O Regresso

Regresso

A Marta começou a sentir-se mal logo na plataforma.

Ainda conseguiu correr até ao caixote do lixo, e agora, dobrada, estava ali, a sentir como o seu casaco caro se estragava todo naquela superfície de ferro gelada…

Está tudo bem, menina? ouviu-se um sotaque minhoto, simpático.

Vá-se embora…

A Marta endireitou-se. À sua volta, como num filme mudo, passavam pessoas de blusão grosso, com sacos de compras, trouxas de batatas e redes pejadíssimas.

No ar pairava o cheiro a gasóleo, tabaco de enrolar e aquela humidade típica das estações do interior, que sempre lhe dava enxaqueca.

Detestava aquela cidade. Odiava-a com aquele desprezo frio de quem fugiu há quinze anos e fez tudo para nunca mais acertar com o caminho de volta.

O telemóvel vibrou.

O pai.

Martinha, onde é que andas? Estou de carro, venho buscar-te.

Vou de táxi cortou Marta. Não preciso que venhas. Diz-me só a morada do hospital.

A tua mãe não está no hospital. Saiu ontem. A tensão baixou, mandaram-na para casa. Eu levo-te…

Em casa?! Marta sentiu os maxilares apertarem-se. E eu vim de Lisboa a correr por causa duma coisita dessas?

Ó filha, não te enerves. A tua mãe está cheia de saudades. Fez uns rissóis para ti.

Quais rissóis, pelo amor de Deus?!

Desligou-lhe o telefone.

***

A casa onde cresceu parecia ainda mais pequena.

Marta ficou no átrio a olhar para a porta velha forrada a napa. A gata da vizinha já se enroscava nas pernas, deixando pelo nas botas dela. Cheirava a sopa de couve, gato e qualquer coisa doce. Sempre cheirou assim. Sempre.

Entrou sem bater.

A mãe estava na cozinha. Pequena, grisalha, de robe coçado, com a camisa de dormir de fora.

Quando viu a filha, arregalou os olhos num misto de felicidade e culpa que fez Marta arrepiar-se.

Martinha! Filha! Pensei que só vinhas ao fim do dia…

Eu pedi-te para não mentires. Marta nem tirou as botas, ficou plantada no hall. Sabes que quase perco o contrato que assinei? Passei a noite no comboio só para te visitar nos cuidados intensivos, e tu… estavas a fazer rissóis?

A mãe encolheu-se. As mãos baixaram.

Oh filha, desculpa… Só não queria assustar-te. Foi só a tensão… E já estava cheia de saudades.

Chama-se mentir isso. Marta atirou as botas para um canto. Pronto. Onde tens o medidor de tensão? Vamos medir e depois vou para um hotel. Aqui não fico.

Fica cá, filha…

Ó mãe, a sanita está a pingar, os radiadores mal aquecem e atrás da parede os vizinhos falam tão alto que até as paredes abanam. Eu não consigo mesmo, mãe. O corpo não me deixa.

Foi para a cozinha e sentou-se à mesa. Sobre a toalha estava uma travessa de rissóis, douradinhos, ainda mornos. Marta nem lhes deitou o olho.

Dá-me lá o medidor.

A mãe trouxe-o, obediente. Era dos antigos, de apertar com a pêra.

Que relíquia é esta? torceu o nariz Marta. Não tinhas dinheiro para um decente? Eu tinha-te enviado.

Guardei para ti, filha. Na conta. Nunca se sabe.

Valha-me Deus…

Marta encheu a braçadeira de ar. Os números dançavam-lhe à frente.

Cento e sessenta a noventa. Andas a tomar sal à colher, mãe?

Só um bocadinho…

Amanhã compro comprimidos e aparelho novos. Agora estou é cansada. Onde posso dormir?

A mãe apressou-se a preparar-lhe a cama. Marta ficou na cozinha, a olhar pela janela para os prédios acinzentados, a pensar: Desde que não fique presa aqui. Desde que possa ir-me embora amanhã.

***

Marta não dormiu naquela noite.

O sofá era curto, as molas espetavam-lhe nas costas, ao lado, os vizinhos gritavam, depois começaram à bulha. Ouviu-se uma mulher a berrar, um homem a insultá-la.

Ela ficou a olhar para o tecto. Ainda lá estava aquela racha de antigamente. Em miúda achava-a parecida com um raio. Agora parecia-lhe só anunciar que a casa estava mesmo à beira do colapso.

Quase de manhã, adormeceu. E sonhou que era pequena, que andava com a mãe na feira, e a mãe lhe comprava um rissol com doce. Quentinho, polvilhado de açúcar, e Marta ia tão feliz!

Acordou a chorar.

As lágrimas caíam-lhe pela cara abaixo e ela não conseguia parar. Estava deitada, limpando-se ao lençol.

Do outro lado da parede estava silêncio. Só se ouvia o velho cuco. O mesmo, que a mãe prometeu cem vezes deitar fora.

Marta? veio a voz da mãe à porta. Estás acordada?

Não estou a dormir respondeu Marta, rouca.

Está aqui uma rapariga para ti.

Quem?

Sei lá. Chama-se Inês. Não te lembras?

Marta sentou-se no sofá. Inês? Que Inês?

Vestiu o velho robe e saiu.

Lá estava mesmo a Inês. A tal Inês, que foi a melhor amiga dela na secundária. Aquela a quem Marta deu o recado e nunca se despediu, quando se foi embora para Lisboa.

A Inês mal mudou. O cabelo apanhado, o mesmo sorriso com covinhas. Só os olhos, agora, tinham olheiras roxas.

Olá, disse-lhe Inês. A tua mãe contou-me que tinhas vindo cá. Pensei, porque não aparecer? Quinze aninhos sem te ver!

Marta ficou desconcertada. Quis responder algo ácido, como é que me descobriste, ou estou ocupadíssima, mas engoliu.

Entra, disse.

Foram para a cozinha. A mãe, entendendo o recado, foi à vizinha. Inês agarrou a chávena de chá quentinho com ambas as mãos.

Casei. Anunciou Inês. Tenho uma filha, sete anos. Chama-se Leonor. Vai agora para a escola.

Parabéns, assentiu Marta.

E tu? Inês olhava-a, curiosa. E Lisboa, corre bem?

Vai-se andando.

Casaste?

Já fui.

E então?

Encolheu os ombros. Não lhe apetecia explicar a ninguém que o marido foi embora para outra. Que a casa, o carro, o trabalho, isso tudo sem companhia não aquece ninguém. Que ficou sozinha. Completamente.

Não nos entendemos resumiu Marta.

Inês anuiu. Ficou em silêncio e de repente disse:

Eu já te perdoei…

Perdoaste o quê? estranhou Marta.

Como assim? Tu partiste sem avisar, nem uma chamada. Nós éramos como irmãs, partilhávamos segredos. Desapareceste. No início chorei, depois zanguei-me, depois aceitei. Tinhas de construir a tua vida. Eu também. Agora estamos aqui, a beber chá. E eu estou feliz por te ver.

Os olhos de Marta arderam. Olhou para a janela.

Fui parva, Inês. Desculpa.

Deixa lá, sorriu Inês. Todos erramos.

Conversaram até ao final do dia. Inês falou do marido (trabalha na fábrica, bebe um bocadinho mas não é mau tipo), da filha (artista, pinta as paredes todas), da vida por ali. Marta ouvia e deu por si… a achar mesmo interessante.

Olha, disse Inês quando já ia sair, não queres vir cá jantar amanhã? Faço um arroz de pato. Conheces a Leonor.

Não sei…

Anda lá, Inês apertou-lhe a mão. A tua mãe disse que só vais embora na quarta. Sempre aproveitamos. Revivemos os velhos tempos.

Marta acenou.

***

No dia seguinte, Marta foi até à farmácia.

Precisava comprar comprimidos para a mãe, um medidor de tensão que prestasse; talvez mais umas coisas. Andava pela cidade e reparou, de repente, que aquilo nem era tão mau assim. As árvores estavam geladas, miúdos com trenós, velhotas no banco de jardim. Vida normal.

Na farmácia, havia fila. Marta ficou no fim. À sua frente uma mulher com um casaco velho, saco repleto de mercearia, revirava-se de nervos.

Sente-se mal? perguntou Marta.

Não é nada, filha… O coração está apertado. Já compro o comprimido e passa!

Marta olhou melhor. A mulher estava pálida, os lábios azulados, a testa suada.

Sente-se aqui disse Marta, já a empurrar para a cadeira. Diga-me o que precisa.

Nitroglicerina, menina. Que alma boa que és.

Marta comprou o comprimido, deu-lhe. A senhora colocou-o na boca, fechou os olhos. Um minuto depois já respirava melhor.

Obrigada, minha linda. Tu não és cá da terra, pois não?

Sou sim senhor. Nasci aqui disse Marta, de repente.

Saiu para a rua a sorrir.

***

À noite, Marta foi à casa da amiga.

A Inês morava num prédio tosco, no quinto andar sem elevador. Marta subiu as escadas e pensava: Meu Deus, esqueci-me como eram estes halls.

Mas hoje, por algum motivo, não a incomodava nada.

Abriu-lhe a porta uma menina magrinha, loira, de olhos grandes.

É a tia Marta? perguntou. A mãe disse para a receber.

Sou, sim, assentiu Marta.

Eu sou a Leonor. Entre, hoje há arroz de pato.

Era humilde a casa, mas limpinha. Mobiliário antigo, papel de parede desbotado, desenhos infantis nas paredes. Cheirava a arroz de pato e broa acabada de cozer.

Inês andava às voltas na cozinha.

Ó Marta! Entra, põe-te à vontade. Já pomos a comida. Leonor, vai buscar as colheres.

Sentaram-se à mesa. Marta saboreava aquele prato e sentia o calor de dentro para fora. Havia anos que não comia comida assim, nem estava à mesa sem cerimónias, sem presunções.

Fazes um desenho? pediu ela à Leonor.

A menina olhou-a sorrindo:

És bonita. Vou desenhar-te!

Quero ver, respondeu Marta.

Leonor trouxe o bloco e os lápis. Sentou-se a desenhar.

Marta bebia chá com doce de ginja e falava com Inês.

Tens filhos? atirou Leonor, sem largar o bloco.

Não, filha. Não consegui.

Porquê?

Leonor! ralhou Inês, deixa de ser indiscreta!

Não faz mal, sorriu Marta. Simplesmente, às vezes não acontece, Leonor.

Olha, não fiques triste afirmou a miúda, muito séria. Ainda és jovem. O futuro é teu.

Marta desatou a rir.

Obrigada, princesa.

Leonor entregou-lhe o desenho. Era uma mulher de vestido comprido, coroa dourada, rodeada de flores.

És tu explicou Leonor. Uma princesa triste, mas vou desenhar o sol e já sorris.

Marta ficou com um nó na garganta.

Obrigada, minha querida. Vou pendurar este desenho no meu quarto em Lisboa. Pode ser?

Claro que sim acenou Leonor. Vais voltar?

Vou, prometo. Disse Marta e soube, naquele instante, que era verdade.

***

Chegou tarde a casa. A mãe esperava, acordada.

Correu bem? perguntou.

Sim, mãe. Muito bem.

Sentou-se ao seu lado, deu-lhe a mão. Era quente, áspera, cheia de manchas.

Desculpa-me, mãe. Por tudo.

Que disparate, filha. Porquê?

Por ter… Marta hesitou, por ter tido vergonha de vocês. E da cidade. E de mim. Achei que era melhor só por ter fugido daqui. E não sou. Só fugi.

A mãe ficou em silêncio. Deu-lhe uma festa na cabeça, como nos velhos tempos.

Tu não fugiste, Martinha. Sobreviveste. Aqui era assim: ou ias-te embora, ou afundavas-te. Fizeste bem em sair. Só não nos esqueças de todo.

Não esqueço, mãe. Juro.

***

Na manhã seguinte, Marta apanhou o comboio.

O pai levou-a até à estação. A mãe ficou na plataforma, pequenina, com o seu casaco de sempre, a acenar.

Marta olhava pela janela, um aperto por dentro.

Olha, o pai pigarreou, tu volta. A tua mãe e eu não somos eternos.

Volto, pai. Prometo.

Sentou-se, encontrou o seu lugar. Tirou o telemóvel. Havia mensagem da Inês: Volta quando quiseres. A Leonor já pergunta quando volta a tia Marta. Gostou mesmo de ti.

Marta sorriu e arrumou o telefone.

O comboio arrancou. As traseiras dos prédios velhos, campos gelados, tudo ficou para trás. E Marta percebeu, de repente, que já não tinha dores de cabeça. Nem náuseas. Nem vontade de se esconder do mundo.

Tirou o desenho da Leonor da mala. Alisou-o. Princesa de coroa, flores, o sol ainda por colorir.

Olhou pela janela. O sol a subir, enorme, vermelho, verdadeiro.

***

Uma semana depois, Marta transferiu dinheiro para Inês. Assim, sem porquê. Para a Leonor: para pintar, para aprender.

A Inês recusou, mas Marta insistiu.

E meio ano depois, Marta voltou à terra. Sozinha. Sem avisar. Comprou o bilhete, apanhou o comboio.

Sentaram-se as três na cozinha Marta, Inês, Leonor. Comeram arroz de pato e falaram. E Marta pensou que, talvez, isto fosse mesmo felicidade. Ser importante para alguém. Sem razão nenhumaDepois do jantar, Leonor trepou-lhe para o colo, pendurou-lhe ao pescoço um colar de contas de plástico e declarou, solenemente:

Agora já és mesmo da família.

Marta riu-se, de coração cheio, enquanto Inês sorria daquele jeito antigo, reconhecido. No relógio de cuco, as horas soaram lentas, doces, e o tempo parecia ter deixado de contar.

Mais tarde, ao sair, Marta parou no topo das escadas e deixou o vento frio da noite tocar-lhe o rosto. Ficou ali, a olhar para as luzes miúdas das janelas, ouvindo as vozes e os risos ao longe a sentir, pela primeira vez em muito tempo, que já não precisava de fugir de lugar nenhum.

Desceu os degraus devagar, uma mão no corrimão, outra a segurar o desenho da princesa. Quando alcançou a rua, percebeu que, afinal, nunca se regressa igual a si próprio. E, às vezes, descobrimos que o verdadeiro regresso era este: ao carinho, à simplicidade e às pessoas que, mesmo na ausência, sempre guardaram o nosso lugar à mesa.

A última luz lá de cima apagou-se. Sorrindo, Marta caminhou para a noite e por dentro, sentiu-se finalmente em casa.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

O Regresso