Mal atingi a maioridade, casei-me de repente. “Casei-me” nem é a palavra certa, foi mesmo um salto, um salto inesperado para todos, inclusive para mim. Mas já estava feito. Uma vida nova despontava, completamente desconhecida, exigia encontros com os pais do meu jovem marido, que estava tão perdido quanto eu. Parecia que tínhamos caído do ninho sem saber sequer bater as asas.
Numa manhã enevoada, enquanto a minha tia Maria me servia o pequeno-almoço, enchendo o meu prato com carinho, entrou a vizinha Dona Alzira. Observou o ritual de mimo e comentou, num suspiro triste:
Menina mimada és tu, nunca conheceste desgostos. Espera só, a tua sogra vai dar-te que fazer.
Deixe lá a rapariga em paz, cortou a minha tia Maria, com doçura.
Tive de admitir: até então desconhecia mágoas. A minha família era estranha, feita apenas de avó e três filhas a minha mãe, a minha tia Maria, e a tia Eugénia e eu era a favorita da Maria, a mais velha. Homens não havia a guerra levara-os todos. Vivíamos unidas, as crianças recebiam todo o carinho e cuidado, por vezes até demais. Como a mais nova, era ainda mais mimada. A velha tinha razão: não sabia o que era sofrimento. A palavra sogra, porém, soou a coisa feia no ouvido, áspera e maligna, como uma ameaça sussurrada à noite.
A sogra revelou-se afinal uma mulher simpática, alta e cheia de curvas. Disse-me logo: Entra, filha e sorriu. Tudo pareceu simples. Ela movimentava-se pela casa, oferecia-nos fatias de pão com doce de abóbora, depois levou-me ao quintal, mostrou as suas leiras altas e bem tratadas, onde tudo já despontava. Exibiu até o seu porquinho, que veio correndo, contente.
Nicolau, Nicolau, vou já dar-te de comer, meu querido! disse, risonha, ao porco, e senti-me agradavelmente incluída nesse elogio.
O quintal, o porco Nicolau, tudo aquilo era-me tão familiar que senti logo um aconchego. Também nós sempre tivemos porcos chamados Nicolau e falávamos com eles em voz doce. De repente, tudo parecia fazer sentido e comecei a gostar do ambiente.
De manhã, os homens partiam para o estaleiro; nós ficávamos a tratar da casa. Mas aquela palavra cortante, sogra, deixava-me presa, sem saber como havia de a chamar. Até que um dia ela elogiou o meu nome e contei-lhe a história de Beatriz, a nossa santa portuguesa. Ela, rindo-se, sugeriu: Chama-me então Beatriz, filha, como a santa, que também sou Beatriz. Gostas do nome? E assim, suavemente, resolveu o meu impasse. Passei a chamá-la Dona Beatriz.
A vida começou a entrar nos eixos. Dona Beatriz era de um sorriso aberto e leveza de movimentos; sabia trabalhar sem se dar por ela. Quando acordava, o pequeno-almoço já estava na mesa, os soalhos brilhavam, o quintal limpo, e o Nicolau alimentado. Sentávamo-nos ao alpendre a conversar e ela ia-me contando, a rir, as histórias amargas do tempo da guerra, quando ficou sozinha com três rapazes, como trabalhou no pinhal a cortar lenha, e como um gerente lhe arranjou emprego na mercearia, onde conseguia assegurar pão para os filhos, especialmente para o mais novo, o meu marido, franzino e doentito.
Todos estes quadros ganhavam um colorido novo no meu imaginário. Tudo parecia calmo, mas eis que chegou o infortúnio.
Uma manhã, Beatriz acordou-me:
Filha, as vizinhas vão apanhar amoras ao mato, eu gostava de ir com elas. Preparaste-te para dar de comer ao Nicolau? Deixei tudo pronto.
Claro, sem problema! assegurei, ficando sozinha em casa.
O Nicolau não se fez esperar um grito estridente e lá fui eu, balde na mão, a caminho do chiqueiro ao lado do quintal. Era abrir a porta, despejar o balde na gamela do porco. Fácil, pensava eu. Tola ilusão.
Mal abri a porta, o Nicolau, cheio de força, escancarou tudo, esbarrou-me o balde das mãos e disparou pelo quintal, saltando para as leiras altas, os espinafres e as cenouras já em botão. Apoderou-se de um espírito de liberdade, corria, rebolava, grunhia de pura alegria. Eu fiquei estática de terror, sem reação, a ver o desastre. Mas tinha de agir; via os verdes a serem esmagados todo o esforço de Dona Beatriz a ir por terra. Senti finalmente a ansiedade das profecias de sofrimento vindas da vizinha. Agora sim, a sogra vai fazer-me a vida negra, pensava.
Tenho de prender o Nicolau nem que chova! pensei, correndo atrás do animal. A nossa velocidade era quase igual e cheguei mesmo a agarrá-lo aquela massa gordurosa e barrenta mas ele escapava-se ágil e decidido. Desisti da força e tentei a astúcia. Corri à cozinha, trouxe pão. Funcionou: Nicolau vinha buscar o pão das minhas mãos e assim o fui atraindo, passo a passo, até ao chiqueiro. Porém, junto à porta, virou-me as costas e reiniciou a destruição, ainda mais solto! Era um pandemónio. Destruiu até a estufa dos tomatinhos, tudo arruinado.
Por fim, talvez cansado, Nicolau sentou-se sobre as pernocas e, em vez de correr, deixou-se acarinhar. Lembrei-me dos mimos dados aos animais de casa em miúda. Com um empurrão, deitei o porco de lado e comecei a coçar-lhe a barriga barrenta. Nicolau fechou os olhos de delícia, grunhindo satisfeito.
Não sei quanto tempo fiquei ali, as mãos dormentes e a garganta seca de tanto chorar, o sol a castigar-nos. Era uma visão triste: eu, exausta e enlameada ao lado do porco feliz, ambas entre as ruínas do que foi um jardim, sem esperança.
A cancela bateu subitamente era Dona Beatriz, alarmada.
Ó descarado! Deixaste a rapariga de rastos! exclamou, arrastou Nicolau de volta ao chiqueiro, trancou a porta, e voltou-se para mim.
Tentei erguer-me, mas as pernas só tremiam. Ela ajudou-me, levou-me para fora das leiras.
Espera, minha pobre filha, vou buscar-te água e trouxe um balde grande, a água fresca que já de madrugada ela fora buscar ao fontanário. Começou a lavar-me as pernas, braços, até à cara, a água suja misturada com lágrimas.
À medida que a terra ia escorrendo, parecia que se lavava de mim também o peso daquela palavra terrível: SOGRA. Senti-me leve, quase feliz, e sem querer exclamei Ó minha mãezinha! Ela soltou uma gargalhada e abraçou-me: Vem, anda comer umas amoras.
Nem se falou do jardim destruído, um encolher de ombros:
Isso são coisas sem importância, tudo cresce outra vez. Os tomates recuperam, vais ver. O porco divertiu-se, pronto. Agora descansa, filha, enquanto os homens não chegam, eu vou já preparar o almoço.
Como podia uma mulher com a vida tão dura ter tanta paciência e ternura? Não sei quem lhe deu esse dom, mas sei agora como crescem filhos bondosos, que tantas vezes as mães oferecem ao mundo e a raparigas como eu, enquanto injustamente se lhes cola o espinho daquela palavra: sogra.







