Lurdes engravidou. O marido, Pedro, não saiu do lado dela nem um minuto durante toda a gestação. Cumpria todos os caprichos dela como quem atende a uma lista de desejos de princesa. Quando chegou o grande dia, Pedro levou Lurdes ao Hospital de SantaMaria. Ao ver a pequena e saudável filha nascer, soltou um suspiro de alívio como se tivesse finalmente colocado o último bloco de um puzzle. Satisfeito, o novo papá deu um pulo para casa para descansar. No dia seguinte, voltou ao hospital para visitar a esposa e a bebé.
Não há a sua esposa aqui anunciou a enfermeira, entregando-lhe um papel dobrado ao meio.
Pedro, perplexo, perguntou se não seria um engano.
Talvez tenha saído para? sugeriu ele, mas a enfermeira só entregoulhe o bilhete.
Ao desdobrar a folha, a leitura fez o rosto de Pedro ficar tão pálido quanto a parede do quarto de internamento. Três palavras simples: **Não me procure.**
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Pedro, chefe do departamento de vendas de uma empresa de Lisboa, ainda era solteiro. Quando viu a jovem e encantadora Lurdes passar pela porta da sua equipa, foi amor à primeira vista. Ela chegou ao escritório no primeiro dia, e ele aproximouse com um sorriso que fez o sol parecer tímido.
Bom dia, colega disse ele, tão caloroso que Lurdes quase ficou sem fôlego.
Bom dia respondeu ela, com uma voz doce que fez os pássaros do parque da cidade cantarem.
Vai ficar a par das suas tarefas com a ajuda da Carla, a senior da equipa apontou ele para a colega que conversava ao fundo. Leia o manual de procedimentos e boa sorte, esperamos que se dê bem.
As outras colaboradoras, na maioria mulheres, trocaram olhares curiosos. Quando Pedro saiu, Carla sussurrou a Vânia:
Desde quando o nosso Pedro se interessa tanto pelos novos membros?
E ambas riram.
Lurdes, de 22anos, observava tudo como quem assiste a um filme pela primeira vez: curiosa, mas não muito participativa. Já tinha, aos 17, deixado um rastro de corações partidos, inclusive tentando envolver um professor muito mais velho que ela história que terminou quando o marido do professor soube dos rumores.
Com o tempo, Pedro sugeriu um café depois do expediente.
Por que não? O chefe e o chefe devem manter bons laços, não é? respondeu Lurdes, sorrindo.
Pedro, de 30anos, ainda nunca tinha casado. Os relacionamentos eram casuais, nunca chegavam a sério. Mas agora tudo mudou: apaixonouse, começaram a namorar e, de repente, os colegas ficaram boquiabertos quando ele anunciou que o casamento estava a caminho.
Ele atendia a todos os caprichos de Lurdes sem pestanejar, inclusive a condição dela:
Ainda não queremos filhos, quero viver para mim. Quando estiver pronta, avisote. Até lá, nada de fraldas nem bodies.
Pedro achava que, com o tempo, Lurdes perceberia que uma família sem filhos não é família. Mas ela continuava a adiar o assunto.
Querido, eu avisei que não estava pronta. Por favor, não me force a ter um bebé.
Um dia, Pedro encontrou Lurdes saindo da casa de banho com um teste de gravidez nas mãos.
Lurdes, estás grávida?!
Ela confirmou com a cabeça. Pedro a ergueu nos braços, e ela começou a chorar.
Não quero ter um bebé, não quero engordar! Faz algo! exclamou ela.
Pedro, ainda a abraçara, beijoua nas bochechas molhadas de lágrimas.
Calma, amor, não chores. Eu adorote, Lurdes. Vamos ter um filho!
Lurdes foi ao médico, decidiu abortar, mas Pedro chegou a tempo ao hospital, antes que a porta do consultório fosse fechada. Levoua para fora, quase num grito:
Por favor, Lurdes! Não façamos nada, deixa o bebé nascer. Eu ajudote em tudo, prometo!
Ela concordou, mas com a condição de que não trocasse fraldas nem acordasse à noite. Pedro, fiel ao seu juramento, esteve ao lado dela durante toda a gestação, realizando cada capricho, cada desejo. Finalmente, o grande dia chegou: levoua ao Hospital de SantaMaria. Quando a pequena filha nasceu, soltou outro suspiro de alívio.
Satisfeito, o recémpapá foi para casa descansar. No dia seguinte, voltou ao hospital para ver a esposa e a bebé, quando lhe entregaram a mesma frase que ainda lhe arrepiava a espinha: **Não me procure.**
Lurdes desaparecera, mudara o número de telefone, e só duas semanas depois ligou para Pedro:
Recolhe as minhas coisas, o Arnaldo vai levar tudo. Pede o divórcio, não vou voltar.
A filha, Inês, ficou sem mãe nem pai, mas a avó, que morava a poucos quarteirões, assumiu o papel de ambas.
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Sofia, a mãe de Duarte, recebeu um telefonema da escola. A professora, a SrªMariana, avisoua que o filho tinha aprontado algo.
Venha imediatamente, o seu filho fez uma desligou antes de terminar.
Sofia pegou a bolsa, pediu licença no trabalho e correu à escola.
Duarte, nascido inesperadamente apesar das advertências médicas de que o pai, Rui, nunca teria filhos, era fruto de um casamento onde Rui já havia sido casado três vezes. No primeiro casamento durou apenas seis meses; o segundo terminou quando a esposa insistiu em exames que ele se recusou a fazer.
Quando Sofia descobriu a gravidez, voou até ao médico como se fosse um pássaro a anunciar a boa nova. Recebeu a certidão que dizia 8semanas de gestação.
Rui, olha, vamos ter um bebé! entregou o papel a ele.
Rui franziu a testa, como quem está a olhar para um filme de terror.
Alegria? Por quê? Será que? rebateu, insinuando que a alegria era culpa da sua própria infidelidade.
Depois de alguns dias, Rui cedeu e, embora relutante, aceitou que haveria um filho mesmo que não fosse dele.
Quando Duarte nasceu, Sofia percebeu que o rapaz parecia o pai, mas Rui não admitia. Quando o menino começou a andar, Rui dizia:
Vai viver com o teu pai, que o alimente e vista.
Sofia fez um teste de DNA, confirmou que Rui era o pai, mas ele ainda gritou:
Você acha que eu vou acreditar? Vou descobrir a verdade!
Ela acabou por levar Duarte para a casa da mãe, mas o marido apareceu, ameaçandoa. Sofia acabou por alugar um quarto no outro lado da cidade. Depois de muita luta, entrou com o divórcio, mudouse para outra cidade, encontrou um emprego e, finalmente, respirou aliviada.
Duarte cresceu bem‐educado, entrou no segundo ano do liceu e, num dia, recebeu outra chamada da escola. Correndo para lá, viu o seu colega, o filho de Pedro, Danilo, e uma menina chamada Margarida, que era conhecida por ser a melhor aluna da turma.
Margarida tinha um pequeno cicatriz no rosto, causada por um empurrão de Danilo durante o recreio. O diretor, Sr.Vítor, explicou a situação:
Danilo empurrou a Margarida, e ela acabou por deixar a cicatriz.
Margarida, com os olhos baixos, disse:
Não fui eu que comecei.
Danilo, com a cara vermelha, respondeu:
Mamã, não fui eu.
O pai de Margarida, Pedro, interveio:
Danilo, pede desculpa à Margarida.
E o pai de Danilo, Rui, acrescentou:
Margarida, também tens a tua parte.
As crianças ficaram a olharse, como se esperassem um duelo, mas Pedro e Sofia, ao lado, começaram a rir.
Eu sou o Pedro, pai da Margarida.
Eu sou a Sofia, mãe do Danilo.
Então Danilo, com um sorriso tímido, disse:
Desculpa, Margarida.
Margarida respondeu:
Também peçote desculpa.
Então vamos comemorar! exclamou Pedro. Que tal uma pizza?
Mamã, vamos! gritou Sofia.
Margarida, com ar sério, acrescentou:
Não pensem que foi só um malentendido; foi.
Nós acreditamos confirmou a mãe da Margarida. Vimos que era só uma confusão.
As crianças riram, dividiram a pizza e, de repente, tornaramse amigas.
Depois desse episódio, as famílias foram ao cinema, passearam no Parque das Nações, visitaram casas um do outro e, nos almoços de domingo, sempre surgia a piada sobre como os filhos tinham começado a briga antes mesmo de aprender a andar.
O tempo passou. Pedro e Sofia lembravamse com humor do primeiro encontro, rindo da forma como os filhos brigaramse pela primeira vez.
Sofia esperava um filho, e Danilo, já com a irmã Margarida, já tinha escolhido o nome do próximo bebé: **Bogdan**.
E viva o drama familiar! comentou Pedro, levantando o copo de vinho do Porto.
E assim, entre notas de Não me procure, pizzas partilhadas e promessas de futuro, as vidas continuaram, cheias de ironia, amor e aquele toque típico de quem sabe rir das próprias desventuras.

