Quando é que você vai acabar, então? sussura a nora.
O fôlego dela é quente e cheira a café barato. Ela pensa que estou inconsciente apenas um corpo cheio de medicamentos.
Mas eu não durmo. Estou deitada sob um cobertor fino de hospital, e cada nervo do meu corpo está tensionado como uma corda.
Sob a palma da mão, escondido de olhos alheios, está um pequeno gravador retangular e gelado. Apertei o botão de gravação há uma hora, quando ela entrou na ala com o meu filho.
Tiago, ela ainda é como um legume a voz de Lurdes sobe, claramente a caminho da janela O médico disse que não há mais nada a fazer. O que esperamos?
Ouço o meu filho suspirar com dificuldade. O meu único filho.
Lurdes, isso está errado. Ela é a minha mãe.
E eu sou a tua esposa! responde ela bruscamente. Quero viver num apartamento decente, não nesta despensa. A tua mãe já viveu o suficiente. Setenta anos. Basta.
Não me mexo. Até respiro de forma regular, imitando um sono profundo. Não há lágrimas tudo por dentro se reduziu a cinza e pó.
Só resta uma clareza fria, cristalina.
O corretor diz que os preços estão bons agora Lurdes não para, mudando para tom de negócios. Um T2 no centro, reformado
Podemos arrecadar uma boa soma. Comprar uma casa nos arredores, como sonhávamos. Um carro novo. Tiago, acorda! Esta é a nossa oportunidade!
Ele fica calado. O silêncio dele é mais assustador que as palavras dela. É consentimento. Traição embalada em fraqueza.
E os pertences dela continua Lurdes. Jogaremos metade fora. São tralhas que ninguém quer. Jogo de jantar, livros Guardaremos só antiguidades, se houver. Vou chamar um avaliador.
Sorri interiormente. Avaliador. Ela nem suspeita que já organizei tudo na semana passada.
Todos os objetos de valor, tudo que vale, já está num local seguro. Também os documentos.
Está bem finalmente diz Tiago. Faz o que achares. É difícil para mim falar sobre isso.
Não fale, querido resmunga ela. Eu faço tudo sozinha. Não precisas sujar as mãos.
Ela se aproxima da cama.
Sinto o olhar dela avaliativo, frio. Como se observasse não uma pessoa viva, mas um obstáculo que logo desaparecerá.
Aperto levemente o corpo liso do gravador. Isso é só o começo. Eles ainda não sabem o que lhes espera.
Rasgam-me da vida. Em vão. A velha guarda não desiste. Vai ao último ataque.
Passa uma semana. Uma semana de gotejamento, purê sem graça e o meu teatro silencioso. Lurdes e Tiago vêm todos os dias.
O meu filho senta na cadeira junto à porta e fixa o telemóvel, como se tentasse escapar da realidade. Não suporta olhar o meu corpo imóvel. Nem a própria traição.
Lurdes, ao contrário, sentese na ala como se fosse sua casa. Fala alto ao telefone com amigas, a planear a casa futura.
Sim, três quartos. Sala ampla. E o terreno, imaginas? Vou fazer paisagismo. O quê? Sogra? Ah, ela está noAssim, enquanto Lurdes ainda falava ao telefone, eu apertava o botão de gravação final, selando o destino de todos.
