Uma mãe solteira levou a filha para o trabalho nunca imaginou o pedido de casamento do chefe mafioso
O céu cinzento de Lisboa mal sinaliza uma ponta de aurora; apenas clareia um pouco, transformando o tom chumbo num tom mais suave.
Beatriz Pereira está de joelhos no chão frio de mármore da casa de banho da administração no décimo segundo andar, com os nós dos dedos feridos e a arder devido ao cheiro intenso da lixívia.
O som ritmado do seu pano velho é a única coisa que ecoa naquele prédio comercial vazio, no centro da cidade. Então o telemóvel vibra no bolso uma ligação rudimentar e incômoda à realidade em que ela se afunda.
São cinco da manhã. O ecrã rachado do telemóvel pré-pago ilumina-lhe a palma gelada como se fosse um foco quente. Creche Pequenos Rebentos 24 Horas. Ela está a arder, Beatriz, diz a voz do outro lado, áspera, cansada, sem qualquer ternura. Tem quase 43 graus.
Está a vomitar há horas. Somos um centro de apoio, não um hospital. Tem vinte minutos para cá chegar ou chamo a Segurança Social para a levarem ao hospital pediátrico.
A chamada termina abruptamente. O silêncio após isso é de cortar a respiração. Beatriz sente o coração a bater descompassado no peito. Matilde. A sua âncora de oito meses neste mar de tristeza.
Nem bateu o ponto. Não foi ao cacifo buscar o casaco. Limitou-se a correr.
O ar cortante de janeiro fere-lhe a cara como se fosse uma chicotada, um muro de agulhas de gelo que transforma cada respiração ansiosa numa nuvem gélida. Voa por três ruas, os ténis baratos a escorregar no gelo da Avenida da Liberdade.
Quando chega ao hall branco e iluminado da creche, sente os pulmões a rasgar-lhe por dentro.
A funcionária atrás do balcão entrega-lhe um embrulho húmido e quente, sem dizer uma palavra. Os olhos de Matilde parecem vidros baços, a pequena boca entreaberta solta um som fraco e silenciado. É como se agarrasse carvão acabado de sair da lareira.
“Eu eu só a vou levar para casa. Tenho medicamentos lá,” mente Beatriz, a voz tão trémula que quase tropeça nela própria.
O “lar” para onde regressa é uma divisão de dez metros quadrados num prédio velho de Chelas. O frio lá dentro é mais intenso que na rua, porque o vento passa pelas fitas coladas na janela partida. O aquecedor está avariado há semanas.
Beatriz deita Matilde no colchão coberto de nódoas, mãos a tremer enquanto procura na caixa de plástico onde guarda os remédios. Vazia. O frasco de ben-u-ron para bebés já é só uma ilusão de plástico inútil.
Aperta o conta-gotas, à espera desesperada de uma gota de medicamento só sai ar.
O telefone volta a vibrar. É o seu chefe, senhor Moreira, da empresa de limpezas.
“Pereira? Onde é que você anda? O supervisor da noite está em cima de mim por causa do 12º andar!”
“A minha filha está doente, senhor Moreira. Ela tem tem 39,5 de febre. Não a posso deixar, por favor, só hoje”.







