Quando é que vamos mudar para a casa nova? perguntaram os sogros, sem rodeios.
Não percebeste? Irene ficou tensa.
Já que concluíram tudo, achámos que em breve nos convidariam a viver convosco completou o paisogro, Óscar.
Nuno, percebes que isso ultrapassa todos os limites? Irene não conteve as emoções, ainda mais que o marido fingia não entender o porquê dela estar tão alterada.
Talvez tudo não passasse de um plano para que ela investisse alguns anos da sua vida na construção, aplicasse todas as poupanças que tanto lutou para juntar e, no fim, ficasse com nada?
Os jovens não seguiram o exemplo dos colegas que compram apartamentos miúdos a preços de louco. Quando Nuno e Irene começaram a namorar, decidiram que, no futuro, iriam construir a própria casa. Era mais barato, mais rápido e mais vantajoso: ao invés de trinta metros quadrados, poderiam ter cento e trinta pelos mesmos euros.
Teremos espaço para os filhos e ainda poderemos ter animais de estimação sem medo exultava Irene.
Por sorte, já tinham um terreno. Pertencia à tia de Irene, que o transferiu para a sobrinha ao saber da seriedade dos planos do casal.
Não vos dei quase nada de presente de casamento, então este será o meu presente: um sítio onde possam criar os vossos filhos disse a tia, sorrindo, a parcela está parada há vinte anos, melhor que fique a vosso serviço.
Mesmo assim, não foi fácil; para poupar, o casal assumiu várias fases da obra. Trabalhavam depois do horário, nos finsdesemana e até em dias de chuva.
Irene acabou por recorrer à herança. Recebeu o dinheiro da venda do apartamento da avó e reinvestiu na construção.
Quando, finalmente, a casa ficou pronta, perceberam que cada minuto de esforço tinha valido a pena.
Claro que a obra ainda não estava 100% concluída. Restavam detalhes de acabamentos e alguns cantos a terminar, mas o facto de já poderem viver lá encheu o casal de euforia.
Começaram a passar noites no novo lar e a receber visitas. Irene lamentava apenas uma coisa: os pais de Nuno nunca tinham ajudado, apesar de vários pedidos.
Os sogros sempre alegavam ter assuntos muito importantes e não conseguiam ajudar nem a instalar a cerca, nem a pôr a árvore de Natal, nem a entregar a frigorífico. E ainda tinham um SUV enorme com reboque o carro ideal para as idas ao campo mas, no fim, o casal acabou por pagar a entrega.
Estão eles sempre ocupados? Mas com o que? São pensionistas, afinal espantavase Irene.
Não vão mentir encolheu os ombros Nuno.
Irene achava que, talvez, os sogros realmente estivessem atarefados, mas um pequeno verme de desconfiança corria-lhe pela cabeça.
Inês, hoje trazem a nova televisão. Recebes? Nuno, a correr para o trabalho, mastigava um sanduíche na cozinha recémpintada.
Claro, a que horas chegam?
Disseram que será à tarde, entre as 15h e as 20h. Dei o teu número e prometeram chamar uma hora antes.
Obrigada, aqui está o almoço que preparei para ti.
Vale, vou logo deu Nuno um beijinho na bochecha da esposa e saiu apressado.
Por volta das quatro, ouviram batidas à porta.
Irene estava certa de que era a entrega, embora estranhasse o fato de não terem chamado como prometido.
Abriu a porta e encontraram os pais de Nuno Lília e Óscar em pé no vestíbulho.
Oh! exclamou Irene, surpresa, e só conseguiu dizer ai.
Olá, Irene! Não nos reconheces? Vamos ficar ricos! riu Lília, com um sorriso largo.
Desculpem, reconheçovos, só não esperava que viessem.
Podemos entrar? piscou Óscar.
Ah, claro respondeu Irene, ainda atônita.
Os sogros adentraram a espaçosa sala de estar, que se fundia com a cozinha, e começaram a olhara ao redor.
Que luxo que tem aqui! exclamou Lília, balançando a cabeça em aprovação. Ainda bem que construíram uma casa e não compraram um apartamento. Casa tem espaço, solidez!
É concordou Irene, sem saber bem o que dizer.
Quando é que podemos mudar para a vossa casa? perguntaram de novo.
Não percebeste? Irene ficou ainda mais tensa.
Como já terminaram tudo, achámos que em breve nos convidariam disse Óscar, como se fosse óbvio.
Nós não tínhamos pensado numa casa para quatro pessoas recuou Irene, confusa pelas perguntas inesperadas.
Somos uma família de reis? Uma única divisão bastanos! riu Óscar, brincando.
Nós, Irene, vamos ainda pedir a pensão e arrendar o nosso apartamento, agora que temos onde ficar explicou Lília, ainda a sonhar com a aposentadoria dourada.
Já falaram com o Nuno? Irene não gostava da ideia dos sogros.
Ainda não, mas ele não vai oporse, tenho a certeza.
Irene ficou pasmada com tanta falta de tato. Nunca responderam a nenhum pedido de ajuda, e agora queriam mudarse para a casa e ainda ganhar algum dinheiro com o arrendamento.
Não encontrou forças para confrontálos, mas esperava que Nuno a defendesse.
Não somos lixo! protestou Óscar. Pelo menos ofereçamnos um chá!
Claro, com todo o prazer respondeu Irene, resignada.
Os sogros sentaramse devagar, tomando chá à mesa do jantar, quando o telefone soou.
O motorista da entrega desculpouse por não ter ligado com a antecedência combinada e avisou que já estava a chegar.
Irene foi buscar a televisão. Os entregadores ajudaram a colocar a grande caixa dentro de casa e despediramse educadamente.
Olha que tamanho! exclamou Óscar. Onde vais pendurála?
Ali, apontou Irene para a parede vazia.
Perfeito! À noite vamos sentarnos no sofá e ver as notícias.
Na verdade, não planeámos instalar antena.
Ah, que engraçado! E o que vão ver então? Uma tela vazia?
Nada. Filmes, séries, apps. Hoje em dia ninguém liga para antenas, só os mais velhos deu de ombros Irene.
Então somos nós! riu Lília. Falo com o Nuno para instalarem a antena.
Irene contou os minutos até a chegada de Nuno, rezando para que não se atrasasse no trabalho. Por sorte, ele chegou a tempo.
Lá vem o Nuno! exclamou ela ao ouvir o rugido do motor.
Irene correu ao vestíbulo para o receber.
Os teus pais chegaram e querem mudarse para cá sussurrou a Irene, abraçandoo pelo pescoço.
O quê? gritou Nuno, surpreso.
Calma, eles vão explicar tudo.
Como assim? indagou Nuno.
Chegaram, para ver a casa. Gostámos muito! respondeu Óscar, com ar de quem estava a fazer uma inspeção.
Ver a casa? Se nasce um bebé já não haverá espaço adiantou Nuno, prevendo o futuro.
Mas temos duas divisões no andar de cima! interveio Lília.
Uma para crianças, outra para visitas. As festas são frequentes, somos jovens de coração sorriu Nuno.
Ah, mas não gostamos de barulho comentou Lília, olhando para o marido.
Então terão de ser mais silenciosos concordou Nuno.
Por quê? perguntou ele, intrigado.
Já dissemos à Irene que queremos mudarnos, arrendar o nosso apartamento e ganhar um bocadinho mais afirmou Óscar, confiante.
Não temos onde ficar retrucou Nuno, encolhendo os ombros.
Filho, como assim? Não há lugar para os pais? pediu Lília, com um tom de súplica.
E os pais ajudaramnos em nada? Nem a frigorífico entregaram! Vocês nunca apareceram, agora querem ainda ganhar dinheiro com a nossa casa? Não, pais, isso não vai acontecer. Amovos, mas não temos espaço.
Óscar e Lília trocaram um olhar.
Vamos, Lília, já é hora disse o pai, de forma breve.
Vamos.
Silenciosos, levantaramse e dirigiramse ao vestíbulo, saindo com dignidade.
Quando o carro partiu, Irene correu para Nuno e abraçouo pelo pescoço.
Obrigada, amor! Tinha medo de que te voltasses para o lado deles confessou, aliviada.
Por quê? Vi como te magoavam sempre que recusavam ajudar. Por que devo aceitar essa proposta esquisita? Queremos ganhar um bocadinho de renda isso é só desculpa para viver aqui.
Obrigada! apertouse ainda mais a Irene ao marido.
De nada sorriu Nuno. Agora, pagame à noite com o teu melhor prato.
E viveram felizes, construindo o futuro sob o sol de Lisboa, com um toque de ironia e muito carinho.





