Ele achava que eram pé-rapados, até descobrir quem ela realmente era!
Nunca julgues um livro pela capa. Isto é mesmo um clássico exemplo.
Interior de uma relojoaria de luxo na Avenida da Liberdade, em Lisboa. O gerente, impecavelmente vestido de fato escuro e gravata de seda, cruza os braços ao peito e olha para o casal jovem com desdém. Trazem ambos sweats largas e ténis mais prontos para um festival no Porto do que para comprar relógios suíços.
Num gesto impaciente, o gerente aponta para a porta:
**«Isto não é a Feira da Ladra. Vão lá para fora antes que eu chame o segurança para vos pôr na rua.»**
O rapaz já estava a ferver, de olhar a prometer um escândalo, mas a namorada pousa-lhe a mão no ombro, serena, a pedir calma. Depois encara o gerente com um olhar que nem um touro no Campo Pequeno aguentava.
O gerente solta uma gargalhada seca:
**«Poupe as ilusões, menina. Gente como vocês não tem lugar aqui.»**
Estica o braço até debaixo do balcão e prepara-se para carregar num botão vermelho. Mas ela suspira fundo, saca do bolso de um dos seus hoodies uma raríssima carta transparente de cristal e toca com ela no vidro da montra. O som de carrilhões ecoa por todo o espaço, de meter inveja à Torre dos Clérigos.
O gerente engole em seco, paralisado. No mesmo segundo, o seu telemóvel vibra no balcão. No visor aparece: **DIRETOR-GERAL NÚMERO PESSOAL**. Ele olha do écran para a rapariga, lívido como um bacalhau antes da ceia de Natal.
Ela inclina-se e sorri, gelada como as águas do Atlântico em Janeiro:
**«Então vá, atenda lá o telefone. Explique ao senhor diretor porque é que recusou atender a nova proprietária desta cadeia de lojas.»**
Com a mão a tremer mais que um gelado nos Açores, ele atende. Os olhos esbugalhados de quem já vê a vida a andar para trás.
Trémulo, balbucia: «Sim?… Senhor diretor eu eu não fazia ideia». Do outro lado, ouve-se uma voz fria: «Está despedido, sem apelo. Deixe já as chaves no balcão.»
A rapariga vira-se para o namorado, que parece ter visto o Eusébio ressuscitar em pleno Estádio da Luz:
**«Desculpa, Tiago, era para te contar depois do jantar. Mas, olha, o destino adiantou-se. Vamos escolher-te um relógio?»**
Ela passa graciosa pelo gerente, que, desolado, já tira o crachá dourado, ciente de que a sua carreira no luxo acabou ali mesmo, entre portugueses.
**Moral da história:** O respeito nunca depende do preço da tua roupa. Mas às vezes, a justiça aparece mesmo quando menos se espera ou quando mais convém!







