Volta e Cuida de Mim

Maria, abre já a porta! Sabemos que estás aí! A Beatriz viu luz na janela!

Maria estava a acabar de atar uma haste de lisianthus a um suporte de madeira. As mãos manchadas de verde, o avental sujo de terra. Levantou a cabeça e olhou para a porta de vidro do ateliê. Atrás dela, duas figuras esperando. Reconheceu uma logo, mesmo com o vidro embaciado. Ombros largos, cabelo pintado, cor de cereja madura. Dona Lucinda. Sogra. Ex-sogra.

Maria não tinha pressa. Colocou a lisianthus no balde de água, tirou as luvas, pendurou-as no prego da bancada. Depois, finalmente foi abrir.

Boa noite disse enquanto puxava o tranco.

Dona Lucinda entrou primeiro, sem convite. Beatriz, irmã de Luís, entrou logo atrás, os olhos vermelhos, o cachecol enrolado à pressa, pendendo de um lado.

Que boa noite, Maria, estás no teu juízo? Dona Lucinda olhou o ateliê como quem procura defeito, encontrou-o: A cheirar flores enquanto ele morre no hospital.

Quem morre? perguntou Maria, de voz serena.

O Luís! gritou Beatriz, tapando a boca. O Luís está no hospital. Acidente. Coluna.

Maria olhou as duas. Por dentro, qualquer coisa apertou. Mas já não era como antes, quando o nome Luís enchia o peito de dor. Agora era um aperto diferente. Silencioso, desconfiado, como quem já se queimou e não faz intenções de se aproximar do fogo.

Sentem-se disse, indicando dois bancos junto à bancada.

Isto não é para sentar cortou Dona Lucinda, mas acabou por se sentar pesadamente. Lembrava-se: as pernas dela nunca foram boas. Varizes, tensão alta.

Beatriz ficou de pé, a mexer no cachecol torcido.

Expliquem-me pediu Maria.

Contaram. À vez, atravessando-se e contradizendo-se nos pormenores. Três dias antes, Luís conduzia na autoestrada. Chovia. O carro derrapou e bateu no separador. Dizem que o carro foi à sucata. Ele sobreviveu. Fratura na coluna, operação feita, mas os médicos não oferecem certezas. Pode andar, pode não. Precisa de cuidados. Precisa de família.

E a Cláudia? perguntou Maria.

Surpreendeu-se ao ouvir o nome. Um ano antes, soava como punhal. Cláudia, vinte e oito anos, gestora de vendas, por quem Luís deixara a família após dezoito anos de casamento.

Dona Lucinda apertou os lábios.

A Cláudia foi-se embora.

Para onde?

Para a mãe, em Braga lamentou Beatriz, com raiva. Assim que soube que ele podia não andar, fez as malas. Em três horas. Não nos atende o telemóvel.

Silêncio. No ateliê só gotejava uma torneira mal fechada lá ao fundo, cheirava a terra húmida e a qualquer coisa doce.

O que é que esperam de mim? perguntou Maria.

Dona Lucinda endireitou-se.

Maria, foram dezoito anos juntos. Dezoito! Não são palavras ao vento. Tu conheces-lhe os passos, sabes como cuidar dele. Ele sempre te escutou. Agora precisa é de ti.

Dona Lucinda cortou Maria está a falar do homem que me trocou por outra. De alguém que durante dezoito anos construiu um lar comigo, mas um dia deixou de haver espaço para mim.

Não digas disparates atalhou Beatriz. Esquece isso. Agora é uma vida que está em risco!

Uma vida?

O médico disse que sem cuidados arrisca-se a ter feridas, problemas respiratórios! Foi uma operação grave, Maria. Percebes? Não é uma constipação!

Maria foi fechar a torneira. Parou, a olhar para as mãos. Cinquenta e dois anos. Mãos que sabiam criar ramos de flores perfeitos para fotografar. Que sabiam amassar pão, dar injeções quando o filho tinha febre alta, enfaixar o dedo cortado do Luís, arranjar tomadas, carregar sacos do mercado. Sabiam tudo. Raras vezes pensava se queria fazer tudo aquilo. Fazia, porque assim foi educada, porque se espera, porque se calhar não sabia viver de outra maneira.

Secou as mãos, virou-se.

Vou pensar nisso respondeu.

Pensar? Não há tempo! exclamou Dona Lucinda, levantando-se, voz dura, quase ameaçadora. Enquanto pensas, ele está sozinho! Beatriz trabalha todo o dia, eu estou presa a esta coluna! Não podes fingir que isto nada tem a ver contigo!

E tem a ver com quem? murmurou Maria.

Ninguém respondeu.

Já era completamente de noite do lado de fora da porta de vidro. Outubro, escurecia cedo. Maria olhou para rua, o candeeiro amarelo defronte, o alcatrão molhado, o banco vazio mesmo à entrada, onde no verão os clientes se sentavam à espera do seu ramo.

Isto sim, história de vida real, pensou. Não é cinema, nem romance. Duas pessoas exigem que voltes a ser quem já não és.

Está bem disse. Amanhã vou ver como ele está. Não prometo mais nada.

Dona Lucinda respirou fundo. Beatriz abraçou Maria, que ficou de braços caídos, sem retribuir, só a esperar que ela largasse.

Quando se foram embora, Maria ficou muito tempo sentada no banco onde a ex-sogra estivera. Olhou para as flores. Lisianthus no balde, cor-de-rosa, delicadas, com botões como cartas enroladas. Crisântemos em caixas de madeira ao longo da parede. Físalos com lanternas laranja. Aquilo era obra dela. Arrendou o espaço três meses depois de Luís ter saído. Fez as obras sozinha: pintou as paredes num cinza e branco que escolheu a dedo, as portas dos armários penduradas pelo vizinho, senhor Guilherme, a troco de uma garrafa de vinho verde. Chamou ao negócio Hastezinha. Dava-lhe graça, depois ficou. Procurou fornecedores, criou uma página na internet, aprendeu a tirar fotos que paravam olhares.

Um ano. Um ano só para si. Viver para si não era egoísmo, afinal. Era simplesmente justo.

Agora, lá estava ela.

Desligou as luzes grandes, deixou só o candeeiro pequeno à porta, como sempre. E foi para casa.

O hospital era grande, antigo, cheirando a lixívia, comida de cantina, outros cheiros inexplicáveis que só existem nos hospitais. Encontrou o serviço certo, perguntou na receção.

É parente?

Ex-mulher disse Maria.

A enfermeira ergueu ligeiramente as sobrancelhas, mas explicou o caminho.

Luís estava num quarto de quatro camas, mas as outras três vazias. Tinha o lençol até à cintura, mãos por cima, muito magro. Cara cinza, olheiras fundas. No criado-mudo, um copo meio com chá, telemóvel virado para baixo.

Assim que a viu, mudou-lhe o rosto. Não alegria. Paz, talvez, de quem estava à espera.

Maria.

Olá disse, pousando sacos com maçãs e água. Não por carinho, mas porque não se vai de mãos vazias ao hospital.

Sentou-se numa cadeira junto à janela, não à cama.

Dói?

Aguento. Dão comprimidos. Calou-se. Vieste.

Vim.

A mãe ligou. Disse que vieram cá.

Pois.

Ele olhou para o tecto. Depois para ela.

Achei que não viesses.

Também pensei não vir.

Silêncio. Lá fora, a chuva nas folhas. Novembro a chegar depressa.

A Cláudia foi-se embora disse Luís.

Já sei.

É isto. Sorriu sem vontade. Parece filme. Quando bate o trovão, faz-se o sinal da cruz. Tarde.

Maria não respondeu. Também não o ia lamentar nem pisar. Limitou-se a olhá-lo. Aquele homem, com quem partilhara dezoito anos, um filho, férias sempre na mesma praia, discussões por dinheiro, reconciliações, conversas sérias e a certeza, um tempo, de que era mesmo assim a vida, não havia outra.

Maria a voz dele mudou, mais baixa, no tom com que pedia favores , pensei muito a deitar aqui. Um homem, quando não pode levantar-se, pensa. Fui parvo. O que verdadeiramente tive foste tu. Tu, a casa, a família. Cláudia… Encolheu os ombros. Tu sabes. Não peço perdão, sei que é tarde. Mas és quem mais me conhece. A única.

Maria escutava e parecia estar de fora, ouvindo aquelas frases formarem-se. Mais próxima, única, percebi, fui parvo, só tu. Palavras para que aceitasse. Não por ela. Por conveniência. Por saber que alguém faria curativo, falaria com o médico, trazia comida de casa porque a do hospital é intragável tudo o que Maria sabia fazer.

Isto é o que resta depois do divórcio, pensava. Não feio, nem bonito. Só assim. A precisar de ti porque faz falta. Não por amor. Por necessidade.

Luís disse Maria , ainda bem que estás vivo. E que a operação correu bem. Mas não volto. Não para cuidar, nem de outra forma. Estamos divorciados.

Sei que estamos…

Deixa-me acabar.

Ele calou-se. Não estava habituado.

Vou arranjar-te uma cuidadora. Boa, profissional. Pago o primeiro mês. Sabes que não estás em condições de tratar disso. Mas é o que posso fazer. E mais uma coisa. Tirou uma pasta da carteira. Os papéis do divórcio. Ainda não acabaste de assinar, ambos fomos adiando. Agora peço-te para assinares.

Luís olhou a pasta.

Fala a sério.

Muito.

Estou acamado depois duma operação, e trazes-me documentos.

Sim. Porque amanhã podias dizer que não estavas lúcido, ou o advogado contestava por pressão. Agora estás consciente, tens memória. O médico pode atestar.

Olhou-a longo tempo. Ela não desviou o olhar.

Mudaste.

Mudei.

Antes não conseguias.

Talvez.

Pegou na pasta, folheou. Maria deu-lhe uma caneta.

Nesse momento, entrou o médico. Baixote, quarenta e tal anos, bata cinzenta, dossiê debaixo do braço. Cara calma, cansada de quem trabalha demais.

Boa tarde cumprimentou, com um olhar rápido e educado para Maria. Sou o doutor André Valente, médico responsável.

Maria.

É…

Ex-mulher disse ela, pela segunda vez no dia. Estava a habituar-se à expressão.

André acenou, natural, e virou-se para Luís.

Luís Manuel, como foi a noite?

Bem. Dormi.

Ótimo. Tomou notas. Hoje vamos elevar mais a cabeceira e ver como reage. A recuperação depende do processo, não faço previsões, mas o cenário é positivo.

Doutor chamou Maria , posso falar consigo?

Foram para o corredor. Maria fechou bem a porta.

Quero contratar uma cuidadora. Profissional. O que é preciso? Que experiência? Que requisitos? Precisa de algum aparelho extra?

André fitou-a.

Não é a senhora que vai cuidar?

Não.

Percebo. Sabe, é o melhor. Os familiares, por remorso ou dever, às vezes mais atrapalham. O doente precisa é de serenidade. Uma cuidadora experiente entende isso. Família, normalmente, não.

Maria olhou-o.

Diz isso a toda a gente?

Só a quem pergunta.

Quase sorriu. Quase.

Escreva o que precisa pediu, sacando do telemóvel.

Ele ditou, ela anotou. Depois disse-lhe os contactos das agências parceiras do hospital. Maria agradeceu.

Uma coisa mais acrescentou quando ela se afastava , tem boas perspetivas de recuperação. É novo, a cirurgia correu sem problemas. É possível que ande em seis meses. Mas não é certo, nem rápido.

Entendo.

O importante é que ele entenda também.

Regressou ao quarto. Luís segurava a pasta no colo, caneta ao lado.

Vais assinar?

Ele olhava para cima.

E se disser que quero pensar?

Luís.

Está bem, assino. Pegou na caneta. Vais conseguir o que queres. Agora és assim.

Sempre fui. Só disfarçava. Nem sei porquê.

Assinou nos sítios certos. Maria arrumou os papéis.

A cuidadora fica garantida até ao fim da semana. Aviso a Beatriz, explico. Pago à agência o primeiro mês. Depois desenrascam-se.

Maria quando ela fechava a carteira.

Sim?

Obrigado. Por teres vindo.

Ela olhou-o demoradamente. Nem pena, nem raiva. Só um olhar de quem vê algo que pertenceu ao seu passado.

Que recuperes disse.

E saiu.

No corredor, parou junto à janela. O pátio do hospital, árvores de galhos nus, banco molhado pela chuva. Um senhor idoso de robe olhava o vazio, onde nada havia para ver. Só respirava o ar de fora.

Maria respirou fundo.

Qualquer coisa soltou. Não tudo. Mas o essencial. Como quem larga um saco pesado no chão. Não lançou, não atirou, só pousou, com cuidado. E endireitou as costas.

Como se larga o passado, escreveria Maria, se tivesse diário. Não sabe. Acontece devagar, em vários pequenos passos. Mais um foi dado ali.

Maria encontrou cuidadora pela agência em dois dias. Dona Graça, cinquenta e oito anos, experiência em geriatria e reabilitação, calma e muito profissional, pasta cheia de referências. Encontraram-se num café ao lado do hospital. Maria explicou. Graça ouvia, perguntava tudo: feitio do doente, tendência para depressão, tolerância à dor, sobre os familiares.

Muitas vezes, os familiares mais atrapalham, disse Graça. Não é culpa deles. Acontece.

Eu sei disse Maria.

Acordaram tudo, Maria pagou. Ligou a Beatriz para explicar. Beatriz ainda levantou a voz, quis dizer que o Luís queria era a família, mas Maria interrompeu, suave e firme, coisa rara nela.

Beatriz, podes ir todos os dias, se quiseres. Dona Graça não impede. Mas eu não vou. Tenho vida própria e ela não tem de se adaptar à desgraça dos outros.

Beatriz ficou em silêncio.

Está bem.

Só isso. Sem lamentos nem acusações. Talvez ela também estivesse cansada. Talvez, bem no fundo, compreendesse.

Dona Lucinda telefonou passado uma semana. A voz diferente, mais baixa, mais velha.

Maria, a Graça é excelente, o Luís já se habituou. Obrigada por tudo.

Disponha, Dona Lucinda.

Não desapareças por completo. Liga, de vez em quando.

Maria não prometeu nem negou. Só despediu-se educadamente e guardou o telefone no bolso do avental. Estava a trabalhar. Se alguém lhe perguntasse como se larga o passado, Maria responderia: vive-se. Sem dramatismos nem heroísmos. Vive-se. Levanta-se cedo, vai-se trabalhar, faz-se o que se sabe e gosta. Os familiares tóxicos e ex-maridos jamais desaparecem. Só deixam de ocupar o centro.

O inverno chegou cedo, esse ano. Em novembro já nevava. Maria surpreendeu-se a gostar do frio. Antes nunca pensara nisso. Ninguém pensa quando vive com o Luís, sempre a queixar-se dos reumatismos, do frio, da chávena de chá a horas certinhas. Agora podia olhar pela janela, ver a neve, pensar: que bonito. E só isso.

Em dezembro, choveram encomendas. Ramos para festas de empresas, presentes, arranjos de Natal. Maria contratou ajudante, Inês, vinte e três anos, estudante trabalhadora, bem-disposta, rápida, um pouco distraída, mas interessada em aprender. Davam-se bem. Maria ensinou-lhe a ler cada flor não como simples mercadoria, mas como pincel à mão do artista. Inês ouvia e às vezes sugeria composições que surpreendiam Maria.

Onde vais buscar essas ideias? perguntou um dia.

Olho para a pessoa que compra, encolheu os ombros Inês e penso, que flor lhe fica bem?

Maria achou genial.

Bom método.

Foi a Maria que me ensinou. Disse que o ramo tinha de ser vivo.

Maria não se lembrava, mas era assim que pensava.

Janeiro, fevereiro. A vida corria normal. Maria inscreveu-se num curso de arranjos florais. Inês dizia que ela já não tinha nada a aprender. Maria explicava que sempre há qualquer coisa a aprender, não por falta, mas por gosto. Argumento novo. Antes fazia por obrigação. Agora, pelo interesse.

Viver para si soa egoísta, dito em voz alta. Na prática, era isto: cursos, livros ao serão sem censura de ninguém, viagens de fim de semana a cidades históricas, só porque sim.

Em fevereiro, Beatriz ligou. Luís estava melhor, já usava canadianas. Dona Graça tratava dele com rigor, sem dramas nem lamúrias. Maria ficou contente. E foi mesmo contentamento não pena, nem culpa, nem ressentimentos.

Março trouxe desgelos e primeiras encomendas de primavera. Túlipas, jacintos, anémonas. Maria adorava essa troca de estação, quando o inverno, nos arranjos, dava lugar ao colorido inquieto da primavera.

Foi em março que ele apareceu.

Maria atava um ramo na caixa, amarelos e brancos, narcisos e margaridas, combinação honesta. A porta abriu, entrou um homem. Não levantou logo os olhos, estava com as mãos ocupadas.

Boa tarde, disse.

Boa tarde, respondeu ele.

A voz. Reconheceu-a antes de olhar. Tranquila, um pouco cansada, calma.

Era o doutor André Valente junto à porta, a olhar para a loja como quem já imaginou muitas vezes. Sem bata, só o sobretudo escuro e um cachecol leve. Sem dossier de doentes.

É o senhor constatou Maria.

Sou eu.

Pausa breve. Inês estava na arrecadação, embalando papel. Estavam sós.

O Luís teve alta há dez dias explicou André. Está em casa, com a mesma cuidadora. Prognóstico bom.

Sei. A Beatriz avisou.

Ótimo. Hesitou. Pequeno sorriso, vivo, nada convencionado. Na verdade, vim de propósito. Lembrei-me do nome. Hastezinha. Encontrei o endereço na internet.

Maria largou a fita-cola.

Quer flores?

Sim. E não só.

Silêncio. Cheirava a jacintos e terra fresca.

O que pretende? perguntou.

André aproximou-se das anémonas. Roxas, vinho, brancas com centro negro.

Talvez estas. Três. Ou cinco, quantas aconselha?

Número ímpar, respondeu Maria. Três ou cinco. Para quem?

Ainda não sei. Olhou-a. Talvez me ajude a decidir.

Maria escolheu três, depois acrescentou duas escuras, quase pretas.

Cinco. Mantêm-se bem juntas.

Foi fazendo o ramo. Mãos ágeis. Papel kraft, fita ao de leve.

Maria disse André.

Sim?

Permite que fale sem rodeios? Não consigo ser de outra forma.

Diga à vontade respondeu ela, focada no ramo.

Gostava de a convidar para sair. Não na situação do hospital, nem nada profissional. Só para irmos a um café, ou ao teatro, se gostar. Ou só passear. Acho estranho, talvez, mas adultos podem ser diretos. Sem fingir que só vieram comprar flores.

Maria ergueu os olhos.

Ele devolveu-lhe o olhar. Sem pressão. Esperando, como quem diz algo importante e aguarda.

Há quanto tempo decidiu isso? perguntou ela.

Uns três meses. No corredor, quando pediu a lista para a cuidadora.

Maria recordou o hospital, as árvores nuas.

Nessa altura ainda era casada. Oficialmente.

Sei. Por isso esperei.

Lá fora, pleno março. Quase sem neve, só manchas sujas nos passeios. Pardais tagarelavam junto ao banco do jardim. O candeeiro já aceso sem necessidade; havia luz suficiente.

Não sei, admitiu Maria.

O que não sabe?

Como se faz isto agora. Fui casada dezoito anos, um ano para largar o passado, recomeçar só minha. Não sei bem por onde se começa.

Nem eu sorriu André. Tive divórcio há seis anos. Uma filha, dezassete, vive com a mãe. Damo-nos bem. Trabalhei imenso, para não pensar. Depois aprendi a pensar. E resolvi que talvez também pudesse viver.

Da arrecadação, Inês apareceu com papel.

Maria Leonor, quer ajuda?

Não, Inês, faço eu.

Inês retirou-se, contente por presenciar algo diferente.

Maria passou as anémonas a André.

Quanto é?

Espere.

Ele esperou.

Maria olhou as flores nas mãos dele. Escuras, aveludadas. Sempre gostou de anémonas, parecidas com papoilas, mais finas, contidas. Não se exibem, mas também não se escondem.

História de flores, pensou. Construiu a vida à volta das flores. Fugiu ali da dor. Refez-se. Agora, alguém entra não à força, não a exigir, só entra. Com delicadeza. Espera.

Aceito. Disse Maria.

Ele ergueu as sobrancelhas.

Aceita em que sentido?

No teatro. Não vou há anos.

André sorriu. A sério.

Fico feliz.

Mas não hoje. Tenho três encomendas até fechar.

Claro. Sexta, talvez? Ou sábado?

Sábado.

Ela disse o preço. Ele pagou. Guardou o troco, sem pressa de sair.

Maria, posso perguntar-lhe algo?

Pode.

Só por curiosidade. Há quanto tempo trabalha com flores?

O ateliê tem pouco mais de um ano. Hesitou. Mas flores, a vida toda. Só que era passatempo. Agora é trabalho.

Bom quando o passatempo vira profissão.

É concordou Maria.

Ele assentiu, ajeitou as flores e caminhou até à porta. Parou.

Até sábado, Maria.

Até sábado, André.

Ele sorriu.

André, só.

Até sábado, André.

A porta fechou. Maria ficou atrás do balcão, a vê-lo afastar-se pela rua, junto ao banco do jardim, entre os pardais. Ele não olhou para trás.

Da arrecadação apareceu Inês.

Maria Leonor, quem era? perguntou, tentando disfarçar a curiosidade.

Um cliente.

Cliente a falar quinze minutos?

Inês.

O quê?

Vai acabar de embalar as crisântemos para a D. Carla. Ela vem às quatro.

Inês retirou-se, satisfeita. Maria voltou ao trabalho. Mãos certas, papel a estalar. Água a pingar. Cheirava a jacintos.

Sábado. Quatro dias depois. Quatro dias normais, de encomendas, entregas e perguntas da Inês. Quatro dias iguais a tantos noutro ano dos mais próprios de Maria.

Nem pensou em sábado de propósito. Só às vezes, sozinha com as flores, lembrava-se daquela conversa. Não toda. Só: voz calma, anémonas nas mãos, sábado, André.

Adultos odeiam rodeios, dissera ele.

Talvez seja mesmo assim.

Não sabia o que viria sábado. Se resultaria, se se sentiriam bem, se teria vontade de voltar a vê-lo. Só sabia uma coisa: agora era ela a decidir. Não Dona Lucinda, nem Luís, nem medo de solidão. Só ela.

Sentimento novo. Não eufórico, nem vertiginoso. Só firme. Como chão seco depois de muito tempo a tropeçar em neve.

Sexta à noite, ateliê fechado, Inês já em casa, Maria colocou num copo anémonas que sobraram. No peitoril da janela junto à caixa, lugar só para si, não para venda.

Ficavam bem juntas, pensou, como dissera.

Era verdade.

Desligou as luzes e foi para casa. Amanhã era sábado.

O sábado começou cedo, céu cinzento, cheiro a café da máquina que Maria comprou há seis meses, que Luís jamais aprovaria era cara, para quê? Para quê, uma das tantas palavras que crescem no casamento como ervas daninhas, abafando outras: porque sim. Porque quero. Porque me apetece.

Maria bebeu café à janela, viu pombos no beiral, carros a contornar poças.

O telemóvel estava em cima da mesa. Tinha mensagem de há uma hora:

Bom dia. O teatro começa às sete. Podemos jantar primeiro? Ou não, como preferir. André.

Maria leu de novo. Reparou no bom dia sem o e. Sorriu.

Respondeu:

Bom dia. Podemos jantar às seis?

Enviou. Pousou o telemóvel.

Acabou o café.

Lá fora, março seguia. Gotejavam os beirais, os pardais deitavam os pombos abaixo do beiral. Lisboa acordava, indiferente às decisões pequenas de cada um. A cidade raramente repara nos gestos importantes das pessoas. Continua.

O telemóvel vibrou com uma só palavra:

Combinado.

Maria levantou-se, levou a chávena à cozinha, vestiu o avental, que ainda faltavam oito horas para o serão, e a loja não se abria sozinha. Pegou nas chaves.

À porta, olhou para trás: casa pequena, luminosa, anémonas num copo sobre o peitoril é minha, pensou. Minha casa. Minha máquina de café. Meu copo com flores. Meu sábado.

Saiu.

A porta fechou suave, sem estardalhaço. Como fecha o que está resolvido.

André já a esperava à porta do restaurante, vinte para as sete. Encostado a um canto, olhava o telemóvel, guardou-o assim que a viu. Sobretudo escuro, mesmo cachecol; não trouxe flores.

Boa noite disse ele.

Boa noite, devolveu Maria.

Trocaram um olhar breve, dois adultos numa rua molhada de março, ali porque quiseram, não por pressão, não porque o destino obrigasse. Apenas porque sim.

Então, entramos?

Entramos.

E entraram.

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