Uma Revelação que Mudou Tudo: A Jornada de Manel da Juventude Irresponsável à Construção do Seu Lar …

Uma descoberta que me virou do avesso

Até aos vinte e sete anos, o Manel vivia como um ribeiro em abril em turbilhão, barulhento, sem olhar para trás. Era destemido, rápido, conhecido em todo o concelho. Podia, logo após uma puxada dura na apanha da uva, reunir a malta, rumar três quilómetros até ao rio com as canas, e ao regressar de madrugada, meter logo mãos à obra a ajudar o vizinho com o telhado do galinheiro a cair.

Ó nosso Manel, é mesmo doido, nunca tem preocupações abanavam a cabeça os velhos à porta do café.

Vive sem pensar, só mesmo ele suspirava a mãe.

Ora, vive como qualquer um encolhiam os ombros os amigos de infância, agora já casados e com casa e quintal montados.

E depois fez vinte e sete. Não foi como um trovão, mas sim como cai a primeira folha seca da macieira: silencioso, de repente. Uma manhã acordou ao cantar do galo, e esse canto não lhe soube ao arranque de mais um dia de brincadeira, mas sim a aviso. Um vazio, até então escondido, ecoou dentro de si.

Olhou à volta: a casa dos pais, sólida mas a pedir obras, exigindo mãos de homem, não só um domingo por mês, mas todos os dias. O pai, já dobrado pelo trabalho de casa, e a conversa cada vez mais sobre feno e preço da ração.

A grande mudança veio num casamento de família distante, numa aldeia vizinha. O Manel, como sempre, animador nato, dançava e fazia rir toda a gente. Mas, de repente, viu o pai num canto a conversar baixinho com outro velhote, olhar cansado mas bondoso. Olhavam para ele, mas nos olhos não havia crítica, só uma tristeza calma.

Foi aí que Manel se viu de fora: já não era um miúdo, mas um homem de barba feita, a dançar ao som dos outros, enquanto a vida ia passando ao lado. Sem rumo, sem raízes nem sítio só dele. Sentiu um gelo estranho.

Na manhã seguinte, acordou diferente. Aquela leveza despreocupada tinha fugido, e, no lugar dela, instalou-se uma serenidade pesada, madura. Parou com as visitas sem motivo. Pegou no velho terreno do avô, já falecido, à saída da aldeia, junto ao pinhal. Cortou a erva alta, deitou abaixo duas árvores mortas.

No início, os vizinhos riam-se dele.
O Manel vai fazer casa? Ele nem um prego sabe bater direito!

Mas ele insistiu. Ao princípio atrapalhado, tantas vezes acertou com o martelo nos dedos em vez dos pregos. Cortava lenha com licença da Junta, arrancava raízes. Os euros, antes gastos em disparates, começaram a ser guardados para pregos, telhas e vidro. Trabalhava do nascer ao pôr-do-sol, sem palavras, só com vontade. Ao fim do dia, caía exausto, mas pela primeira vez há muito tempo, sentia a satisfação de um dia bem aproveitado.

Dois anos passaram. No terreno já se erguia um barracão modesto mas sólido, a cheirar a resina e novidade. Ao lado, uma pequena casa de banho de madeira, feita com as próprias mãos. E, no quintal, as primeiras couves. O Manel emagreceu, tostou ao sol, no olhar desapareceu o brilho irrequieto, em vez disso surgiu uma serenidade trabalhada.

O pai começou a ir lá, oferecia ajuda, mas o filho recusava. O pai calava, rodeava a casa, tocava nos cantos, espreitava debaixo do telhado. Depois elogiava:
Está bem firme, filho
Obrigado, pai respondia o Manel, simples.
Agora só falta arranjar uma rapariga alguém que tome conta disto contigo dizia o pai.
O Manel sorria, olhando para a obra e para o muro verde do pinhal ao fundo.
Hei-de arranjar. Tudo a seu tempo.

Pegou no machado e foi para junto da pilha de lenha. Os movimentos tornaram-se lentos, seguros. Da vida despreocupada já nada restava, apenas trabalho, cuidado, e aquela ansiedade boa. Pela primeira vez em vinte e nove anos, sentia verdadeiramente que tinha casa própria. Não era o abrigo dos pais, era dele, fruto das suas mãos. Aquela juventude vazia e barulhenta, desaparecera.

A grande revelação aconteceu numa manhã de verão, quando se preparava para ir ao pinhal buscar lenha caída. Estava a dar à ignição do velho Renault 4L quando, do portão da casa do lado, saiu ela. Leonor. A Leonor de sempre, a miúda que ele via a jogar com os rapazes na terra batida, com as tranças castanhas, joelhos em ferida. A última vez tinha-a visto adolescente desajeitada, a ir estudar para ser professora.

Mas agora não saiu uma rapariga, saiu uma jovem mulher, bonita. O sol brilhava nos cabelos soltos, cor de trigo maduro, que caíam sobre os ombros. Caminhava direita, leve. O vestido escuro moldava-lhe o corpo delicado, e os olhos castanhos, antes traquinas, agora traziam uma profundidade doce e calma. Ia absorta, ajeitou a mala ao ombro, nem o viu logo.

O Manel ficou pregado ao chão, esqueceu carro, esqueceu lenha. O coração disparou como nunca.

Quando foi? pensou. Meu Deus, quando é que te tornaste assim Ainda há pouco eras magricela e tonta.

Ela percebeu o seu olhar parado. Parou, sorriu. E aquele sorriso, longe de ser o da vizinha de infância, mexeu com ele de forma suave e íntima.

Olá, Manel. Então, o carro não pega? a voz era suave, sem vestígios daquela rispidez da adolescência, quando lhe chamava Manelito.

Leonor foi tudo o que conseguiu dizer. Vais para a escola?

Pois, daqui a nada começo as aulas. Olha, vê lá que não me atraso

Seguiu pelo caminho de pó, leve, decidida. Ele ficou a vê-la, enquanto na cabeça, normalmente ocupada com cálculos de vigas e tabiques, se formou uma certeza clara e luminosa:

Mas é nela que eu devia apostar. Esta é para casar.

Não fazia ideia que, para Leonor, aquele foi o momento mais feliz em anos. Afinal, o Manel, aquele despachado sempre a ignorá-la, finalmente olhara para ela. Mas não como se ela fosse invisível, ou parte da mobília, mas como pessoa.

Finalmente Esperei por isto Desde os meus treze anos gosto dele, e para ele eu era só miúda. Chorei quando ele foi para tropa. As raparigas grandes iam todas atrás dele, eu sentia-me tão de parte. Até voltei à aldeia para trabalhar na escola por causa dele.

Aquela afeição de menina pelo vizinho mais velho, escondida anos a fio, agora renascia. Ia pelo caminho, doía-lhe sorrir de tanto nervosismo, sentindo atrás de si o olhar quente e atrapalhado dele.

Nessa manhã, o Manel nunca chegou ao pinhal. Andou à volta do barracão, cortou madeira com furor estranho, e só pensava:

Como é que nunca percebi? Sempre ali ao pé Cresceu mesmo E eu só a saltar de rapariga em rapariga

À tardinha, junto ao poço, voltou a ver Leonor. Vinha cansada, mala ao ombro.

Leonor! chamou, surpreendido com a própria coragem. Então e o trabalho? Os teus miúdos, ainda são todos uns traquinas?

Ela encostou-se à vedação. Olhos cansados mas ternos e bonitos.

Trabalho é trabalho As crianças são como sempre, barulhentas, desordeiras mas dão alegria ao coração. Gosto de cuidar deles, são tão pequenos e cheios de ideias E tu, a tua casa está firme

Ainda falta acabar murmurou ele.

Tudo o que está inacabado pode-se terminar disse ela, com voz suave, um pouco envergonhada do conselho, fez um gesto de despedida. Bem, vou andando.

Tudo pode acabar-se repetiu o Manel para si, não só uma casa.

Desde então, ganhou uma nova meta. Já não construía só para si. Sabia quem queria trazer para ali.

Pensava numa casa cheia de vida, com ela, onde no parapeito houvesse gerânios e não frascos de pregos, onde no alpendre se sentassem juntos sob a sombra.

Recusava-se a apressar, temia assustar o sonho. Começou a aparecer por acaso no caminho dela, ao princípio só acenava. Depois perguntava pela escola, pelos alunos.

E os teus miúdos, como vão? passava pela escola, via-a sair com a turma, e os petizes gritavam-lhe: Adeus, Leonor!

Certa vez, levou-lhe uma cesta cheia de nozes do mato, Leonor recebia esses gestos com um sorriso caloroso, acolhedor. Via como ele mudara: de rapaz sem juízo, passara a homem seguro. E no seu coração, há muito guardado, uma chama começou a crescer.

As nuvens de outono cobriam já a aldeia
Num final de outono, com a casa quase pronta e nuvens carregadas sobre o vale, o Manel não aguentou mais. Esperou Leonor à porta, um molho das últimas bagas de azevinho presas na mão.

Leonor disse, nervoso a casa está quase mas falta-lhe alma. Está vazia. Será que queres vir um dia ver como ficou? Na verdade, quero pedir-te que fiques Quero casar contigo, és tu que quero ao meu lado.

Ficou a olhar para ela, os olhos sérios, inseguros; Leonor viu ali tudo o que sonhara. Tirou-lhe da mão os bagos vermelhos, colou-os ao peito.

Sabes, Manel disse em voz baixa desde a primeira trave que te vi construir, imaginei como seria por dentro. Sempre esperei que me convidasses Sonhei com isto. Aceito sim

E pela primeira vez, naqueles meses onde parecia só mulher feita, nela surgiu a centelha travessa de menina. Aquela centelha, que ele nunca tinha reparado, esperou todo este tempo para incendiar-se.

Obrigado por lerem, pelas vossas assinaturas e apoio. Que a vida vos sorria!

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