26 de março de 1998 Diário
Hoje, ao abrir o velho álbum de fotografias da minha infância, a memória voltou a ser um vendaval que não dá trégua. Recordo-me da noite de inverno de 1950, quando o frio do Alentejo entrava pelos cantos da casa de pedra e se instalava até nos ossos. A minha estrebaria, com as paredes de adobe e o cheiro de umidade, tornouse o cenário daquele parto que marcaria a minha vida para sempre.
Eu, então apenas dezessete primaveras, contorciame na cama, agarrada às lençóis enquanto as contrações me sacudiam. Só havia a parteira, Dona Maria do Rosário, uma mulher de mãos endurecidas e de um coração que já tinha visto demais. Quando, finalmente, o choro agudo de um recémnascido rasgou o silêncio, senti o meu espírito voltar ao corpo.
É uma menina linda disse a parteira, envolvendo o bebé numa manta e entregandoo ao meu peito ainda trêmulo.
Segureia de mãos trémulas, o corpo ainda coberto de sangue, mas nos olhos já nascia a ternura de mãe. Olheia com a certeza de que nada nem ninguém poderia separarme daquela criaturinha.
Mas a ilusão durou apenas um instante.
A porta bateu com estrondo e a minha mãe, Dona Antónia, entrou como uma tempestade. Trajava luto embora ninguém tivesse morrido e o rosto carregava uma expressão de desdém que me gelava a alma.
Dáme a menina! exigiu, arrancandoa dos meus braços.
Não, mãe! Não me a tires! gritei, tentando erguerme com as forças que restavam.
Cala a boca! cortou ela com voz fria como a geada. Nasceu com o tal… mal dos mongólicos. Não vai sobreviver. Não serve a nada.
Lamentei, chorei, implorei até que a voz se apagasse. A mãe, porém, não cedia. Envolveu a bebé ainda mais apertado, saiu da câmara e bateu a porta com um portão que soou como um tiro no meu peito.
Fiquei ali, naquela noite, com os braços vazios, a repetir um nome que nunca ousara pronunciar.
Os anos correram. No povoado todo se dizia que a minha filha havia morrido ao nascer, tal como a minha mãe insistira. Fingi sempre um sorriso, enquanto o coração apodrecia em silêncio. Parti de casa aos vinte e cinco, sem olhar para trás. O perdão não chegava, a lembrança não desaparecia, e a ferida não cicatrizava.
Fuime então professora da escola primária, vivi só, sem marido, sem filhos. No fundo, sentia que parte de mim ainda jazia naquela parede úmida da velha casa.
Até que, numa tarde de primavera, voltei ao meu vilarejo. A mãe já não estava; a sua morte trouxe, talvez, o fim daquele jugo que me aprisionava. Caminhei pela praça central a mesma onde brincava de menina e o aroma do pão quente, acabado de sair da padaria, misturavase ao perfume das flores já cansadas. Quase senteime num banco quando ouvi uma risada infantil, pura e cristalina, como um sussurro do passado.
Virei-me.
E lá estava ela.
Uma menina de nove anos, a brincar com uma boneca de trapo. Os cabelos em tranças desfeitas, um vestido florido remendado na barra, e olhos castanhos que cintilavam com uma ternura estranha, uma luz que mexeu profundamente algo adormecido em mim. O coração martelou no peito.
Aproximeime, as pernas ainda trêmulas.
Olá, minha querida… como te chamas? perguntei, com a voz quebrada.
A menina me encarou, curiosa, sem medo.
Chamome Madalena respondeu, com um sorriso tímido.
O nome bateume como um trovão. Madalena era o nome que eu tinha pensado para a minha filha, o nome que mantive trancado na garganta todos esses anos.
As minhas pernas fraquejaram.
Nesse instante, surgiu uma mulher mais velha, rosto curtido, mãos de quem trabalha a massa: Dona Rita, a padeira da rua. Aproximouse da menina e seguroua no ombro.
Conhecea? perguntoua a mim, cautelosa.
Eu via e pareciame familiar gaguejei.
Dona Rita abaixou o olhar, desconfortável.
Vive comigo desde bebé. Uma senhora trouxea, disseme que a mãe não a queria, que tinha que escondêla. Nunca soube a história completa
Senti o meu peito se abrir como se a alma fosse sair pela boca.
Não! Não é verdade! Eu amavaa! Tiraramme! gritei, sem conseguir conter o desespero.
A padeira recuou um passo, surpresa.
A menina, porém, permaneceu em silêncio, mas deu um passo na minha direção.
És a minha mãe? perguntou, sem drama, com a brutal sinceridade dos pequeninos.
Caí de joelhos e desabei em lágrimas.
Sim, minha filha eu sou a tua mãe. Perdoame por não terte procurado antes, por não terte encontrado.
Madalena abraçoume sem dizer mais nada. O seu corpo era quente, real, meu.
Aquele dia aprendi que a vida, às vezes, concede segundaschances. Não importam os escândalos, os olhares da gente da aldeia ou os anos perdidos. Recuperei a minha filha.
E desta vez, ninguém mais a tirará de mim.
