Querido diário,
Hoje fiquei a pensar em como tudo mudou cá em casa. Lembro-me como era antes: o Lourenço, sempre distraído, desenhava o Homem-Aranha no caderno em vez de resolver os problemas de matemática, e nós, pais, olhávamos uns para os outros com aquele medo silencioso de que, naquela casa, um futuro tranquilo e próspero estaria reservado só para o gato Tobias.
Nem uma dúzia de explicadores conseguiu fazer o Lourenço ganhar gosto pelas ciências exatas. Com cada novo professor, o rapaz afundava-se ainda mais em pensamentos filosóficos. Para o Lourenço, o mundo era uma tolice agitada, e a verdadeira felicidade estava em preguiçar, comer éclairs de chocolate e ver desenhos animados no telemóvel.
Já estávamos mesmo por baixo, quase a perder a esperança, quando o Luís o meu marido viu um anúncio estranho na internet: Vendo barra de pesos e ensino a gostar de disciplinas escolares e desportivas a todos: filhos, sobrinhos, vizinhos. Método inovador. Trabalho com matemática, história, português, inglês, bíceps, tríceps, pernas, ombros, literatura, peitoral. Afonso. A nossa preocupação parental foi logo ultrapassada pelo desespero. O Luís ligou para o número, e, do outro lado, respondeu uma voz pesada e ofegante, misturada ao som metálico de pesos a bater.
Estou. Ao fundo, ouvia-se o bater rítmico de ferro.
Bom dia, estou a ligar pelo anúncio.
A barra já foi, respondeu o Afonso, quase a desligar.
Não, não, era para ensinar o meu filho, matemática, português, literatura…
Idade, peso, habilidades do aluno.
A objetividade do Afonso era quase assustadora. O som dos pesos foi substituído pelo som da corda de saltar. O Luís até achou que sentia cheiro a suor vindo do auscultador.
Nove anos, vinte e cinco quilos, quase a fazer contas de somar em coluna e…
Quantas flexões faz?
Desculpe?
Flexões e elevações na barra, quantas faz?
Não sei, talvez cinco.
Sabe distinguir um prefixo de um sufixo?
Eu… tenho de perguntar à mãe dele.
Que instrumentos têm em casa?
Instrumentos?
Compasso, transferidor, elástico, pesos?
Só temos uma régua de madeira.
Entendido. Envie-me a morada, chego dentro de uma hora.
E gritou ainda: “Mais largo, costas direitas!” esclarecendo depois: Não é consigo, estou numa aula de história.
O Luís ficou ainda um bocado de pernas afastadas e costas direitas na entrada antes de vir até ao Lourenço. Ao contar-lhe que ia ter outro explicador, o Lourenço respondeu como sempre: aumentou o volume da televisão e pediu chá com torradas. Tão indiferente à nossa ansiedade pedagógica!
Tocou à porta. Espreitei pelo óculo e vi um peito que me fez corar de inveja. Uma montanha de músculos, com cheiro a champô de côco, vestida de t-shirt justa: Afonso.
Boa tarde, disse, entrando no hall. Onde está o vosso campeão?
O-o-ouvi, gaguejei para o Luís. Achas que é aquele dono do Opel a quem prometeste ajustar a visão num papelinho
Desculpe, foi confusão, eu era oftalmologista… Em tempos, ouvi da sala.
Eu sou Afonso Duarte, explicador atualmente.
Ah, é o senhor! O Luís saiu detrás do aparador. Desculpe, não lhe tínhamos reconhecido. Deixe-me ajudar com a mala.
Entregou-lhe uma mala de hóquei quando a largou, caiu com um baque no chão, quase esmagando o Luís. O gato Tobias disparou da sala, voando por cima de portas.
Mas o que traz aí de tão pesado? bufava o Luís, arrastando a mala até ao quarto do Lourenço.
Material escolar e de aplicação física, respondeu tranquilo.
Quando abriu a porta, o Lourenço continuava colado ao telemóvel. A entrada do Afonso foi tão vigorosa que perturbou a rotina dele.
Tem berbequim?
Para quê? perguntou o Luís.
Para exercícios de português, respondeu Afonso, retirando da mala uma barra de puxar, um saco de boxe, uma corda.
Vou perguntar ao vizinho, disse o Luís exausto, suspirando. Afonso, este é o Lourenço. Levantou o filho do sofá, que mal lhe dava pelo joelho. Filho, este é o explicador.
Como é que ganhou esses músculos todos? perguntou o Lourenço logo, em vez de um simples “olá”.
A fazer contas em coluna, respondeu o Afonso, empilhando discos de halteres do saco.
Pronto, então fiquem bem, disse o Luís, fugindo dali.
É mais forte que o Homem-Aranha?
O Homem-Aranha faz duzentos quilos no supino?
O Lourenço ficou sem perceber, mas acho que percebeu que não.
Eu não gosto de estudar, decidiu logo o rapaz.
Estudar é para quem não tem ambição. Nós vamos treinar.
E sentou-se no chão, começando a fazer abdominais. O Lourenço ficou meio de lado, a observar, à espera que aquele explicador se cansasse. Mas ele só mudava o ritmo, metia mais peso, fazia flexões, elásticos… Quando acabou, virou-se para o Lourenço:
Então, percebeste tudo? Queres ser forte? Ou preferes, como o teu super-herói, ficar sempre preso entre teias?
O Lourenço abanou a cabeça.
Boa! Três séries de quarenta e cinco menos trinta e nove repetições em cada exercício. Começa nos abdominais.
Isso dá quanto?
Diz-me tu.
Naquele momento, o Luís entrou de rompante só tinha encontrado uma furadeira.
Uso esta? Mas parou de repente, ao ver o filho a fazer flexões sozinho. Volto mais tarde, sussurrou, saindo devagar.
***
No dia seguinte, às cinco e meia da manhã, tocou o telefone. O Luís, cheio de sono, foi à entrada preparado para responder torto a quem quer que fosse, mas ao ver a cabeça careca do Afonso no vão da porta, sentiu-se impotente. Parecia que o homem tinha ficado ainda maior durante a noite.
Hoje é história e geografia, roupa de treino: ténis, t-shirt, calções. Corrida longa pela cidade, com componente histórica.
O miúdo está só no terceiro ano, ainda não tem essas disciplinas, bocejou o Luís.
Entram poemas no programa. Vem connosco?
Não, obrigado, estudei bem.
Em que ano acabaram os mouros a sul do Tejo?
Tenho de acordar o miúdo, desviou logo o Luís.
Quando voltou, murmurou:
Ele não acorda…
Vistam-no, acorda ao caminho, sugeriu Afonso.
***
Três vezes por semana, o Afonso batia à porta, e começavam os treinos: segunda peito-tríceps-ombros-matemática-português; quarta costas-bíceps-literatura-inglês; sexta pernas-geografia-história.
Três semanas passaram, e um dia o Lourenço apareceu na cozinha sem t-shirt, o Luís, ao ver os abdominais do filho, tapou a barriga com o bule. O pequeno estava cheio de força, postura impecável, e já nos criticava pelo sedentarismo.
Luís, não gosto nada disto, disse eu ao jantar. Sabes o que ele quer de presente?
Sei: a PlayStation. Já me pediu.
Não, quer uma barra sueca para treinar e um liquidificador para batidos! Acho que este Afonso nem é explicador, é só um fanático do ginásio, e vai prejudicar o nosso filho!
Mas acho que ele até estuda matemática…
Já viste um manual na mão deles?
A tabela das calorias.
É isso mesmo. Sabes bem como são os vaidosos dos ginásios…
Quê, ignorantes?
Exatamente! E o nosso filho vai pelo mesmo caminho.
Mas antes burro e forte do que frágil e sabichão?
Quero um filho normal! Isto tem de parar já!
Tocou o telefone.
É a professora dele.
Sim? O quê que ele fez? Sim, já vou aí.
E então?
O Lourenço envolveu-se numa zaragata. Eu avisei-te! Isto não vai correr bem.
Eu vou contigo.
***
Fomos de táxi até à escola. Chamaram-nos logo ao gabinete da diretora.
Olha o explicador que arranjaste! Terceiro ano e já vai ao gabinete da diretora…
Estava o gabinete a abarrotar: pais, professores, psicóloga, barulho tal que até o piano ao lado ficou desafinado.
Aqui não é ginásio, é escola, vociferou uma mãe.
Mas o que aconteceu afinal?
A professora explicou:
O Lourenço obrigou os colegas a fazerem “barra fixa” nos intervalos e a fazerem contas com divisões de fração.
O quê?
Iam-se revezando na barra, aumentando o esforço a cada ronda, esclareceu Lourenço.
Quieto! Os outros não queriam. E o Lourenço ameaçava-os.
Foram eles que começaram. Gozaram comigo, e eu corrigi como se diz “acabrunhado” e “presunçoso”. E partiram para me bater. Como diz o Afonso Duarte, “quem tem energia, faz mais elevações” e “melhor dividir frações do que brigar com primitivos”, disse de cabeça baixa.
Ele disse que, se fôssemos para cima dele outra vez, resolvia tudo com raízes quadradas! choramingou um dos colegas.
Um neandertal destes não deve conviver com os nossos filhos! gritou uma mãe.
Só um momento, interrompeu o Luís. Não houve luta nenhuma?
Os pais dos colegas abalaram a cabeça.
Então, o meu filho só respondeu à agressão com matemática e desporto?
E ainda obrigou a correr à volta do campo e a declamar Fernando Pessoa!
Vês? E tu a dizer que ele ficava burro! disse o Luís, e eu só consegui acenar.
De repente, a diretora dirigiu-se a nós:
Quero pedir desculpa. O vosso filho devia ser motivo de orgulho.
Que peça desculpa é ele! barafustou um pai.
Não, eu a vocês. Mas, sabendo o que sei agora, o Lourenço vai ser transferido.
Isso, bem feito! exclamaram outros.
Transfiro-o para o quarto ano. Já está além do programa, anunciou a diretora.
A sala ficou num silêncio estranho. Sentia-se o despeito dos outros pais a crescer. Saíram devagar, sem nos olhar.
Afonso Duarte, aqui fala o pai do Lourenço Olhe, vamos para o quarto ano. Vêm aí novas disciplinas.
***
Uma semana depois, o Lourenço já estava no quarto ano. Passadas duas, foi competir no torneio regional de crossfit e começou a preparar-se para a Olimpíada de Literatura Júnior. Um mês mais tarde, um dos pais dos antigos colegas ligou ao Luís para pedir o contacto do Afonso.
Devagarinho, criou-se um grupo misto de estudo e desporto e não se excluía ninguém por fracasso no desporto, mas sim por más notas no caderno.
Assim se vai transformando a nossa vida cá em casa, entre pesos, compasso, poesia e suplementos, e nunca pensei que um explicador assim mudasse tudo.







