Catarina já estava há quase duas horas à espera da vez para falar com a Dona Benedita, uma conhecida curandeira da região. Aquela senhora era o último recurso da jovem portuguesa. Por vários anos, Catarina tentou, em vão, levar uma gravidez até ao fim. Por motivos que ninguém conseguia explicar, nunca conseguiu concretizar o seu maior desejo.
Olhe, não sei bem o que lhe dizer As suas análises estão ótimas, não há qualquer patologia constatou a médica, levantando levemente os ombros.
Mas tem de haver uma explicação para isto. Se estou perfeitamente saudável, porque é que não consigo ter filhos? questionou, quase desesperada, Catarina.
Não faço ideia. Aqui, a medicina já não pode ajudar. Talvez deva ir até à igreja, rezar um pouco sugeriu a médica, numa voz resignada.
***
Catarina e Miguel eram casados há cinco anos. Tinham uma bela vida juntos: ambos tinham bons empregos, casa própria, muito amor e respeito mútuo. Só lhes faltava o riso de uma criança a ecoar pelas divisões amplas da sua casa, decorada com tanto carinho.
Já há algum tempo que Catarina suspeitava que algo sombrio pairava sobre ela e o marido, e depois da conversa com a ginecologista, sentiu cada vez mais que talvez estivessem mesmo amaldiçoados.
Igreja é tudo muito bonito, mas para casos como o teu só mesmo uma pessoa com o dom! sugeriu uma amiga, escrevendo rapidamente uma morada num pedaço de papel. Vai, não percas tempo! Quanto mais cedo, melhor.
Quando finalmente chegou a sua vez, Catarina entrou tímida na pequena casa de campo. Ao ver à sua frente uma idosa franzina, de ar terno, com um lenço branco na cabeça e vestido de padrões alegres, deixou escapar um sorriso nervoso. Catarina nunca tinha recorrido a uma curandeira e imaginava sempre alguém assustador, talvez uma velha vestida de negro com um gato preto ao colo.
Entra, minha filha! Senta-te aqui, pertinho do altar falou a Dona Benedita com voz doce, convidando Catarina a sentar-se junto à imagem de Nossa Senhora.
Eu tenho um problema balbuciou Catarina, deixando-se emocionar.
Já sei, querida. Eu vou ajudar-te no que puder respondeu a velha senhora com tranquilidade.
A jovem sentou-se obedientemente num banco macio, enquanto a curandeira começou a rezar, passando uma vela em círculos ao redor dela. O ritual durou cerca de vinte minutos. No fim, Dona Benedita sentou-se mesmo à frente de Catarina, segurou-lhe nas mãos e olhou-a nos olhos.
Minha filha, tu não conseguirás engravidar enquanto não te libertares do peso da maldição que desde criança te persegue disse, com toda a serenidade.
Que maldição? Quem quiseria amaldiçoar-me? Nunca fiz mal a ninguém contestou Catarina.
Não foste tu, a tua mãe é que cometeu um grande erro e tu é que estás a pagar por isso explicou a curandeira.
Mas isso não é justo! A minha mãe já nem está cá, porque é que tenho de arcar com as consequências? murmurou Catarina, indignada.
São desígnios do universo, minha filha. Não conseguimos fugir a essas leis
Acha que me pode ajudar? perguntou Catarina, agarrando-se à esperança.
Não posso, querida. Não em casos destes. Se fosse uma inveja, um mau-olhado, talvez Mas isso só tu podes resolver. Tens de descobrir a quem é que a tua mãe fez tão mal e procurar o seu perdão. E lembra-te: reza, mas não só por ti, reza também por quem te fez mal.
Obrigada sussurrou Catarina, grata mas confusa.
Ao sair, Catarina telefonou a Miguel.
Miguel? Hoje não volto a casa. Tenho de ir urgente falar com a tia Augusta. Explico-te depois, querido.
Ligou o carro e seguiu para a aldeia da família.
Catarina! Chegas sem avisar? Tivesse eu sabido, tinha aquecido o fogão a lenha! exclamou, ao vê-la, a Tia Augusta.
Vim saber a verdade, tia. Conta-me o que fez a minha mãe. Por que é que eu estou a pagar por pecados antigos?
Que conversa é essa, menina? surpreendeu-se Augusta.
Catarina contou-lhe tudo sobre a consulta com a curandeira.
Nunca imaginei muito bem, ouve então resignou-se a tia.
Augusta narrou-lhe como a mãe dela, Rosalina, era das mais belas raparigas da aldeia. Tinham-lhe sempre muitos pretendentes, mas acabou por se apaixonar por um homem casado, António, e sem qualquer remorso destruiu um lar. Maria, a esposa de António, ficou sozinha, com um bebé de colo.
Maria sofreu horrores. Chegou mesmo a rastejar aos pés de Rosalina, pedindo com lágrimas para lhe devolver o marido. Mas Rosalina escorraçou-a, humilhando-a diante de toda a aldeia.
Em desespero, Maria lançou uma terrível maldição contra Rosalina e todos os filhos que viesse a ter.
E depois, tia? perguntou Catarina, horrorizada.
A tua mãe casou-se mesmo com o António. Tu nasceste, mas como sabes, eles não viveram juntos muito tempo. Um atrás do outro, partiram. Parece bruxedo, mas talvez a maldição de Maria tenha pegado. E agora tu, não consegues ser mãe suspirou Augusta, cruzando os braços.
Essa Maria, ainda vive por cá? Queria pedir-lhe perdão pelos erros da mãe insistiu Catarina.
Não lhe tem corrido nada bem Com o tempo, a Maria acabou por enlouquecer. No início era inofensiva, mas um dia perdeu completamente o juízo. Foi internada e o filho, o Luís, acabou num lar de acolhimento.
Mas o Luís, ele é meu irmão, não é? deduziu Catarina. Só pode pelo pai, somos irmãos.
Sim, tens razão. Mas também ele teve uma vida muito difícil Depois de sair do lar, voltou à aldeia, mas começou a beber e a meter-se em sarilhos. Num ano de inverno perdeu-se no mato e só o encontraram no dia seguinte, quase gelado. Sobreviveu, mas perdeu as pernas. Agora vive numa cadeira de rodas.
Meu Deus Afinal, a mãe não destruiu só uma família, destruiu várias vidas.
Infelizmente, sim concordou Augusta.
Tia, leva-me até ao Luís. Eu tenho de vê-lo decidiu Catarina com firmeza.
Estás doida? Ele bebe muito, pode não reagir bem Vai para casa, esquece isso!
Não, por favor. Se não me levares, pergunto a alguém. Preciso de falar com ele.
Pronto, está bem. Depois não digas que não avisei! anuiu a tia, enfiando o casaco.
Seguiram pelo trilho coberto de neve até à casa de Luís. Ao chegar, Catarina percebeu que chamar aquilo de casa era generosidade: tábuas apodrecidas, o muro caído e nenhuma luz. Uma ténue luz de candeeiro a petróleo brilhava à janela. Catarina bateu delicadamente.
Está aberto! ouviu-se a voz rouca de um homem.
Qualquer coisa eu estou aqui sussurrou Augusta.
Catarina assentiu e entrou. Um cheiro intenso a tabaco barato e vinho pairava no ar. Restos de cigarro e garrafas vazias espalhados por todo o lado. Numa cadeira de rodas, junto à mesa, havia um homem de idade indefinida. Em cima da mesa, aninhado, dormia sossegadamente um gato branco o único ser de aspeto feliz naquele cenário.
Tem um gato muito bonito ali murmurou Catarina, sem saber como começar.
O Branco faz o que quer. Aqui ele é rei respondeu Luís, a voz arrastada. Então? Se vieste das assistentes sociais, poupa-me, não vou para lado nenhum!
Não, venho com outro propósito. Eu sou a Catarina, tua irmã, filha do António respondeu rapidamente.
Olha, que surpresa! A mana apareceu! disse Luís num tom sarcástico. Precisas de alguma coisa? Veio cá atrás da herança? Só tenho esta casa podre, e nem sequer é minha!
Luís, vim pedir-te perdão. Perguntar como te posso ajudar.
Luís soltou uma gargalhada vazia, fixando nela um olhar duro onde se via dor, desalento e resignação. Quanto mais Catarina olhava, mais parecia encontrar nele traços do pai.
Tens aí uns cem euros? perguntou, de repente.
Catarina tirou tranquilamente cinco notas de cem euros e pousou-as na mesa. Obrigado! Podes ir, estás perdoada! Se precisares de pedir perdão outra vez, volta! ironizou ele.
Precisas de médico? Algum remédio? ainda tentou perguntar Catarina.
Agora não. Talvez mais tarde. Vai-te embora, quero dormir!
Catarina saiu, voltando para casa da tia sem proferir palavra, as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto nunca imaginou o irmão assim, tão resignado, tão perdido.
Então, conseguiram conversar? quis saber Augusta.
Sim respondeu, seca. Obrigada por me levares. Agora vou para Lisboa.
Fica cá até amanhã, já é noite
Tenho de ir, tia mentiu Catarina. Precisava mesmo era de ficar sozinha. Demasiada informação para digerir num só dia.
Durante a semana seguinte andou cabisbaixa, só pensava no irmão, a consciência pesada por tudo o que ouvira. Afinal, era a única família que Luís tinha. Indecisa, decidiu ir à igreja. Após a missa, ajoelhou-se e rezou com o coração aberto, pelas pessoas que lhe tinham causado dor, conforme ensinara Dona Benedita.
Estás com o coração pesado, filha? interpelou um padre idoso, vendo que já toda a gente se fora embora.
Desculpe, já ia sair respondeu Catarina.
Talvez queiras confessar-te, libertar a alma.
Catarina desabou em lágrimas e contou-lhe tudo.
Só te digo isto, minha filha disse o padre, pensativo. Não devias ter ido à curandeira. Ela errou: ninguém herda pecados dos pais. O que ela disse sobre a oração está certo. Reza sempre. Por ti, e por aqueles que te magoaram.
E quanto ao meu irmão? Quero ajudá-lo, tirá-lo dali, mas o Miguel pode não aceitar
Segue o teu coração e a tua consciência!
No dia seguinte, Catarina foi novamente ao encontro de Luís, desta vez determinada.
Vieste porquê? Trazer dinheiro? perguntou ele, de mau humor.
Estava sóbrio e parecia mais magoado.
Não. Agora vais comigo. Não aceito desculpas! Sou tua irmã, não suporto ver-te assim. Preciso de ti, e tu de mim. Não tens mais ninguém!
Ir contigo para onde? ficou atónito o irmão.
Primeiro vamos ao hospital, depois vens para minha casa. Tenho espaço para todos. Se não gostares da tua nova vida, levo-te de volta sem hesitar.
Só aceito numa condição! declarou, apontando para o gato branco. O Branco vem comigo!
Ótimo! Sempre quis um gato sorriu Catarina.
***
Três meses depois, Luís estava completamente adaptado à nova vida. Surpreendentemente, era boa pessoa e animado. Dedicou-se à informática e decidiu tirar um curso de programador.
Amanhã chegam as próteses importadas. Mais uns meses e voltas a andar! disse Miguel, com um sorriso enquanto lhe batia no ombro.
Obrigado! Nunca pensei que isso fosse possível outra vez! emocionou-se Luís.
Foi tudo graças à Catarina. Ficou radiante por encontrar o irmão reconheceu Miguel.
Seis meses depois, Miguel e Luís esperavam emocionados à janela do hospital. Do outro lado, Catarina mostrava aos dois os gémeos recém-nascidos.
Isto vai animar cá por casa! ria Miguel.
E então, pronto para seres tio a dobrar? brincou Luís, pegando no gato Branco.
Sempre pronto! respondeu Luís entre risos. Em família, juntos, vamos conseguir tudo!







