O meu nome é Amália Simões.
Para o meu marido, Ricardo Simões, eu sempre fui apenas uma mulher comum. Discreta, de confiança, sem grandes extravagâncias. Daquelas esposas que acabam por ser vistas como garantidas e vão-se tornando invisíveis.
O que ele nunca soube: muito antes de casarmos, já eu era a única proprietária da Quinta das Águas Azuis, um complexo hoteleiro de luxo na Costa da Caparica, a poucos quilómetros de Lisboa. Uma herança da minha avó, que escolhi sempre manter em segredo.
Só queria ser amada por quem sou, e não pelo que possuo.
A realidade, porém, acordou-me de forma brutal.
Numa sexta-feira de manhã, Ricardo disse-me que tinha uma deslocação de trabalho.
Um seminário com a direção, nada de interessante.
Na verdade, ele tinha reservado um fim de semana de luxo com a amante, Mariana Lobo no meu próprio hotel.
Eis o sarcasmo cruel: nesse dia, calhou eu mesma estar na propriedade, numa visita inesperada. Gosto de passar de surpresa pelo local, vestida simples uns calções de linho, t-shirt clara, sandálias rasas.
Foi aí que os vi.
Ricardo e Mariana de mãos dadas, relaxados e demasiado próximos.
Mariana usava um fato de banho caro, uns enormes óculos de sol e aquela ousadia de quem acha que o mundo é seu.
Este espaço é maravilhoso, sussurrou. Tens a certeza que podemos pagar isto?
Ricardo sorriu.
Claro, utilizei o cartão da Amália. Ela nunca confirma nada. Confiar demais é o problema dela.
Um calafrio apoderou-se de mim.
Ele financiava a amante descaradamente com o meu próprio cartão, no meu hotel.
Foram até à receção. Ao passarem por mim junto aos jardins, Mariana olhou-me de alto a baixo com desprezo.
Desculpe! atirou ela, áspera. Trate da minha mala, está pesada.
Fiquei parada. O sorriso dela ficou tenso.
Está surda? Ricardo, olha bem para esta empregada
Ricardo virou-se.
Empalideceu imediatamente. Ficou sem fala mas o choque verdadeiro ainda estava por vir.
Amália?
Mariana franziu o sobrolho.
Conheces?
Sorri calmamente.
Olá, Ricardo. Então e o seminário, correu bem?
O que estás aqui a fazer? gaguejou ele. Seguiste-me?
Mariana riu-se.
Espera és a esposa dele? Agora percebo porque precisavas de mudanças. Até parece que ela trabalha aqui.
Depois, dirigiu-se à receção.
Quero que a despeçam. Está a estragar a minha estadia. E exijo a melhor suite. Imediatamente.
A rececionista olhou para mim, atrapalhada. Fiz apenas um leve aceno.
Com certeza, senhora. Por favor, siga-nos até à zona VIP.
Mariana sorriu, vitoriosa. Dois seguranças acompanharam-nos, eu vinha um pouco atrás.
Logo Mariana torceu o nariz.
Para onde nos estão a levar? Isto não é o caminho.
Passámos pela zona de serviço, pela saída dos funcionários e pelo estacionamento do pessoal. Ela parou brusca.
Isto é alguma piada?
Chegou ao destino.
Como assim?! Chamem a diretora!
A diretora-geral apareceu. Fato escuro, postura irrepreensível. Observou, depois dirigiu-se a mim.
Boa tarde, Dra. Simões. A Dra. Simões é a proprietária da Quinta das Águas Azuis. Todas as despesas relacionadas com o Sr. Simões foram automaticamente finalizadas.
Mariana ficou pálida. Tirei os óculos de sol.
Mariana, eu não trabalho aqui. Sou a dona deste espaço.
Virei-me para Ricardo.
Ingenuidade é trairem a mulher com o dinheiro dela num hotel que é dela.
Ele desfaleceu.
Amália, por favor
Não.
Virei-me para os seguranças.
Podem acompanhá-los à saída. Ficam banidos de forma permanente.
Nessa noite, com um copo de vinho nas mãos e o Atlântico à minha frente, vi o pôr do sol. Sozinho, mas livre. Semanas depois, organizei uma gala para lançar Águas Azuis Mulheres, um programa dedicado às mulheres que querem reescrever a própria vida.
Não foi uma traição. Foi um despertar. Perder o homem errado às vezes, é o único modo de voltar a ocupar o nosso verdadeiro lugar no mundo.







