Aparências iludem: Como um gestor arrogante aprendeu a maior lição da sua vida
Olha, no mundo dos fatos caros e dos escritórios chiques em Lisboa, é fácil esquecermo-nos do que significa ser realmente humano. Sabes, outro dia vivi uma história que dá que pensar a qualquer pessoa: será que devemos julgar alguém só pela roupa que veste?
**Cena no escritório: conflito de valores**
O corredor do escritório, todo impecável, a brilhar, cheirava a limpeza e sucesso. Um gestor, daqueles muito aprumados, gravata bem no sítio e ar de quem manda, empurrava para fora um senhor de idade. O senhor, coitado, destoava ali: macacão velho de mecânico, mãos calejadas e sujas de óleo, ténis a cheirar a trabalho duro.
**”Entregas é para fazeres pela cave, sai daqui antes que o patrão te veja!”**, murmurou o gestor, com um olhar de nojo, enquanto afastava o velho.
O homem apenas abanou um pouco, mas nem se irritou. Nos olhos dele só vi tristeza e carinho. Levantou um caderno de capa gasta, cheio de anotações.
**”Por favor, o meu rapaz esqueceu-se disto para uma reunião importante”**, disse baixinho, apenas com esperança de ser ouvido.
Mas o gestor nem queria saber. Para ele, aquele homem não passava de “lixo” a manchar a reputação da empresa.
**A grande reviravolta**
Nesse instante, abriram-se as portas altas de mogno. Saiu o Alexandre o diretor-geral, aquele que todos respeitam e até um bocadinho temem. O gestor mudou logo a cara de desprezo para um sorriso forçado, apontando para o senhor:
**”Sr. Alexandre! Olhe, já trato de pôr este pedinte fora daqui!”**
O Alexandre parou. Olhou para o caderno velho, depois para o homem de macacão. Ignorou o gestor, aproximou-se e pegou no caderno com cuidado, quase em jeito de reverência.
**”Pai…?”**, quase que nem se ouviu, tão baixo falou.
O rosto do gestor ficou logo sem cor, o sorriso apagou-se-lhe dos lábios, e até tremia das pernas. O Alexandre virou-se, com um olhar tão frio que até doeu ver.
A história não acaba aí.
Fez-se um silêncio que era quase palpável. O gestor arriscou umas palavras, mas a voz não lhe saía:
Sr. Alexandre, eu… eu não sabia… Pensei que era só mais um sem-abrigo…
O Alexandre chegou-se ainda mais perto. Falou baixo, mas cada palavra pesava toneladas:
“Esse homem que tu agora chamaste de sem-abrigo trabalhou 16 horas por dia numa oficina só para eu poder estudar e chegar aqui. Passava noites em claro e gastou a saúde para hoje eu estar de fato neste escritório. As mãos dele têm óleo porque ele trabalha, ganha a vida honestamente. Tu, pelo contrário, o único esforço que fizeste hoje foi tentar humilhar quem é mais fraco.”
O gestor só baixou a cabeça, incapaz de aguentar aquele olhar preso em si.
Vai, arruma as tuas coisas disse o Alexandre. Não precisamos aqui de gente que vê valor pelo polimento dos sapatos e não pela generosidade do coração. Estás despedido.
O Alexandre abraçou o pai, sem se importar com as nódoas de óleo no casaco.
Anda daí, pai. A reunião vai começar. As tuas anotações são mesmo aquilo que me faltava para tomar a decisão certa.
Entraram na sala de reuniões e deixaram para trás o gestor, perdido e rodeado de luxo, esse luxo que, sem humanidade, não vale nem um tostão.
**A moral é simples:** Nunca olhes ninguém de cima, a não ser que seja para o ajudar a levantar-se. O que tens, a posição que ocupas, é só aparência; o verdadeiro valor mora cá dentro.







