Que bom terte ao meu lado, disse o Alexandre, abraçando a esposa.
E eu estou feliz por terte comigo! respondeu a Olívia, sorrindo.
E com quem é que eu deveria estar? brincou ele, rindo. Só contigo, porque és o meu destino. És a melhor mulher do mundo.
Olívia não disse mais nada, beijouo na bochecha e foi até à cozinha pegar o bolo que acabara de sair do forno.
Hoje o casal Silva celebrava o aniversário de prata. Resolveram fazer algo discreto, só a família mais íntima: eles, os filhos e nada mais. O filho, Diogo, estava no décimo ano, e a filha, Lurdes, acabara de terminar a universidade, entrou num emprego e tinha arranjado um apartamento a dois quarteirões da empresa.
Por que é que te vais viver num apartamento alugado? perguntou a Olívia. Já tens o teu quarto aqui, vivemos todos juntos, não precisas de te afastar. Quando casares, ainda vais sair de casa.
Mãe, eu adorovos a ambos, mas quero experimentar a vida por conta própria. E, olha, tu cozinhas tão bem, os teus bolos são uma tentação eu fico a pensar que vou acabar a virar um elefante! Eu sou magricela, como tu, mas não me sinto bem a comer tudo o que tu fazes. Preciso cuidar da minha figura, e isso é impossível se estou sempre à mesa da vossa cozinha.
Olívia sorriu ao ver a filha. Lurdes, ao contrário da mãe, era uma verdadeira beleza. A Olívia era baixinha, esquelética, quase parecia ainda uma rapariga adolescente, sem nenhum interesse em maquilhagem, o cabelo sempre num rabo simples, vestindo-se de forma discreta. Lurdes, por outro lado, herdara a elegância do pai.
O Alexandre era um homem de presença. Alto, de boa constituição, embora com alguns quilinhos a mais não era surpresa, dado o número de bolos que a Olívia fazia. Na juventude era muito bonito e, aos quarentaeoito anos, ainda mantinha um ar de charme que a Olívia reconhecia como o de a melhor mulher do mundo. Ela já estava habituada ao sussurro nas costas, mas não lhe dava importância, porque sabia que para ele ela era a mais linda.
***
Quando a Olívia conheceu o Alexandre, ela tinha vinte anos e ele, vintedois.
Numa tarde de setembro, a estudante Margarida dirigiase ao aniversário da amiga Violeta. Tinha preparado um presente de antemão e, a caminho, decidiu comprar também um pequeno buquê.
Na florista, só havia um rapaz à procura de flores. O vendedor, uma moça simpática, mostravalhe várias opções, olhandoo com evidente curiosidade. Margarida também reparou na atenção que a moça dava ao rapaz e percebeu que ele era muito bonito.
Com uma cara dessas devia estar a filmar, pensou Margarida. Quem sabe é ator?
O rapaz então dirigiuse a ela:
Rapariga, qual buquê prefere? Este com rosas vermelhas ou este com peónias?
Margarida ficou sem saber o que dizer; não esperava que aquele galã lhe falasse, mas acabou por responder:
Eu escolheria as peónias, ainda que a maioria das meninas prefira rosas.
O vendedor, curioso, perguntou:
E à tua namorada que flores lhe dão?
À minha namorada? replicou o rapaz, confuso. Não compro flores para a minha namorada; nem sei quem é a tal.
Como assim? exclamou a vendedora, trocando olhares com Margarida.
O meu amigo vai a um aniversário da prima e me convidou a ir com ele, explicou o rapaz, vendo a surpresa nos rostos. Não podia ir de mãos vazias, por isso decidi comprar um buquê. Mas há tantas opções que fiquei indeciso.
Se escolheres rosas não te vais enganar, todas as raparigas gostam delas, sugeriu Margarida.
Também gostas? indagou o rapaz.
Margarida corou, abaixou os olhos e respondeu:
Eu adoro as flores do campo, mas rosas também me agradam. Acho que todo mundo gosta delas.
Que interessante, exclamou o rapaz. Eu também gosto das flores silvestres. A minha mãe traz sempre um raminho quando vai à casa de campo, perto de um campo onde cresce de tudo. Há uma beleza discreta nos campos, flores que parecem insignificantes, mas se as observares bem, são surpreendentes.
Ele acabou por comprar um buquê de rosas, saiu da loja sorrindo para Margarida.
Que rapaz agradável, não é? comentou a vendedora, ainda impressionada. Um sorriso que vale ouro!
Também pensei que parecesse um artista, respondeu Margarida.
Comprou então um pequeno buquê de crisântemos, despediuse da vendedora e foi ao encontro da Violeta.
Quando chegou à casa da amiga, encontrou o mesmo rapaz sorridente, que se chamava Tiago, e que estava ali com o amigo Rui, primo da aniversariante. Tiago ficou visivelmente surpreso ao ver a menina com quem tinha trocado ideias na florista. Olhoua continuamente, e ela, tímida, retribuiu o olhar. No final da noite, Tiago sentouse ao lado dela e começaram a conversar.
O que falaram naquela primeira noite, agora, há tantos anos, a Olívia já não recorda. Tiago fazia perguntas, ela respondia, ele contava histórias, ela ouvía
Mas a Violeta, ao notar a atenção que Tiago dava a Margarida, ficou de mau humor. Quando a música começou a tocar e os convidados começaram a dançar, Violeta aproximouse de Tiago e pediu-lhe uma dança. Ele, com um ar de culpa, desviouse para a aniversariante, mas logo voltou a Margarida. Quando a festa acabou, ele ofereceuse para a conduzir até à porta.
No dia seguinte, Margarida chegou à universidade e cruzouse com Violeta nos corredores, que nem sequer lhe deu um olá.
Depois das aulas, Margarida voltou ao encontro da amiga para descobrir o que se passava.
Não percebeste nada? perguntou Violeta, com um brilho agressivo nos olhos.
O que devo perceber?
Que o Rui trouxe o Tiago para mim! Ele queria apresentarnos. Vi o Tiago nas fotos do Rui e gostei dele. O Rui trouxeo ao aniversário e tu passaste a flertar com ele a noite inteira. E ainda ficas a fingir que és tímida!
Eu não flertei com ninguém, disse Margarida, triste. Nunca soube como flertar com rapazes; nem sequer pensei nisso. Ele foi quem me acompanhou até à porta, eu não pedi.
Não, não flertaste mas quem é que te viu? retrucou Violeta, antes de sair, deixando Margarida perplexa.
Margarida sentiuse desolada. Terá ela realmente tirado o namorado da amiga? Será que era uma destruidora de casamentos? Não, não podia ser.
Ela sempre fora invisível aos olhos dos rapazes. Como é que conseguiu chamar a atenção de alguém tão bonito como Tiago? Violeta era ainda mais atrativa, alegre e cheia de admiradores. Tiago, por outro lado, parecia ter escolhido Margarida por puro acaso, apenas para ter alguém com quem conversar depois da florista.
Pensando nisso, Margarida voltou para casa, encaráse no espelho e disse:
Será que realmente sou importante para alguém?
Nesse instante o telefone disparou. Era a voz de Tiago. No dia anterior, quando ele lhe pediu o número, ela tinha pensado que nunca lhe ouviria falar.
Marcaram de se encontrar à noite na margem do Tejo. Quando chegou ao ponto combinado, Tiago já a esperava com um buquê de flores do campo e um sorriso que fez o coração dela disparar. Ela soube ali mesmo que estava apaixonada.
Assim começou o romance de Olívia e Alexandre. Muitos previram que acabariam logo; ninguém acreditava que um homem tão bonito se apaixonaria por uma jovem como Margarida. Claro que alguns invejavam e diziam que o casal estava fadado ao fracasso, porque um rapaz assim costuma acabar por olhar para outras. Mas Tiago nunca olhou para mais ninguém, senão para a sua Margarida. Ela acabou por crer nos sentimentos dele e deixou de lado os invejosos e os críticos.
Um ano depois do primeiro encontro, Alexandre e Olívia casaramse. Não houve um dia em que ele não lhe dissesse que era a melhor mulher do mundo. Cerca de dez anos depois, Olívia finalmente lhe perguntou:
Por que é que me escolheste? Eu não tenho nada de especial, sou apenas eu.
Alexandre, genuinamente surpreendido, respondeu:
Como explicar por que nos apaixonamos? Mas já que perguntas, vou tentar. Apaixoneime nos teus olhos, são os mais lindos, cheios de bondade e sinceridade No teu sorriso, no teu perfume, na tua alma. Para mim és a mulher mais bela do planeta Não é por acaso que amas flores do campo; és tu própria uma delas. A tua beleza não grita, mas quem a vê reconhece o encanto. Não trocaria a minha flor do campo por nenhuma rosa de primeira classe.
***
O jantar de família pelo vigésimo quinto aniversário de casamento aconteceu num ambiente muito aconchegante. Os filhos disseram muitas palavras carinhosas aos pais, e isso foi o melhor presente para Olívia e Alexandre. No centro da mesa, um delicado buquê de flores silvestres. Alexandre sempre lhe dava essas flores nos aniversários o de Margarida era em julho e nas datas de casamento.
Tiago, disse Margarida, quando se deitaram, agora parece que somos uma família meio estranha.
Porquê? surpreendeuse o marido.
Nunca brigámos nos últimos vinteecinco anos. Isso acontece?
Quer brigános? riuse ele. Então vamos!
E começou a fazer cócegas à esposa.
Não, não quero, gritou Margarida, rindo, porque odiava cócegas.
Eu também não quero discutir contigo, respondeu Tiago, beijandoa.
Curtam o vídeo e deixem os vossos comentários!
Se gostarem de mais histórias como esta, deixem o vosso like e comentem. Cada mensagem ajudanos a continuar a escrever!





