas-feiras e domingos reais, cheiros a empadas reais, palavras ditas e caladas.

As relações, ou coisas parecidas, cansam não das pessoas, mas da espera. Ela cansou-se de esperar uma palavra. Ele não viu. Não por maldade. Por desatenção. E a desatenção pode ferir como traição, só que devagar.

Se algum psicólogo ali estivesse, talvez dissesse: Fugiu de compromissos por medo. Não dela, de si. Assumir é ser responsável se correr mal. Enquanto nada é fixo, ilude-se que nada vale tanto. Mas Nuno nunca foi a psicólogos. Achava aquilo disparate.

Chegou março, húmido, zangado. Chuva e nevoeiro, ruas escorregadias. Nuno ia para o trabalho, pensou finalmente: talvez valha fazer obras no apartamento. Sempre a adiar, sobretudo a cozinha, velha, desmazelada. Sempre a adiar por ser só para si. Agora pensou: porque não, se vivo sozinho?

Ideia pequena, quase tola. Mas diferente: não Violeta, não Sérgio, não a perda. Uma ideia sobre si.

Telefonou à equipa de obras.

O amor e o tempo, pensou depois, estão ligados mais do que parece. O tempo dado a alguém é o amor em estado puro. Não palavras, nem presentes, nem anéis em caixinhas de veludo. É tempo. E ele não volta. Violeta gastou dez anos da vida com Nuno. Ele achava que ela nada perdeu, que só vivia e, de vez em quando, estava com ele. Não era verdade. Podia ter dado esses anos a outro ao Sérgio, ou a outro qualquer. Ou a si mesma.

A felicidade depois dos cinquenta, aquela que Violeta encontrou, não é sorte. É escolha. Ela soube largar o passado, não com alarde, mas com decisão. Pôs-se à frente, não por egoísmo, mas por respeito ao seu tempo. Essa é a sabedoria das mulheres antigas não a de aguentar, mas a do limite.

Raras vezes as relações terminam por alguém ser mau. Terminam porque cada um está num lugar. Ele pensava estarem juntos; ela sabia estar sozinha. Era esse o fosso.

A obra na cozinha ficou pronta em abril. Armários novos, bancadas claras, luz diferente. A casa parecia outro sítio. Pôs um vaso na janela, não sabia o nome da planta, comprou porque gostou. Regava dia sim, dia não. A planta sobreviveu.

Certa manhã, Rui telefonou sem razão.

Como estás, pai?

Bem. Fiz obras.

Finalmente! Estiveste eternidades a adiar.

Agora já estava na hora.

Olha, eu e a Marta pensamos ir aí em maio, nos feriados. Levar os miúdos.

Nuno hesitou um segundo.

Venham. Há espaço.

Não é incómodo?

Vinde. É com gosto.

Falaram da viagem. Rui comentou:

Pai, estás diferente ultimamente. Para melhor.

Diferente em quê?

Não sei. Mais calmo, talvez. Antes despachavas sempre, agora conversamos com calma.

Nuno nada respondeu. Mas ficou na cozinha nova, a beber chá, a pensar nas palavras. Calmo. Talvez seja início de outra coisa. Não felicidade, que isso é palavra grande. Mas outro começo.

Violeta nada sabia disto. Nem Sérgio. Tinham agora a própria vida.

Em maio, foram passar duas semanas à aldeia dele, no Alentejo, entre campos e silêncios. Ela plantou pepinos pela primeira vez de mãos na terra. Ele olhava-a na horta, sorria-lhe.

Estás a olhar porquê?

Gosto de ver-te.

Ela sorriu de lado, voltou ao trabalho, mas nos ombros viu-se um calor novo.

Nessa noite sentaram-se no alpendre. Cheiro a terra, a erva; um pássaro chamava ao longe. Ele serviu chá, ela agarrou na chávena, e o silêncio era lânguido, feliz.

Sérgio, disse ela.

Diz.

Estou bem.

Ele olhou para ela.

Eu também.

Não era preciso mais.

Largar o passado não é técnica. Acontece quando há presente. Quando hoje existe, ontem é só história. Não ferida. Não dívida. Só história.

Nuno não soube dos pepinos, nem do alpendre. Naqueles dias, recebia o filho e netos; levou-os ao jardim zoológico, deu-lhes gelados apesar da Marta protestar. Rui via o pai mudado, menos fechado.

Na última noite, sentados os três na cozinha renovada:

Pai disse Rui , não pensas… sabes… viver sozinho custa.

Não estou sozinho. Estou comigo.

O que é o mesmo.

Não. É diferente.

Rui calou-se, depois assentiu.

Está bem. Como queiras.

Nuno olhou a cozinha. Nova, clara, com a planta na janela. Pensou que Violeta nunca tinha visto aquela cozinha. Só a velha. Isso era estranho e um bocadinho triste. Não muito, só um pouco.

Tive uma mulher, disse de repente. Violeta. Estivemos juntos muitos anos. Não fui o melhor.

Rui não se surpreendeu, só olhou-o de forma atenta.

Acontece.

Acontece, repetiu Nuno. Agora tem alguém, dizem que é boa pessoa.

Arrependes-te?

Nuno pensou.

Arrependo. Mas não de querer voltar. Arrependo-me porque percebo o que perdi. Não é igual.

Rui assentiu. Acabaram o chá, lavaram as canecas e apagaram a luz.

Nessa altura, ela dormia na cama de ferro na aldeia, coberta por manta pesada, com o Sérgio a seu lado. O ar morno da noite entrou pela janela, cheirava a ervas. Sonhou algo luminoso, esqueceu depois. Ao acordar cedo, saiu, agarrou na chávena, tomou o ar e soube: era aquilo. Não ele, não ninguém. Só o sentir. Afinal estava no seu lugar. Finalmente, em casa.

Não pensou em Nuno. Nem um segundo. Talvez pela primeira vez em anos. Não por esquecimento só porque já não fazia falta.

Nessa manhã, Nuno levantou-se cedo, fez café, sentou-se à janela. Os netos ainda dormiam. Abril era verde, impaciente. Tirou do bolso a caixinha de veludo azul, abriu, olhou o anel.

Depois fechou. Colocou-a na gaveta. Foi até à janela.

No parapeito, a planta seguia viva. Nunca soube o nome.

Olhou a rua, bebeu café, e pensou em nada ou em tudo ao mesmo tempo. Porque é assim de manhã cedo, quando se está só, mas não propriamente sozinho, e o futuro é incerto, mas existe.

Da sala vieram vozes. Os netos acordaram.

Avô! gritou o mais novo. Avô, onde estás?

Aqui, respondeu. Já vou.

E foi.

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