Carminho nunca suportou os dias em que os potenciais pais adotivos vinham ao orfanato de Lisboa. Durante os sete anos que ali viveu, nunca, nem uma só vez, alguém a escolheu.
Quando era pequena, esperava por aqueles dias com o coração apertado. Observava, fascinada, as senhoras elegantes e os senhores bem vestidos, que pareciam saídos de um conto de fadas, prontos para a levar para um palácio encantado. Sonhava com uma nova mãe que lhe daria um beijo de boa noite, um novo pai que a levaria aos ombros ao Jardim da Estrela e até um quarto só dela. E, quem sabe, nunca mais teria de aturar o irritante do Tomé, que estava sempre a puxar-lhe as tranças e a chamá-la de Andorinha.
Carminho nem sabia o que queria dizer aquela palavra, mas soava-lhe a insulto. E Tomé não se calava:
Andorinha! Andorinha! repetia, gozando.
Entrou para o orfanato com cinco anos, depois de perder os pais num acidente de viação. Muito tempo passou sem perceber porque é que a mãe e o pai deixaram de aparecer e por que razão a tinham deixado ali. Com o tempo, aceitou que eles nunca voltariam, e as recordações dos seus rostos foram-se diluindo também as vozes, os cheiros, a casa onde viveram juntos, tudo se perdeu nos recantos da memória.
Desejava, com toda a alma, ser escolhida um dia. Mas, à medida que crescia, era clara a evidência: nunca seria escolhida. Sentia-se feia, e no orfanato só as meninas bonitas, de laços perfeitos e sorrisos doces, ganhavam o coração das famílias.
Tomé não desistia de a arreliar, mas agora Carminho já sabia que a andorinha era um passarinho pequeno e ágil.
Nesse dia, de novo, o orfanato encheu-se de esperanças renovadas. Todas as meninas foram arranjadas, com os cabelos trançados e fitas coloridas. Carminho, num impulso furioso, cortou o cabelo rente, igual aos rapazes. Já não queria ser escolhida por ninguém; prometeu a si mesma que, dali em diante, seria ela a escolher tudo e todos na sua vida.
As educadoras ficaram boquiabertas ao vê-la, e Tomé, claro, não perdeu a oportunidade:
Andorinha! gritou-lhe.
Fez doze anos. Tomé era três anos mais velho. Nesse dia, ninguém a escolheu. Com o cabelo tosco e os olhos a faiscar, assustava mais do que inspirava ternura.
Passaram-se mais três anos, e Tomé, o rival de sempre, deixou finalmente o orfanato. Despediu-se de todos e, já na porta, aproximou-se de Carminho:
Então, até logo, Andorinha?
Até logo respondeu ela, fingindo indiferença.
Aguenta firme, falta pouco. Três anos e venho buscar-te para ficares comigo! disse-lhe com convicção.
Eu?! Isso querias tu! Quem disse que te escolho? Tótó! atirou ela, altiva.
Tomé fitou-a longamente, com um olhar estranho, antes de sair sem olhar para trás.
Quando Carminho fechou a porta do orfanato atrás de si, sentiu o peso da liberdade e da idade adulta nos ombros. Transformara-se de patinho feio em cisne: longos cabelos castanhos, olhos verdes imensos, corpo esguio. Caminhou na direção do antigo apartamento dos pais. E, de repente, ouviu:
Olá, Andorinha!
Virando-se, viu Tomé parado à sua frente.
O que fazes aqui? perguntou ela, desconfiada.
Prometi que vinha buscar-te. E aqui estou eu disse, aproximando-se dela.
Pois eu disse-te que agora sou eu que escolho! respondeu, desafiadora, levantando o queixo para fitar Tomé, que estava muito mais alto e forte.
Então escolhe-me, Carminho pediu ele, sinceramente.
Vou pensar nisso murmurou ela, caminhando para a porta do prédio.
Tomé acompanhou-a até ao átrio. Ficou lá em baixo, à espera, até a luz do quarto dela se apagar. Passou-se o verão quente, chegou o outono chuvoso, e o inverno trouxe o frio cortante. Mas Tomé continuava a aparecer, sentava-se no banco do jardim em frente ao prédio e ali ficava, noite após noite, enquanto Carminho não apagava a luz.
Certa noite, com o frio a entrar-lhe nos ossos, Carminho aproximou-se dele:
Não te cansas disto? Não tens frio?
Aguento tudo. Só quero que me escolhas, por favor pediu ele, olhando-a com uma ternura funda.
Atarantada, ela fugiu escadas acima, espreitando atrás da cortina enquanto Tomé continuava, teimosamente, a olhar para as janelas dela.
Na véspera de Ano Novo, Carminho apressava-se para casa depois do trabalho. Tinha uma mesa de Natal para preparar, um vestido novo para vestir, a passagem de ano em Lisboa aguardava ansiosa. Mas o banco do jardim estava vazio. O coração gelou-lhe de susto. Onde estaria Tomé?
Uma hora depois, com tudo pronto e um copo de espumante na mão, aproximou-se da janela e ele continuava desaparecido. Uma angústia pesada apertou-lhe o peito. E se lhe tivesse acontecido algo? Insultou-se em voz alta que tola fora, nunca pensara em pedir-lhe um contacto.
Nesse instante, uma labareda iluminou o exterior. Fogos-de-artifício?, pensou. Foi espreitar e, no meio da neve que cobria o jardim, enormes letras de chamas brilhavam:
ESCOLHE-ME, CARMINHO!!!
Tomé, sentado no banco, sorria para ela e acenava-lhe com a mão.







