Sofia estava deitada no sofá, fitando o teto. Pensamentos inquietos não a deixavam dormir. E como conseguiria repousar, quando a sua menina estava doente? Porque é que a levei àquela creche? Se tivesse ficado mais um ou dois dias em casa, talvez não tivesse apanhado esta doença…

Sílvia estava deitada no sofá, olhando para o teto. Os pensamentos ansiosos não a deixavam adormecer. Como poderia dormir, se a sua menina estava doente? Porquê levei a Mariana à creche ontem? Se tivesse ficado mais um ou dois dias em casa, talvez não apanhasse esta gripe maldita O peso no peito era tal que lhe faltava o ar. A jovem mãe levantou-se e foi até à janela. O céu cinzento, carregado de nuvens, estendia-se sobre o bairro. Há três dias que a chuva miudinha e persistente caía, típica dos outonos portugueses.

Suspirou, cansada. Na cama, Mariana mexia-se, respirando com dificuldade, e tossia no meio do sono. Sílvia correu para perto da filha, tocou-lhe na testa ardente. Nem precisava de um termómetro para saber que a febre tinha subido de novo. Ligou o candeeiro de presença e enfiou o termómetro debaixo do braço da pequena.

Quarenta graus! Meu Deus, o que faço agora?

Mariana abriu os olhos.

Mamã, está muito quente…

Está, querida, aguenta só mais um bocadinho…

O Sérgio acordou com o alvoroço e sentou-se ao lado delas. Sílvia apressava-se a preparar a próxima dose de ben-u-ron, mas a febre não baixava. Ao amanhecer, uma ambulância com luzes azuis a piscar entrou no pátio e levou mãe e filha para o hospital.

A enfermeira olhou para Sílvia, branca de susto, e, com ternura, aconchegou-lhe o braço antes de, com mão firme, colocar um soro na veia fininha de Mariana.

Não se preocupe, vai correr tudo bem. A Mariana vai ficar melhor.

Sílvia só conseguiu suspirar em resposta. E, de facto, passado algum tempo, a pequena pediu água. Sílvia virou-se e só então viu, na cama ao lado, uns olhos azuis enormes, brilhantes e curiosos, de uma menina franzina, por volta dos seis anos. O cabelo loiro, embaraçado, caía-lhe pelos ombros finos. Usava uns collants já furados nos dedos e uma t-shirt lavada vezes sem conta. Em vez de chinelos, tinha uns ténis com proteções azuis.

Olá.

Olá… Chegaram durante a noite?

Sim, foi de madrugada.

Como se chama?

Eu sou a tia Sílvia, esta é a Mariana. E tu?

Chamo-me Matilde.

Estás aqui há muito tempo?

Sim. Vão-me deixar sair na sexta-feira.

Ainda falta um bocadinho… hoje é segunda-feira.

E a tua mãe está contigo?

Não… A minha mãe morreu há muito, eu era pequena ainda. O meu pai começou a beber e também morreu. Levaram-me para a Casa da Criança.

Suspiro pesado e velho, sem idade.

Lá vivo eu… Mas aqui gosto mais. Comida boa, ninguém me bate ou rouba nada

Levantou-se da cama e calçou lentamente os ténis.

Vem aí o pequeno-almoço. Querem que vos traga?

Não é preciso, querida, eu vou buscar…

Sílvia observou a menina a sair do quarto e sentiu o coração apertar. Outra vizinha de cama olhou Matilde a afastar-se e comentou baixinho: É uma miúda tão meiga… a vida não lhe sorriu.

Sílvia ia responder, mas o telemóvel tocou:

Sim?

Sílvia, como estão? E a Mariana?

Mãe, estamos no hospital.

Oh, Santíssima, o quê?

Não te preocupes, mãe… Subiu a febre, pensam que é bronquite. Agora está mais calma, a dormir…

Do outro lado, a mãe chorou: Coitadinha da minha menina. Em que hospital estão? Levo já alguma coisa!

Mãe, esqueci-me dos chinelos… E a camisola cor-de-rosa da Mariana. E… mãe, aqui está uma menina da Casa da Criança, podes trazer-lhe champô, sabonete? E aquelas roupas da Sofia que ficaram aí guardadas?

Que menina é essa?

Depois conto, leva só umas camisolas, um roupão, leggings… e, por favor, uns chinelos à volta dos seis anos.

Claro, filha, levo tudo.

No dia seguinte, Mariana já brincava com Matilde. Sílvia saiu ao corredor e chamou a enfermeira.

Desculpe, Matilde não tem visitas?

Não. Vem alguém da Casa só no dia de ir embora.

Ela pode tomar banho?

A enfermeira sorriu tristemente:

Pode e deve… mas às vezes não conseguimos ajudar tanto.

Naquela noite, Matilde estava irreconhecível, lavada, de pijama novo e chinelos cor-de-rosa com bordado de cachorrinho. O sorriso radiante não lhe cabia no rosto.

Guardou todos os presentes debaixo da almofada; os chinelos, debaixo do colchão.

Matilde, por que escondes as coisas? perguntou Sílvia, espantada.

Para não me roubarem…

Sílvia apenas suspirou, pesada.

Quando apagaram a luz, Matilde fechou os olhos e sonhou: caminhava por uma rua soalheira, rodeada de árvores, de mãos dadas com Mariana e do outro lado com a tia Sílvia. Queria tanto ter uma mãe, um pai, receber um beijo de boa noite, um carinho no cabelo, vestir um pijama quentinho, ser atirada ao ar pelo pai entre gargalhadas. Sonhava que todos eram felizes. E que ela ajudava: lavava pratos ou brincava com Mariana, aprendia as letras, só para que a amassem. Só queria ter uma família…

Suspirou. Na Casa da Criança, nunca lhe bateram, mas a educadora, Dona Helena, era dura, os outros miúdos gozavam e roubavam-lhe a comida e os brinquedos. Um dia Matilde deixou cair o prato de sopa no chão. Como castigo, fecharam-na num armário escuro. O Vítor sussurrou: Pois, vais dormir agora com os ratos. Ela tinha terror de ratos. Ficara lá longas horas, gelada de medo, e a chorar tanto que acabou com febre e tosse. Assim foi parar ao hospital.

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Soluçou baixinho… E de repente sentiu uma mão a acariciar-lhe o cabelo. Abriu os olhos.

Tia Sílvia…

Não chores, pequenina… Vai correr bem, vais ver…

Num impulso de ternura, Sílvia abraçou-a.

A pequena aquietou-se, o coração cheio de calor como se fosse a própria mãe a embalá-la.

Tia Sílvia

Sim?

Gostava que fosses a minha mãe.

As lágrimas correram nos olhos de Sílvia. Decidiu ali mesmo, com o coração: levaria Matilde para casa. Faltava só falar à família.

A mãe concordou de imediato, também a sogra, que conhecia o que era crescer sem pais. O marido, porém, não ficou logo convencido.

Perdestes a cabeça? Sabes o que implicas? Para sempre?!

Sei. E sei também que se não o fizer, nunca terei paz comigo própria.

Ele ficou calado.

Quero conhecê-la.

Combinado.

À noite, os três saíram juntos para o corredor. Sérgio pegou Mariana ao colo e beijou-a.

Que saudades, minha querida.

Depois, olhou para Matilde.

Vê, Sérgio, esta é a Matilde.

Olá, Matilde.

Olá!

O olhar daquela menina mexeu com ele. Voltou-se para Sílvia, os olhos cheios de emoção e assentiu.

Meses depois, o carro de Sílvia e Sérgio estacionava à porta da Casa da Criança. Uma horda de crianças olhava pelas janelas.

Matilde, Matilde! Os teus pais chegaram!

Radiante, Matilde correu para os braços dos pais adotivos.

Olá, Matilde! Viemos buscar-te. Vamos para casa?

O coraçãozinho da menina explodiu de alegria: Sim, mamã!

Na vida, a maior riqueza não é o que temos, mas o amor e a capacidade de abrir o coração a quem mais precisa. Foi isso que ensinou Sílvia à sua família e à pequena Matilde: quando o amor é partilhado, multiplica-se e transforma vidas.

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Sofia estava deitada no sofá, fitando o teto. Pensamentos inquietos não a deixavam dormir. E como conseguiria repousar, quando a sua menina estava doente? Porque é que a levei àquela creche? Se tivesse ficado mais um ou dois dias em casa, talvez não tivesse apanhado esta doença…