O escritório fervilhava de conversas típicas de fim de manhã. Quando a porta se abriu, entrou a gerente acompanhada de uma rapariga discreta e recatada.
Apresento-vos a vossa nova colega, meninas, chama-se Mafalda. Ela irá trabalhar convosco no lugar do Gonçalo, que foi promovido. Tenho a certeza que se vão dar muito bem. informou Dona Teresa e saiu.
Mafalda sentou-se no lugar onde antes estava o Gonçalo. Tirou da mala uma chávena colorida bem bonita e colocou, em frente ao monitor, um pequeno retrato de um homem. Mergulhou logo no trabalho, com a certeza de quem já ali estava há anos.
Soou o habitual sinal para a pausa e, como se orquestradas, todas se levantaram para irem almoçar juntas, exceto Marina, consumida pela curiosidade: quem seria o homem na moldura que Mafalda tão cuidadosamente ali expôs?
O retrato mostrava um homem de sorriso aberto e dentes alinhados. Quem será? pensava Marina Um ator? Um cantor talvez? Discretamente tirou uma foto com o telemóvel antes de também sair.
À mesa do restaurante self-service, as colegas escutavam Mafalda, sedentas de detalhes.
Conheci o Duarte há três anos, numa situação tão insólita que ninguém acreditaria se fosse num romance.
Conta, conta tudo! pediam as colegas, entusiasmadas.
A memória levou Mafalda três anos atrás, quando trabalhava numa grande empresa. Houve um erro na entrega de mercadoria, confusão do departamento de logística, e coube a ela resolver a situação junto da empresa de quem, sem o saber, receberia a proposta mais importante da sua vida.
Mafalda era conhecida pela inteligência e capacidade de negociação. A sua modéstia e falta de artifícios enganavam muitos uma ratazana cinzenta, como sugeriam às escondidas. Mas, nas reuniões, transformava-se. Abordava os problemas com delicadeza, firmeza e simpatia, conquistando sempre resultados.
O chefe conhecia bem a sua eficácia e escolheu-a para a tarefa. Ao chegar, a rececionista indica-lhe:
Sala 312, Duarte Soeiro.
Mafalda entrou, apresentou-se com confiança.
Chamo-me Mafalda, estamos aqui por um lapso na expedição. Vim esclarecer tudo convosco.
Durante a explicação, Duarte observava-a, meio incrédulo. Era ela, a mulher que em tempos sonhara, mas nunca encontrara. Cabelos ruivos ondulavam leves e os olhos verdes fitavam-no honestos.
Preparada para as habituais objeções, Mafalda foi surpreendida:
Mafalda, não faz sentido criar reclamação. Espero que esta falha não se volte a repetir.
Ela agradeceu e saiu. Dois dias depois, estava ele à porta da empresa, à espera dela.
Mafaldinha! chamou, acenando.
Boa tarde, Duarte. Claro que me recordo respondeu, serena.
Tenho bilhetes para o Teatro Nacional, a minha mãe está doente e fiquei com um bilhete a mais. Fazes-me companhia?
Qual é a peça, Duarte?
É hoje, dentro de duas horas. Se precisares de ir a casa mudar de roupa, levo-te lá.
Manobra astuta, pensou Mafalda, mas aceitou.
Esperou-a junto à porta do prédio. Quando ela surgiu, era outra Mafalda: vestida a rigor num vestido preto, realçando a silhueta e os saltos moderados. O cabelo arranjado e uma maquilhagem discreta que a tornavam sofisticada. Duarte ficou sem palavras não a reconheceria na rua.
Durante o espetáculo, sentou-se ao lado dela, admirado com o conhecimento e a atenção de Mafalda à peça, que certamente já lera. No fim, Duarte sugeriu um jantar, mas ela recusou educadamente, dizendo que teria uma reunião difícil no dia seguinte. Ele deixou-a em casa e foi-se embora.
À sexta-feira, tornou a estar à sua espera para um passeio. E assim foi, semana após semana.
Dois meses depois, à saída do emprego:
A minha mãe quer conhecer-te, aceitas?
Fico radiante, Duarte, desejo conhecê-la também.
Foram recebidos calorosamente pela Dona Vera, com chá de lúcia-lima, bolo de alperce e compota de maçã bravo-de-esmolfe. Mafalda contou como fazia doces com a avó em Viseu e falou do pai, operário que perdera a vida num acidente, e da mãe professora de História.
Duarte deixou Mafalda em casa, contente.
A minha mãe adorou-te. Fico feliz.
Começaram a ver-se diariamente e, ao cabo de um ano, casaram-se modestamente, celebrando o amor entre família e amigos.
Mafalda calou-se. As colegas escutavam, algumas invejosas em segredo. Só Marina não entendia:
O que ele viu nela? Uma ratazana cinzenta. Tanta mulher bonita por aí, e ele escolhe essa? Bonita sou eu, pernas até ao céu, e calho sempre em desilusões.
Chegou a hora de regressar ao escritório. Marina sussurrou para a colega Sofia:
Olha, é mesmo esse homem! Acreditas nisto? Para mim, ela inventa tudo.
No final do dia, ao sair, Mafalda é chamada por uma buzina. Duarte surge à porta, e corre para recebê-la. As colegas observam, umas cabisbaixas.
Quantas vezes já nos perguntámos o que é que alguém especial viu numa pessoa dita simples? O segredo é que, muitas vezes, as qualidades mais valiosas vivem atrás de rostos discretos. A beleza impressiona, mas é o carácter, a doçura e a autenticidade que conquistam para a vida. Quem vê caras, não vê corações.







