Genro declara: não verei minha filha enquanto não vender a casa da minha mãeDesesperado, ele começou a procurar compradores, porém cada lembrança que surgia nos cômodos o impedia de fechar o negócio.

Querido diário,

Passei quase metade da minha vida a viver só. Não, fui casado, mas a minha esposa saiu da família um ano depois do casamento. Na mesma altura, acabei de dar à luz à nossa filha, a Maristela. No fim, o Pedro deixounos a mim e à menina um apartamento de três divisões, pelo menos um teto onde podíamos viver com dignidade. Não tinha intenção de me casar outra vez; nem eu era alguém que se lançasse a novos relacionamentos. A Maristela foi crescendo e precisava de apoio para aprender a andar. Entre as tarefas do dia a dia, eu estava atolado até o pescoço.

Sabia que me entregava ao máximo, mas a menina sentia falta daquele ombro paterno que eu não conseguia dar. Não podia mais suprir essa falta. Assim, com o tempo, a filha passou a se apegar demais a todos os rapazes com quem convivia ou mantinha algum tipo de relação. Nem todos apreciavam tal necessidade de afeto. Eu tinha que acalmar a menina e curar o seu coração despedaçado. Contudo, a Providência foi benevolente e, pouco depois, a Maristela encontrou o seu marido.

O Dinis era trabalhador, gentil e honesto. Eu só queria que a Maristela se casasse com ele. Ele respeitava a mim e à minha filha. O que mais poderia desejar? Por isso, consideravao o genro perfeito. Contudo, nem tudo na vida corre como nos contos de fadas. Se passaram seis meses do casamento e o Dinis mudou drasticamente.

Nesse ínterim, eu cuidava da minha mãe, ainda viva. Ela me deu à luz cedo, assim como eu a Maristela, e ainda chegou a conhecer a neta. Mas então a minha mãe adoeceu. O desgaste a fez tão fraca que precisei trazêla para casa e cuidar dela continuamente. Não havia outro lugar para a senhora, pois vivia comigo. Essa ideia desagradou totalmente ao meu genro.

Não sei o que provocou tanto descontentamento nele. Eu nunca o obriguei a cuidar da velha. Pelo contrário, todas as responsabilidades recaíam sobre os meus ombros. A minha mãe não era exigente, ao contrário, era compreensiva. Ainda assim, não percebia o que lhe incomodava.

Com o avançar dos dias, a situação só piorava. A Maristela passou a ficar do lado do Dinis. Passaram a evitar-me. Antes comíamos todos à mesma mesa; agora os filhos se trancam nos seus quartos. Tentei conversar com a filha, mas só obtive silêncio e desculpas esfarrapadas.

Os netos não me traziam consolo. Diziam que, enquanto não houvesse pressa, viviam apenas para si mesmos. Insisti no início, depois desisti. Cada um resolve os próprios assuntos. Entretanto, o Dinis começou a me pressionar, como costumam dizer. No meu lar ele agia como se fosse o dono da casa, embora nem se mexesse para fazer um reparo ou comprar algo para o apartamento. Passavase o tempo inteiro nos cafés ou nas discotecas com os amigos. Não reconheço aquele genro brilhante que eu vi no começo.

Tudo indica que só agora revelou a sua verdadeira face.

A cada semana ele tornavase mais insuportável. Chegou o Natal e o Dinis recusouse a celebrar connosco. Levou a Maristela para o quarto e festejaram separados da mãe e de mim. À meianoite a filha apareceu para nos cumprimentar, mas o marido nem sequer levantou a cabeça.

No dia seguinte, o Dinis declarou: «Vamos vender a casa da sua mãe e comprar um apartamento só para nós». Não sabia como reagir. Afinal, viviam comigo há meio ano, às minhas custas. «Não, não é assim», respondi irritado. «Procurem um apartamento por conta própria. Essa é a casa da minha mãe; não vamos vender. É dela e ela decidirá o que fazer.»

O Dinis ficou furioso. Na mesma hora arrumou as malas, pegou a Maristela e partiu para a casa dos pais dele.

Fiquei triste ao ver que a filha nem protestou, mas era a vida dela. Se ela acredita que assim será melhor, que viva com o Dinis.

Perguntome se agi corretamente.

Se eu estivesse no seu lugar, talvez tivesse tentado dialogar mais, mas também teria exigido respeito pelos meus limites.

Aprendi que, quando alguém tenta usar a sua bondade como moeda, é preciso recolher o troco e proteger o que é seu, antes que o amor se perca no caminho.

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Genro declara: não verei minha filha enquanto não vender a casa da minha mãeDesesperado, ele começou a procurar compradores, porém cada lembrança que surgia nos cômodos o impedia de fechar o negócio.