22 de março de 2026 Diário
Como é que está a doença da gripe? Em que estado está? exclamou a minha sogra, Inês, ao verme tonto na cozinha. Em repouso. Mas nada grave, só um grau leve, a estação fria chegou.
Não é só o frio! És tu que trazes das tuas horas extra tudo o que chega à casa! Quantas vezes te digo muda de turno!
A minha esposa, Elisa, ainda dormia quando ouvi o rangido das portas da entrada a abrirse de repente. Olhei o relógio: eram oito da manhã.
Rui, meu amor, és tu? perguntei, intrigado, ao ouvir os passos no apartamento.
Não houve resposta. Só ouvi o som de alguém a abrir a porta do quarto de banho e a fecharse de repente
Juntei o roupão de casa e, descalço, corri para a casa de banho. Quando abri a porta, depareime com uma cena inesperada.
O meu irmãodecasa, Carlos, estava perante o espelho, a esticar a língua como se fosse um truque de circo.
Elisa, é verdade que quem tem a gripe tem a língua esbranquiçada? lançoume Carlos, curioso.
E tu, estás com gripe? perguntei, meio sonolenta.
Acho que sim respondeu ele, tocandose a testa. Preciso de um termómetro. Onde está o nosso? Deixame deitar um pouco. Até o chefe libertoume do turno. Talvez tenhamos de chamar o médico.
Peguei o termómetro; marcava 37,2°C. Foi então que o inverno oficial começou e Carlos deitouse. A médica chegou uma hora depois e concedeu baixa médica.
Liguei para a minha mãe:
Mãe, podias recolher o Tiago da creche? Não pode ir para casa, o Rui está doente.
Ela ficou feliz, pois adorava o neto, vivia sozinha e Tiago era a sua alegria.
E o Rui? Está grave?
Nada de especial. A médica já nos deu o tratamento e vamos descansar.
E tu, como te sentes? perguntou a mãe, preocupada.
Tudo bem! Ainda tenho o segundo turno no trabalho; vou pedir à sogra que venha à noite para cuidar do Rui. Assim passei a semana inteira a fazer o segundo turno. Obrigado, mãe, combinamos.
O que fazer agora? Precisava de uma sopa leve de caldo de galinha, então tive de correr à mercearia, além da farmácia. Tive de buscar coxas de frango no congelador, comprar cenouras e batatas.
Na farmácia comprei tudo o que precisava. Ao meiodia acordei o marido.
Rui, levantate, come a sopa sacudilhe o ombro.
Ele, envergonhado, sentouse na cama.
Oh, estou a sentir enjoo! Posso comer a sopa na cama? Não consigo chegar à cozinha.
Está tão mal assim? Muito bem, tragote. Depois medimos a temperatura de novo
Comi a sopa, mediu novamente 37,2°C. Deilhe comprimidos. Rui virouse para a parede e adormeceu outra vez. Graças a Deus.
Para que eu não adoeça também, o marido tem direito a receber o subsídio de doença completo, mas eu, que trabalho numa mercearia, é mais complicado. As contas da casa não perdoam doentes. Liguei então para a sogra:
Inês, o Rui está gripado. Se puderes, controlao à noite. À tarde a casa fica cheia de clientes, não consigo falar contigo.
Como assim doente? Em que estado está? exclamou a sogra.
Em repouso. Só um grau leve, tudo normal, o inverno chegou.
Não é só o inverno! É por causa do teu trabalho, que trazes tudo da caixa para casa! Quantas vezes te digo muda de turno!
Inês, eu não estou fraco! Também disseram que o Rui, quando era rapaz, adormecia ao primeiro sinal de frio. O inverno chegou, então nada a fazer
Para não prolongar a discussão, interrompi a sogra rapidamente. Inês gosta de exagerar, e dentro de uma hora já estava aqui com sacos de ervas que não fazem mal. Ela trocou a camisola do filho por outra seca, gritando:
Olha como ele está deitado com a camisola molhada, vai piorar! Como não vistes isso?
Inês, ele já estava a dormir, o que eu poderia fazer?
Fui trabalhar. Algumas horas depois, comecei a sentir fraqueza. Mas não posso dar o ar de doente, pensei; precisava de terminar o turno. À noite, a temperatura subiu mais que a do marido. Quis que o Rui soubesse, mas ele estava absorvido nos seus pensamentos.
Sinto calafrios e tontura. A mãe deume chá de amora com mel, mas à noite ainda me sentia mal. O que devo tomar?
Eu também não me sinto bem
Então toma alguma coisa respondeu o Rui, olhandose novamente ao espelho, a língua ainda esbranquiçada.
Não podia reclamar, nem ao médico, nem à mãe, nem à sogra; se falasse à mãe, receberia ligações a cada cinco minutos com conselhos; se falasse à sogra, seria acusada; o marido continuaria a viver no seu próprio mundo. Decidimos: não queixarnos, tomar os comprimidos em silêncio e continuar a trabalhar. As dívidas não desaparecem.
Durante a semana toda, o Rui se queixava da sua fraqueza, embora a temperatura fosse sempre 37°C. A sogra aparecia sempre com as suas infusões; eu já não queria vêla em casa. O marido não notava nada dormia ao lado da TV ou do telemóvel. Quando chegava à casa, a minha irmãmaisnova, Marlene, media a temperatura; só no quarto dia tudo voltou ao normal.
A fraqueza acabou por passar. O Rui ficou na cama por muito mais tempo do que eu, exigindo comida na cama, medição da temperatura e um copo de água. A sogra lembrava que ele tinha sido fraco quando criança, mas agora era a primeira vez que se resfriava na nossa vida de cinco anos juntos, e isso era insuportável!
Na semana seguinte, o médico liberouo. A creche recolheu o Tiago e, no dia seguinte, o Rui voltou ao trabalho.
Sentado à cozinha, a beber um chá ao fim do dia, o Rui contoume:
Quando éramos pequenos, tudo era mais fácil de aguentar; agora sintome assim, nem imaginas!
E que há de especial nisso? Por que não aguentaste?
Se estivesses no meu lugar! É fácil falar quando se está saudável.
Eu também já passei por isso! Mas tu não percebeste.
Rui lançoume um olhar desconfiado e depois sorriu, como se tivesse desvendado um segredo:
Brincas, né? Então vamos para a cama!
Eu suspirei, triste, mas aceitei.
**Lição pessoal:** não importa quantas vezes a vida nos traga febres e tempestades; o que realmente conta é a paciência de quem permanece ao nosso lado, a coragem de aceitar as pequenas fraquezas e a capacidade de seguir em frente, mesmo quando o termómetro marca o mesmo número todos os dias.

