Hoje foi um daqueles dias que vou guardar para sempre. Mal sabia eu, ao sair de casa de manhã cedo com a carrinha carregada, que o destino tinha planos próprios para mim. O cheiro dos pastéis de batata ainda quentes, que a minha mãe preparou com tanto carinho, enchia a cabine. Apesar de ser feriado, lá fui eu, estrada fora, a ouvir música alegre na Antena 1 para animar o espírito enquanto fazia mais uma entrega.
Já noite cerrada, conduzindo sozinho pelo interior de Portugal, reparei numa aldeia pouco antes da curva da estrada nacional. Perto da paragem dos autocarros, a luz dos meus faróis iluminou uma rapariga, visivelmente nervosa, a tentar pedir boleia. Parei de imediato. Afinal, não se deixa ninguém sozinho na beira da estrada, ainda por cima com este frio lusitano.
Pode-me dar boleia? perguntou ela, voz baixinha.
Claro, entre. A esta hora já não passa quase ninguém. Há muito que espera? perguntei, ao notar-lhe as mãos geladas.
Já faz tempo… respondeu, e de repente rebentou num choro sentido.
Fiquei meio sem saber o que fazer.
Perguntei se lhe tinha acontecido alguma coisa. Entre soluços, contou-me:
Chamo-me Maristela. Hoje até se celebra o Ano Novo a sério, e como ia haver jantarada em casa de uma colega que comprou uma casa rústica aqui perto, decidi vir. Separara-me do namorado há pouco tempo, não tinha grande vontade de ficar sozinha. Ela combinou que quando eu chegasse ligasse, que vinha buscar-me aqui à paragem, junto à mercearia.
Mas, mal saí do autocarro e lhe telefonei, disse-me para esperar uns minutos, que vinha ter comigo. Só que, ao olhar à minha volta, percebi que ali não havia viva alma… O autocarro já arrancava e só então vi na placa: Sobral. Tinha apanhado o autocarro errado, era para ter ido até à Lousã! E para piorar, era o último do dia… Ainda gritei, mas o motorista não me ouviu. Tentei ligar à minha amiga, mas sem rede. Aguardei, aguardei… Já desesperava.
Acabei por ficar ali sentada na paragem, gelada até aos ossos, à espera de uma alma caridosa. Foram quase três horas, até o senhor aparecer. Não faço ideia o que teria feito se não tivesse parado… Muito obrigada, mesmo.
Sorrindo, tentei animá-la:
Vá, trata-me por tu, Maristela. Não precisas de formalidades.
Ela retribuiu o sorriso e senti que estávamos em sintonia. Era uma mulher simples, bonita, pé no chão. Lembrei-me dos pastéis da minha mãe nada como conforto à portuguesa. Parei o carro e ofereci-lhe um. Ela partilhou comigo uns enchidos, queijo da serra e até um chocolate preto delicioso.
Como estava cansada, deixei-a descansar na parte de cima da cabine e eu fiquei pelos bancos da frente. Enquanto nos deitávamos, Maristela perguntou:
Ó Vítor, és casado?
Não, ainda não respondi.
E porquê?
Olha, honestamente, porque há pouco tive o privilégio de conhecer uma rapariga que me mexeu cá dentro, mas ainda não lhe disse nada…
Maristela riu-se e disse que compreendia.
Agora dorme, que amanhã ainda tens que entregar a carga disse-lhe, a sentir uma tranquilidade imensa.
O resto da viagem correu animada, ela contou-me que nunca tinha tido uma aventura destas e, apesar do imprevisto, sentia-se grata por tudo ter corrido bem. Pelo caminho pensei como a vida nos surpreende: aquela noite podia ter sido só mais uma, e acabou sendo a noite em que conheci alguém especial.
Quando regressámos e viemos a caminho da cidade, tomei coragem:
Maristela… posso pedir-te o número de telefone?
Ela olhou para mim, meio divertida.
E aquela rapariga de quem gostaste? perguntou.
Era de ti que falava, claro disse-lhe, rindo. Gostava muito de te voltar a ver. Se quiseres, claro…
Corou e respondeu:
Claro que sim! Gostei muito de ti também, foste um verdadeiro cavalheiro.
Agora escrevo estas linhas já em casa, sorriso bobo na cara. Em abril, eu e Maristela casámos-nos. A vida surpreende, realmente às vezes basta um desvio, um atraso, um encontro inesperado para nos pôr tudo do avesso, da melhor forma possível.







