Miguel sentou-se num banco da cozinha e ficou a observar o pó que dançava no feixe dourado do sol poente. No apartamento 2C da Rua Liberdade, tudo estava demasiado limpo. Assustadoramente limpo.
Três meses antes, Vera tinha-se ido embora. Levou as malas, o vaso da avó e, mais importante ainda, o Tomás de dez anos e a Inês, de seis. Ao início, Miguel sentiu que era finalmente livre. Já não era obrigado a ouvir desenhos animados, tropeçar em Legos nem a comer rissóis escondido.
Mas ao fim de uma semana, aquele sentimento de liberdade transformou-se num vazio gigantesco. Percebeu, de repente, que, ao longo dos anos casado, se tinha desleixado com tudo o que era da casa. Nem já sabia o que era necessário saber e fazer para manter tudo a funcionar.
Mas o que mais o assustava era esperar pelas sextas-feiras.
Papá, já chegámos! A Inês entrou a correr, trazendo no cabelo o cheiro da rua e do champô de morango.
Miguel abraçou-a desajeitadamente. O Tomás entrou atrás, calado, de headphones nos ouvidos, lançando ao pai um olhar fugaz e avaliador.
Olá, malta. Entrem que já estou pronto para vos receber.
Miguel decidiu que, se fosse perfeito, talvez eles quisessem ficar para sempre. Comprou a frigideira mais cara do Continente e imprimiu uma receita da net.
O que é o pequeno-almoço? resmungou o Tomás no sábado de manhã, entrando lentamente na cozinha.
Panquecas! respondeu Miguel todo entusiasmado, tentando vencer os grumos na massa Com doce de framboesa, como gostam!
Como as da mãe? perguntou a Inês cheia de esperança, trepando para a cadeira.
Miguel hesitou.
Melhores do que as da mãe. Vão ver.
Meia hora depois, a cozinha parecia um campo de batalha. A farinha cobria-lhe as sobrancelhas, o chão e até a ventoinha do teto. A primeira panqueca virou-se num monte amorfo, a segunda queimou-se, e a terceira tinha um ar estranho.
Miguel irritou-se. Odiava aquela frigideira, o fogão e a sua própria falta de jeito. Queria gritar: Mas porque é que isto é tão difícil?!, mas viu ali dois rostos à espera.
Já está quase, fungou, limpando o suor.
Finalmente, lá surgiu uma pilha dourada. Não estavam perfeitas, algumas queimadas nas bordas, mas cheiravam deliciosamente. Miguel pôs uma taça com doce em cima da mesa e sentou-se à espera do veredito.
A Inês provou e fechou os olhos.
Estão boas, papá. Muito.
O Tomás fez que sim com a cabeça, sem tirar os headphones, mas comeu logo três. Miguel soltou um suspiro de alívio. Sentiu, lá no fundo, que tinha conseguido. Que algo se reconstruía, panqueca a panqueca.
Os fins de tarde de domingo eram sempre a parte pior. Eram horas de mudança do turno, quando a alegria de estarem juntos era substituída pelo silêncio da despedida.
Estavam sentados na sala. Miguel tinha comprado uma PlayStation nova, a que o Tomás sonhava há meses.
Tomás, já venceste o boss daquele nível? aproximou-se do filho.
Já, respondeu seco, os olhos presos ao ecrã. Obrigado, papá. Está brutal.
Inês, queres que te leia uma história? perguntou Miguel, pegando num livro colorido.
Papá, a mãe vem daqui a quanto tempo? Inês olhava para os ténis junto à porta, ignorando o livro.
Daqui a uma hora, minha querida. Mas tu não gostas de estar aqui? Vê só, temos PlayStation, panquecas, gelados na arca… Se ficarem mais um dia, amanhã podemos ir ao Jardim Zoológico…
De repente, o Tomás pousou o comando. Ficou tudo em silêncio.
Papá, aqui há… coisas boas. E a consola é fixe. E nós vemos que tu te esforças.
Miguel sorriu, mas sentiu o coração apertar.
Então gostam de estar na casa do pai, não é?
A mais nova encostou-se à cara por fazer do pai.
Tu cozinhas bem, papá. Mas com a mãe é casa. É quentinho.
Essas palavras doeram mais do que o anúncio do divórcio. Miguel olhou em volta. Mobiliário de revista, eletrodomésticos topo de gama, paredes acabadas de pintar. Perfeito. Para mostrar, talvez, mas morto.
O que é que queres dizer com casa, minha esquilinha? Esta é a vossa casa. Os vossos quartos, os vossos bonecos…
O Tomás levantou os olhos, sérios e maduros.
Papá, casa é quando tu sabes de quem são as meias espalhadas. Quando os meus desenhos antigos estão colados no frigorífico, aqueles que tu nunca reparaste. Lembras-te daquela vez em que trouxe o diploma de robótica para casa?
Miguel calou-se. Não se lembrava. Três anos atrás, estava sempre em viagem de trabalho. Ou em reuniões. Ou apenas… cansado.
A mãe lembra-se que sou alérgico a algumas marcas de detergente, continuou o Tomás. E ontem tu perguntaste em que ano é que eu andava. És quase como um convidado que nos quer conquistar. Aprendeste receitas de panquecas num instante, mas não nos aprendeste a nós em dez anos.
Miguel tapou a cara com as mãos. Tinha sido verdade. Durante anos, construiu a base da família: dinheiro, férias, coisas. Mas ele não estava lá. Era uma presença fantasma, o multibanco, o homem que só aparece tarde.
Não perdeu a Vera. Perdeu-se a ele mesmo, ao homem que pensava ser quando casou. Achava que a família era garantida, mas afinal é que se constrói todos os dias, com esforço e atenção.
Tocaram à campainha. Vera tinha chegado para os buscar.
Miguel levantou-se, sentindo-se velho. Ajudou a Inês a vestir o casaco, passou a mochila ao Tomás.
Obrigada pelas panquecas, papá, a Inês deu-lhe um beijo no nariz.
Até logo, papá. A consola é mesmo boa, murmurou o Tomás, parando um segundo com a mão no ombro do pai.
A Vera, na porta, olhou-o com uma compaixão tranquila. Reparou na farinha na t-shirt, nos olhos cansados.
Estás bem, Miguel? perguntou baixinho.
Estou, fez que sim com a cabeça, engolindo em seco. Ouve, Vera… A Inês disse que aqui não é casa. E ela tem razão.
A Vera esperou, deixando-o continuar.
Eu… gostava de vir estar convosco, se deixares. Não só para buscar os miúdos aos fins de semana, como se isto fosse um museu. Quero ajudar o Tomás no projeto do clube. Sério. E a Inês vai fazer teatro na quinta-feira… posso ir? Posso mesmo?
A Vera sorriu, fraca mas genuína.
Claro que sim, Miguel. Vamos gostar.
A porta fechou-se. Miguel ficou sozinho. Mas desta vez não fugiu para o sofá.
Foi até ao frigorífico. Estava imaculado nada de ímanes, letras, rabiscos. Abriu uma pasta na gaveta do corredor, procurou até encontrar um desenho velho do Tomás um carro torto, três bonecos de palitos. Prendeu-o no centro do frigorífico, com um íman azul.
Depois, foi ao telemóvel e abriu o chat do Tomás.
Vi o teu horário de robótica. Quarta à tarde estou livre. Vou-te buscar, e vamos àquela oficina de robôs que disseste? Sem panquecas, sem consola. Só nós para conversarmos.
A resposta chegou em segundos: Ok, pai. Espero por ti.
Miguel olhou para as mãos, para o reflexo no vidro do micro-ondas. Percebeu, por fim, que uma casa não se constrói ao fim de semana. Mas naquele momento, pusera a primeira pedra a sério.
Foi à cozinha lavar a loiça. Não por obrigação, mas porque na sua casa na verdadeira, que estava finalmente a nascer não havia espaço para a sujidade do passado. Descobriu, enfim, que para os filhos quererem voltar, não é preciso fazer como a mãe, é só preciso ser pai. Todos os dias. Mesmo sem receita.







