Leonor Ferreira cresceu sem pai. Na verdade, pai tinha, mas quando Leonor fez quatro anos, ele perdeu a vida. Domingos Ferreira, bombeiro-sapador especializado em resgates, morreu ao tentar salvar vítimas de um tremor de terra na Indonésia. Ao seu lado, morreu também Faísca, a pastor alemão que ele criara desde cachorro.
A mãe de Leonor, Beatriz, ficou viúva jovem. Nunca voltou a casar, dedicando-se inteiramente à filha.
Aos 14 anos, Leonor inscreveu-se na secção juvenil do clube canino municipal em Lisboa. Beatriz aprovou a decisão, mas no fundo receava que a filha seguisse o mesmo caminho arriscado do pai. Aos 16, Leonor trouxe para casa uma cadela pastor alemão, ainda sem nome.
Certo dia, ao chegar a casa, Leonor ouviu a mãe falar com a cadela:
Ai, minha traquina, sempre com as tuas invenções, que reguila!
Leonor sorriu, lembrando-se de quando, em criança, ouvia essas mesmas palavras ao aparecer em casa suja ou depois de alguma travessura. Entrou na sala a rir e disse:
Já está, mãe. Vais chamar-se Reguila.
Durante dois anos, Reguila tornou-se uma cadela impressionante: forte, focada e extremamente obediente. Leonor enchia-se de orgulho ao vê-la evoluir.
Quando chegou a altura de ir à tropa, Leonor pediu para alistar-se com Reguila. Escondido da mãe, preparava-a para o serviço militar, esperando passar os testes já no exército. Acabaram por ser destacadas para Valença, na fronteira norte. Ali, rapidamente lhes ficou o nome: As Reguilas. Sempre que iam para ronda, os colegas comentavam: As Reguilas vão para a patrulha!
Tudo corria dentro da normalidade até àquela noite fatídica, durante um patrulhamento. Um encontro com contrabandistas terminou em tiroteio um colega de Leonor ficou ferido, outro morreu, e Leonor desapareceu. Reguila, também baleada, sobreviveu e foi recolhida pela guarda. Procurou-se a jovem exaustivamente durante um mês sem êxito.
Um dia, um oficial do Exército veio pessoalmente até Beatriz. Trouxe-lhe Reguila, já recuperada, embora coxeando de uma pata. Enquanto o militar explicava, com esperança forçada, que as buscas iriam continuar e que milagres acontecem, Beatriz acariciava a cabeça da cadela, sentindo-lhe o calor. Reguila, silenciosa, encostou-se-lhe às pernas, deitando o focinho no colo.
Ai, minha traquina… sussurrou Beatriz, perdida em emoção.
Desde então, todos os dias, vizinhos viam Beatriz, mulher já a meio da vida, a passear devagar pelo Jardim da Estrela, segurando na trela uma cadela que coxeava. Transmitiam dignidade e uma paz invulgar quem passava percebia de imediato que entre elas havia algo maior que a relação entre dona e animal.
Beatriz falava calmamente, conversando com Reguila como se fosse uma pessoa.
Amanhã é domingo, Reguila. Vamos à Pastelaria comprar bolos de arroz para o lanche. Se o tempo estiver bom, damos um salto ao Tejo, apanhas sol à beira-rio.
Passou um ano. Um dia, homens do Exército vieram a casa de Beatriz, trazendo mantimentos e ração para a cadela. Disseram que, se em mais um ano não houvesse notícias, Leonor seria declarada falecida. Beatriz ouviu tudo em silêncio, agradeceu e, ao fechar a porta, murmurou para Reguila:
Não ligues, minha menina. A Leonor está viva, eu sinto cá dentro.
Uma tarde, bateram à porta. Era um jovem de ar simpático, desconhecido. Reguila não ladrou, antes abanou o rabo ao vê-lo.
Boa tarde, Dona Beatriz. O meu nome é Tiago Monteiro, servi com a vossa filha logo corrigiu ao notar a surpresa , olá, Reguila, ainda não te esqueceste, traquina.
Conversaram noite adentro. Tiago partilhou histórias do quartel; Beatriz serviu chá e bolinhos, mostrou fotografias de Leonor em bebé, recordou episódios engraçados.
De súbito, Tiago calou-se, o rosto sério e hesitante.
Dona Beatriz, espero que não me julgue maluco murmurou.
Ela sentiu um aperto.
Diz, Tiago
A Leonor pediu para lhe dizer que vai voltar para casa.
A mãe abafou um soluço com a mão, as lágrimas silenciosas, enquanto Reguila saltava do tapete para encostar o focinho à perna do rapaz, largando um latido breve.
Não se assuste, Dona Beatriz. Eu eu não vi a Leonor, mas ela apareceu-me em sonhos há duas semanas e pediu-me o recado.
Beatriz chorou, Reguila lambeu-lhe a mão, Tiago ficou em silêncio, sentindo o peso do momento e da esperança. Não podia garantir milagres, mas cumprir aquele pedido era mandado do coração.
Mais um ano se passou. E continuava o ritual: mulher e cadela, de passos cadenciados, pelo mesmo jardim.
Era outono dourado. Raios de sol filtravam-se nas árvores quase despidas, embaralhando-se nos rostos dos que passavam. Chegaram à ponta da alameda e voltaram. Do outro lado, uma figura alta avançava com dificuldade, coxeando. Reguila ficou alerta, baixou a cabeça e choramingou. Beatriz largou a trela. A cadela esqueceu a dor e correu, livre, ao encontro de quem tanto esperou.
Beatriz ficou parada, os braços inertes, lágrimas a correr-lhe pelo rosto. Ao longe, fundidos num abraço, estavam Reguila e… a sua Leonor.







