Querido diário,
Hoje não consigo tirar da cabeça o que aconteceu naquele evento beneficente tão exclusivo no coração de Lisboa, no luxuoso Hotel Infante D. Henrique. Tudo à minha volta reluzia ouro, brilhos, as joias caras das senhoras. Senti-me pequena, até mesmo invisível, no meu simples e já gasto casaco bege que outrora pertencera à minha avó. O ambiente cheirava a requinte, mas também a julgamento.
Estava ali por um motivo muito particular, mas ninguém parecia notar a rapariga com sapatos rasos e roupas modestas. Poucos minutos depois de chegar, deparei-me com a Leonor, tão arrogante como sempre, vestida num vestido dourado que parecia feito de raios de sol, ao lado de Tomás, o seu acompanhante de longas aventuras sociais e copos de vinho do Porto. Disfarçando mal o desdém, Leonor bloqueou-me a passagem, analisando-me da cabeça aos pés como se eu infestasse aquele salão.
Tomás, num tom que todos podiam ouvir, virou-se para ela e murmurou entre dentes:
Será que as empregadas hoje se esqueceram da porta de serviço?
Senti todos os olhares colados a mim, mas não desviei o meu. Respirei fundo, tentando não corar, enquanto Leonor se inclinava para mim e ironizava:
Menina, a sopa dos pobres distribui-se a duas ruas daqui. Está a estragar todo o meu ambiente.
Naquele instante reparei: a força não está nos tecidos, mas no olhar. Fitei-a com toda a serenidade que consegui reunir. Não precisei de palavras para lhe mostrar que o respeito começa no modo como olhamos o outro.
Foi então que entrou o senhor Gaspar, diretor da fundação, num fato tão elegante quanto o sorriso afável que trazia. Não deu atenção a Leonor nem a Tomás, que já se preparavam para serem cumprimentados. Dirigiu-se diretamente a mim, inclinando-se:
Dona Margarida Fernandes, mil desculpas, o seu voo desde o Porto chegou antes do esperado. O contrato para aquisição do grupo já está pronto para a sua assinatura.
Nunca vou esquecer o rosto da Leonor. Ficou petrificada, boquiaberta, e deixou cair a taça de vinho, que se partiu ao tocar no chão de mármore. O som ecoou pela sala, mas eu nem pestanejei.
Peguei calmamente na caneta que a assistente me estendeu, sem tirar o meu velho casaco, e assinei os documentos que mudariam o rumo daquela noite.
Só depois, com voz serena e firme, voltei-me para Leonor e disse:
Ah, Leonor, a festa já não é sua. Acabei de adquirir este edifício e a empresa do seu marido. O seu gosto e ‘boa estética’ já não fazem parte dos meus planos. Seguranças, podem acompanhar estas pessoas até à saída, por favor?
Ela e Tomás ficaram parados, silenciosos, enquanto eram escoltados até à porta principal por elementos da segurança. E eu reparei que, por baixo do verniz das aparências, há sempre mais a descobrir.
A lição desta noite transparece: em Portugal, tal como em qualquer parte do mundo, nunca devemos julgar alguém pela capa que traz vestida. Por vezes, por baixo do mais simples dos casacos, está quem pode mudar o vosso destino de um dia para o outro.
Já passaram por situações assim? Intrigas e julgamentos? O que sentiram? Quero saber as vossas histórias partilhem comigo, quem sabe não aprendemos juntos a ver para lá do óbvio.






