Dona Filomena, não vou viver com o seu filho, diga isso a ele sussurroulhe Madalena, a voz a flutuar como névoa. E com quem vais ficar? A quem precisas para criar a menina? Não vejo fila de príncipes no teu quintal, respondeu a sogra, a piscar um olho como quem lê o futuro numa concha.
Madalena recolhia as coisas da filha. Já tinha colocado no saco o essencial: o casaco quentinho da pequena Sofia, marcando mentalmente um tiquetátá. Um par de sapatinhos também, dobrados como asas de borboleta.
Não chorava mais, nem se angustiava uma noite sem sono lhe concedera a decisão: precisava separarse de Rui.
Ouvira o som da porta quando ele voltou para casa. Espreitou o quarto e, ao não encontrar a esposa, entrou à porta do quarto da criança. Madalena fingiu dormir, o travesseiro a balançar ao som de um relógio que marcava horas de vento.
Na manhã seguinte, quando Rui se preparava para o trabalho, aproximouse da porta do quarto de Sofia. Hesitou, tremeu, mas não ousou entrar; prometeuse conversar à noite.
Mas aquela conversa nunca viria, porque Madalena, meia hora depois, chamaria um táxi e, com a Sofia de dois anos nos braços, partiria para a casa dos pais, na zona de Almada.
Depois do que aconteceu na véspera, nem falar com Rui nem vêlo lhe parecia suportável. Ele aparecia sob a mosca toda sextafeira, mas ontem era quartafeira. De manhã, Madalena pediu ao marido que chegasse antes e ficasse com a filha enquanto encontrava a amiga Vera, que prometia um emprego distante.
Não ousou deixar a menina ao marido naquele estado e telefonou a Vera pedindo para remarcar. Rui ficou irritado:
A quem ligas? Que encontro é esse? rugiu ele, a voz a ecoar como trovão.
Falo com a Vera. Combínamos o encontro, mas não posso deixar a Sofia contigo.
Por que não?
Olhate no espelho disse Madalena a quem pareces? Vai descansar, amanhã tens trabalho respondeu, voltando para a cozinha.
Fica aí! gritou Rui, agarrandoa pela mão. O que não te agrada no meu estado? Ah, vamos sentar um pouco com os rapazes, hoje o Vítor tem aniversário. Ah, princesinha! Eu decido quando volto para casa. Entendido?
Madalena tentou soltara:
Solta! Dói! Já perdeste o juízo!
Ele tremeu, quase caiu.
Ah, é assim! exclamou, e o punho voou ao seu nariz.
Madalena agarrouse ao rosto. Rui, talvez surpreso consigo próprio, largou a mão e tentou falar, mas ela virouse e foi para a filha.
Princesinha! gritou ele novamente, saindo da casa como se fosse um fantasma.
A sogra chamavaa de princesinha. Dona Filomena nunca aprovou a jovem.
Vinte e um anos e ainda na casa dos pais? Eu já tinha um filho e outro a caminho nessa idade.
Marido, casa, horta, tarefas! E ela ainda estuda! Princesinha! Vais sofrer, Rui. Escolhe uma mulher mais simples!
Os pais de Madalena também não gostavam do genro.
Madalena, a que vem a correr? Rui não é o último homem da terra! Apaixonada? Então encontremse, até podem viver juntos, embora eu seja contra.
Não te casas logo! Pensa: estás preparada para viver com ele toda a vida? Olha a família dele, no fim. Só então decide.
Madalena decidiu. O erro ficou claro seis meses depois. Poderia ter partido, mas era vergonhoso admitir que os pais tinham razão e, ao mesmo tempo, ainda nutria esperança.
A chegada de Sofia não mudou Rui. Continuava a achar que as tarefas domésticas e o cuidado da criança eram só da esposa.
Doença da menina, malestar, tudo servia de desculpa para criticar: se a refeição não estivesse pronta, ou o lar não estivesse arrumado
Não consegues lidar com uma criança! Como é que as outras mulheres conseguem tudo? Quando eu vou trabalhar, tu vais para a cama!
Não pode ser que num dia inteiro não haja tempo para ir ao supermercado e preparar o jantar dizia ele a Madalena.
Sofia está a nascer os dentes, faz birra, e eu não consigo cozinhar nos braços dela. Pedimos entrega. Podes fazer uns ravios? Ou fica com a menina que eu preparo a refeição.
Já não havia mais óculos cor de rosa. Cada vez mais, Madalena lembravase da advertência da mãe: não se apresse no casamento, observe bem a família de Rui.
Por vezes quase fugia, mas Rui prometia mudar, e ela acreditava nele, ainda esperançosa.
Mas, depois de ontem, quando ele estendeu a mão pela primeira vez, Madalena percebeu que não podia mais suportar.
Era vergonhoso diante dos pais, mas viver com um homem que não se envergonha de levantar a mão contra a mulher não era opção. Muito menos queria que Sofia crescesse nesses braços.
A mãe de Madalena viu da janela o táxi parar em frente à casa; a filha desceu com a Sofia nos braços.
Rui, olha, Madalena chegou com as malas. Ajudaa a levar as sacolas disse ao marido.
Quando Madalena entrou, tirou os óculos escuros; os pais notaram o olho esquerdo inchado, um hematoma a escurecer a pele.
É o Rui? exclamou a mãe, surpresa.
Madalena assentiu.
Vou cuidar dele agora disparou o pai, a correr para a porta.
Pai, não, deixame fazer à minha maneira interrompeu a filha. Ajudame a levar as coisas da casa dele e o berço da Sofia.
O pai e o tioirmão mais velho foram buscar as coisas, e depois levaram Madalena ao prontosocorro.
Se quiserem denunciar o Rui, o atestado do prontosocorro não basta; tem de ir ao Instituto de Medicina Legal explicou o tio.
Amanhã vamos lá afirmou o pai, temos de marcar a consulta.
Rui chegou do trabalho com um buquê e um brinquedo para a filha. Mas a casa estava vazia; nem as malas, nem o berço da Sofia.
Ligou para Madalena, mas o telefone estava desligado. Então chamou a sogra. Ela atendeu:
Sim, a Madalena está aqui com a Sofia. Não venhas aqui os punhos do pai ainda doíam. Ela vai entrar em divórcio sozinha.
Rui tentou novamente ligar para a esposa, até a esperou no portão da casa do sogro, mas ela não respondeu; se saía só para o quintal com a Sofia.
Uma semana depois, Rui recebeu os papéis do divórcio. Então a artilharia pesada entrou em cena: apareceu a sogra, Dona Filomena.
Mãe, não quero falar com ela disse Madalena.
Mas acho que precisamos conversar, ao menos fechar os pontos respondeu a mãe. Vamos, não vamos convidála para dentro, melhor conversar no pátio, a Sofia está a dormir.
Já decidiste o divórcio? avançou a sogra. Se não for do teu jeito, já prepara a petição.
O Rui me agrediu disse Madalena.
Então provaste! Um homem chega para casa sob a mosca, não te apegues, espera que ele durma.
Tu mergulhaste na relação e agora recebeste um soco. Por isso o divórcio? Deixar a criança órfã?
Dona Filomena, não vou viver com o seu filho, diga isso a ele repetiu Madalena.
E com quem vais ficar? A quem precisas para cuidar da filha? Não vejo fila de príncipes atrás da cerca resmungou a sogra.
Nada, eu dou conta sozinha.
Então não esperes a casa do Rui nem pensas em pensão concluiu a sogra, cerrando os lábios.
A casa dele não me serve. Mas a pensão vou pedir, e o tribunal estará do meu lado.
Assim foi: o divórcio foi rápido; o laudo de lesões corporais pesou. Concederam a pensão, mais quatro mil euros por mês até a Sofia completar três anos.
Cinco anos se passaram. No primeiro de setembro, à porta da escola, uma cerimónia de formatura começou: filas ruidosas de adolescentes, crianças de primeiro ano com grandes ramos de flores. A avó e o avô, e a mãe, foram despedir a Sofia para o primeiro ano.
E o pai vem? perguntou a menina, virandose para a mãe.
Vai vir, com certeza. Já ligou, vai chegar respondeu Madalena. Olha!
Acenou para um homem alto que tentava encontrar o rosto dela na multidão colorida.
Mas não era Rui. Três anos antes, Madalena casarase com Alexandre, colega de trabalho. Agora esperavam um filho.
Rui, por sua vez, continuava só. Houve mulheres que lhe agradaram e outras que lhe gostaram, mas sempre que a história avançava para algo sério, alguém revelava o motivo pelo qual a primeira esposa o deixara.
Na pequena aldeia de Óbidos, todos se conheciam. Rui ganhou o apelido de pugilista do sofá.
Talvez um dia apareça alguém que ignore o passado, mas ainda não aconteceu a lei do bumerangue, dizem, funciona, ainda que nem todos acreditem.
O que acham disso? Deixem as vossas opiniões nos comentários. Curtam, se gostarem.
Amigos, se quiserem ler mais histórias como esta, deixem comentários e não se esqueçam dos likes. Isso nos inspira a escrever mais!





