Lurdes! Estás em casa? gritou Vítor, adentrando o apartamento como se fosse um corredor de nuvens.
Estou na cozinha, respondeu Lurdes, que naquele dia chegou antes do habitual e começou a preparar o jantar, enquanto o relógio derretia-se nas paredes.
Vítor despediu o casaco, lavou as mãos em uma pia que chorava e avançou para o perfume de ervas.
Por que não te vanglorias? perguntou ele, com um sorriso que se esticava como um arcoíris.
Vangar? Do que me vagaria? exclamou Lurdes, surpresa como quem abre uma porta que leva a outra realidade.
No caminho de volta do trabalho encontrei a Rita do teu departamento. Ela disse que hoje a empresa transferiu a prémio trimestral. Uma boa.
Transferiram, é? E que alegria trazes a ti?
Que alegria? Ontem eu disse: a minha mãe ligou, pediu a Zélia que a ajudasse com a hipoteca. Tu afirmaste que não tínhamos dinheiro. Agora temos. Que tal enviar à Zélia dez mil euros? propôs Vítor, enquanto as sombras dançavam ao som de um piano invisível.
Por quê? indagou Lurdes, curiosa como quem tenta ler a água.
Não insistas, sabes bem que a Zélia tem dificuldades a pagar a hipoteca sozinha. Vou chamar a mãe, dizer que vamos transferir o dinheiro disse Vítor, agarrando o telefone que cintilava como um farol na neblina.
Espera! Pára! Eu nunca disse que estava disposta a pagar a hipoteca da tua irmã! interrompeu Lurdes, segurando o ar como se fosse areia.
Por que não ajudar, se temos dinheiro? insistiu ele.
Primeiro, o dinheiro não está nos nossos bolsos, mas nos meus. É o prémio que conquistei, a trabalhar como se o sol não existisse nos últimos três meses!
Achas que passei o dia inteiro a arar a terra só para agradar à tua irmã? Não havia outra razão para o meu esforço?
Lurdes, mas a tua irmã tem filhos!
Vítor, eu também tenho uma filha. Vânia, nossa menina, que, se bem te lembras, estuda no segundo ano da universidade e vive em outra cidade, num dormitório.
Eu lhe mando dinheiro todo mês para viver. E tu, alguma vez deste um centavo à tua própria filha ao longo desses dois anos?
Sei que lhe envias tudo.
Talvez fosse agradável receber até mil euros do pai para comprar meias novas? indagou Lurdes. E a tua irmã, antes de se meter na hipoteca, deveria ter avaliado se poderia pagar.
Mas o banco já aprovou, lembrou Vítor.
Correto. No banco trabalham mentes que sabem contar. Eles já calcularam que a Zélia tem dinheiro suficiente. Se falta, é porque gasta mal.
Por exemplo, vai a salões e cafés em vez de amortizar o crédito. Por isso não vou pagar as suas extravagâncias!
Ao cair da noite, ouviu Vítor Lurdes a dizer à mãe, ao telefone, que acabara de transferir oito mil euros.
Interessante: para a Zélia não tens dinheiro, mas para a mãe irritouse Vítor. Ela tem o protético a precisar de dentista, a pensão é pequena. E a minha mãe é minha, a Zélia é estranha.
Na verdade, a Zélia é a minha irmã! lembrou Vítor.
Então, a tua, não a minha. Que reclamações tens contra mim?
Se assim for, no trasdia recebo o salário e eu próprio mando o dinheiro à Zélia, disse Vítor.
Por favor. Primeiro, como sempre, envia dez mil euros para a conta da casa, respondeu Lurdes.
Lurdes, há muito queria perguntar: dez mil euros não são muito? Podemos menos?
Pode menos, mas então o jantar será macarrão com ketchup, não almôndegas ou bife à portuguesa. Pode ainda não pagar água, nem comprar detergente sorriu Lurdes.
Não seria melhor economizar, para que haja bife e tudo o mais?
Queres tentar? Se conseguires, eu tomarei a lição respondeu Lurdes.
A conversa acabou, mas Vítor, como num sonho que se repete, acreditou que Lurdes não cumpriria a ameaça e transferiu quase todo o salário à irmã.
Errou. No dia seguinte, ao voltar do trabalho, não encontrou na cozinha nenhum sinal de jantar.
Lurdes, o que há para o jantar? perguntou ele.
Olha no frigorífico respondeu a esposa.
Vítor abriu a porta: nada. Só uma garrafa solitária de ketchup no vão da porta e duas maçãs enrugadas num cajado de legumes.
Lurdes, não há nada aqui.
Verdade? O que deveria estar? Puseste alguma coisa lá? indagou ela. Não sabes que, para tirar algo do frigorífico, antes é preciso colocar algo dentro?
Já não importa, estou faminto disse Vítor.
Imagino. Mas eu avisei: onde levares o dinheiro, vai também o jantar. E o pequenoalmmoço, por sinal declarou Lurdes, sentandose numa cadeira que balançava como uma rede.
Vítor viuse forçado a ir à casa da mãe.
No dia seguinte, a sogra, Nita Vonder, apareceu pessoalmente para educar a nora.
Depois de ouvir o longo sermão, Lurdes replicou:
Não valho nada, Nita Vonder. Não ouvi nada de novo. Já sei que sou uma má esposa. Talvez Vítor devesse ir viver contigo? Por que devo ser assim para ele?
Não dizes bobagens! Casaste-te, então vive com o marido! retrucou a sogra.
Tudo claro. Sou eu a má! Mas o apartamento é bom, o salário excelente, o prémio! Só um problema: não quero dividir nada contigo nem com a Zélia!
Então pretendes esvaziar os bolsos do filho? Então sustentemo vocês este mês. Lembremse: ele não come salsichas. O frango também não lhe agrada.
Portanto, o jantar será bife com batatas fritas e salada. Podem ainda fazer couvesrecheadas acrescentou, só coloquem mais carne. E a roupa dele? Vocês mesmos vão lavar.
Lurdes, perdeste a cabeça? Já viveram assim antes! exclamou a sogra.
Vivíamos, às vezes até bem, até vocês meteram o nariz na nossa vida. Dividiram Zélia e Graciano, agora querem intervir?
O que dizes? Quem eu divorci? irritouse Nita.
Quem mais senão vocês? As filhas já reclamam: Graciano é Graciano não nos respeita, ganha pouco, tem pouca educação, apartamento pequeno.
Acabaram por matar o Graciano, ele fugiu! E a Zélia ficou sozinha com dois filhos e uma hipoteca que não se move. Satisfeita agora?
Provavelmente não! O tédio vos trouxe até aqui! Eu não sou Graciano, não vou aguentar mais disse Lurdes, devolvendo Vítor à sogra cuida dele como só a mãe natural pode.
Lurdes, nunca imaginei isso! Não quero separarnos! A mãe apenas propôs ajudar a Zélia justificase Vítor.
Ajudar? Então, até ao próximo salário, vives na casa da mãe ou da Zélia, como decidirem entre si. Eu penso nisso.
Vítor percebeu que Lurdes não brincava. Passou o mês inteiro a viver na casa da mãe, até ao próximo pagamento.
No quinto dia, regressou ao apartamento.
Lurdes, já transferi o salário e enviei três mil euros à Vânia anunciou à porta.
Da cozinha chegava um aroma vertiginoso de porco grelhado em molho agridoce.
Lava as mãos e sentate a jantar sorriu Lurdes. Ou vais à casa da mãe?
Vítor arregalou os olhos, tremendo, a língua presa de medo. Lurdes, percebendo que as palavras eram inúteis, fezse a lembrança de um feitiço que jamais se apagaria.
E assim ficava a ousadia de Lurdes, gravada na mente como um farol num mar de névoa.

