Sou a sua netaEla chegou ao seu porto com um sorriso que lembrava o sol do Algarve ao entardecer.

A mãe está vindo, levantate.
Dizem que toda criança do lar de crianças aguarda essas palavras como quem espera o sol após a tempestade. Mas Lurdes estremeceu com elas, como se recebessem uma bofetada de vento gelado.

Vamos, levantate, que estás sentado aí? perguntoua a cuidadora, Dona Maria da Conceição, sem compreender o porquê do rosto inerte da menina. No lar, a vida não é um pastelzinho de nata; muitos fogem para as ruas, buscando o ar livre como quem foge de uma sombra. Agora, Lurdes seria devolvida à sua própria casa, e ainda assim não sorria.

Não quero ir respondeu, virandose para a janela que mostrava um céu feito de tinta derramada. A sua amiga Rita lançoulhe um olhar torto, mas nada disse; também ela não entendia tal reação. Rita, para si, teria voltado ao lar com o coração cheio, mas ali não havia ninguém que a aguardasse.

Lurdes, por quê? insistiu Maria da Conceição. A tua mãe está à tua espera.

Não quero encontrála. Nem voltar a ela.

As outras meninas escutavam, curiosas, como se a conversa fosse um sussurro de vento que só elas podiam ouvir. A cuidadora decidiu que aquilo não era para ouvidos externos.

Venha comigo.

Maria da Conceição conduziu Lurdes a um dos quartos, cujas paredes pareciam respirar, e a fitou com compaixão.

A tua mãe cometeu muitos erros, é verdade. Mas parece que agora quer mudar de trilho. Não foi à toa que lhe deixaram levarte de volta.

Acham que é a primeira vez? Lurdes bufou, balançando a cabeça como quem sacode folhas secas. Já estou no lar pela segunda vez. Quando me levaram da primeira vez, a mãe fingiu que estava a caminhar para a luz. Escondeu garrafas, limpou a casa, comprou pão e fezse de empregada. Quando vieram os fiscais, tudo parecia um quadro de primavera. Depois devolvmelhe, e ela relaxou outra vez. Eu sou só um número para receber subsídios.

Lurdes, não posso mudar isso. Ainda assim, o lar tem o seu quentinho, não é? tentava persuadira Maria da Conceição.

Quentinho? Conhecem o que é passar fome? Ou ir à escola com botas rasgadas, quando lá fora há menos vinte graus? Ou esconderse no quarto, rezando para que os companheiros de bebedeira da mãe não batam à porta? Por que não lhe tiram a guarda?

Lágrimas brotaram nos olhos de Lurdes. Sim, o lar tinha comida e roupas; sentiase relativamente segura. Em casa tudo era diferente.

Não posso ajudarte, suspirou a cuidadora.
Sentiulhe pena, a menina era astuta, perspicaz, algo raro nos corredores do lar. Talvez a mãe, antes, fosse alguém interessante, até ter se perdido na bebida. Apesar de trabalhar no lar há sete anos, Maria da Conceição nunca vira uma criança que não quisesse voltar ao próprio teto.

Posso viver sozinha? perguntou Lurdes. Eu trabalharia, alugaria um quarto.

Só quando fores maior de idade balançou a cabeça a cuidadora.

Mas já tenho quase dezasseis! Sou uma adulta!

Maria da Conceição achava que Lurdes já era quase adulta demais, mas nada podia fazer.

Precisas de um tutor adulto. Alguém que possa assumir a tua guarda e, talvez, pedir a retirada dos direitos parentais da tua mãe.

Já não tenho mais ninguém Quando a avó ainda vivia, as coisas eram suportáveis; agora tudo é insuportável.

E o teu pai?

Bebeu até a morte.

Dissea com a calma de quem fala de pedras no caminho.

Não tem parentes?

Lurdes hesitou.

Parece que ele tinha uma mãe viva, mas nunca a conheci. Não falava com o filho. E eu também não falaria.

Então, avançou Maria da Conceição, tenta ficar um pouco com a mãe, e eu vou investigar a tua avó. Combinado?

Lurdes assentiu. O que mais lhe restava?

A mãe fez um teatro inteiro. Correu até a menina, chorando pelos corredores do lar, implorando perdão, a abraçando como se o mundo fosse só aquele gesto. Lurdes não reagiu. Sabia que, se regressassem ao lar, a mãe voltaria a ser a mesma.

E assim foi. No primeiro dia a mãe tentou, mas no segundo já voltava da mercearia com garrafas de licor. Tudo recaiu ao seu antigo ciclo: a mãe bebia, perdia o emprego, Lurdes volta ao inferno doméstico.

Quando, semanas depois, um homem embriagado invadiu o quarto à noite e Lurdes o expulsou com grande esforço, percebeu que já não aguentava mais. Por sorte, Maria da Conceição entregoulhe o seu número de telemóvel. Lurdes ligoulhe.

Ou vou para a rua, ou volto ao lar disse.

Encontrei a tua avó anunciou a cuidadora. Tentarei falar com ela. Tem ainda idade para assumir a guarda, se concordar e as condições forem favoráveis.

Lurdes implorou para ir com ela. Mesmo sem conhecer a avó, esperava que não a expulsasse. Bastava esperar alguns anos e então seria livre.

A porta abriuse para uma mulher de sessenta anos, alta, elegante, como se fosse um farol na neblina.

O que é que querem? perguntou.

Antónia da Silva? esclareceu Maria da Conceição.

Sou eu.

És a minha avó exclamou Lurdes, como se tudo fosse um eco. Então, por que tanto rodeio?

O quê?

Sou a filha do teu filho.

Entendo. E como posso ajudar? respondeu Antónia, mantendo a serenidade de quem já viu muitos invernos.

Podemos conversar? tentoua Maria, impedindoa de dizer algo que poderia ferir Lurdes.

Muito bem, mas não por muito tempo. Tenho de me preparar para o trabalho.

Antónia serviunos chá. Às vezes, olhava Lurdes como se fosse um extraterrestre, mas nada dizia. Enquanto isso, Maria da Conceição descrevia a situação toda.

A sua neta provavelmente será recolhida novamente ao lar. Mas a senhora pode assumir a tutela.

E eu, para quê? perguntou Antónia.

Bem Maria hesitou. Ela é a sua neta, afinal.

Eu não a conheço. E, honestamente, não tenho vontade de conhecer. O meu filho já me tirou muitos nervos. Quero esquecer tudo que o envolve.

Por favor, Lurdes vive em condições terríveis; a senhora poderia

Lurdes interrompeu a cuidadora.

Antónia, a senhora não me conhece, eu também não a conheço. E, sinceramente, não tenho vontade de saber quem é. Não acredito, mas também gostaria de esquecer meus pais como um pesadelo. Quero começar agora, mas a lei não me deixa. Sou ainda menor. Contudo, não preciso de nada da senhora, exceto alguns papéis e permissão para ficar com a senhora até ser maior. Estou a terminar o nono ano e depois trabalharei. Pretendo continuar os estudos quando me estabilizar. Preciso de dinheiro agora. Vou comprar tudo sozinha, até a comida. O dinheiro que receberem pela minha tutela será um acréscimo à sua pensão; não o quero. Preciso apenas de desfazer a burocracia. Se tivesse outros parentes, não teria recorrido a si.

Maria da Conceição fez um gesto discreto, como se mostrasse um punho a Lurdes, perguntandose se valia a pena. Antónia, porém, parecia intrigada.

Dizem que filhos de alcoólatras são atrasados, mas não parece ser o caso. Então, vais viver comigo dois anos e depois irás embora?

Prometo respondeu Lurdes.

Está bem. Concordo. Mas há regras: não me chames de avó, não toques nas minhas coisas, não traga amigos à casa. Entendido?

Perfeitamente.

Maria da Conceição falou com as autoridades, e outra vez a mãe de Lurdes foi submetida a inspeção. Desta vez, abriram um processo judicial para a retirada dos direitos parentais. Antónia, preenchendo a papelada, tornouse a guardiã legal.

Mesmo rindo nervosamente, Lurdes ainda sentia medo. Restavam dois meses de escola, sem dinheiro. E se a avó não a alimentasse?

Na primeira noite, Antónia convidoua à mesa. Há muito tempo Lurdes não provava comida caseira, saborosa como o perfume da terra depois da chuva. A mãe nunca cozinhava; simplesmente não tinha tempo. Lurdes quase não sabia cozinhar, pois em casa raramente havia mantimentos.

No dia seguinte, ao ver os ténues ténis rasgados de Lurdes, Antónia suspirou profundamente.

Depois da escola, encontramonos. Compraremos sapatos e roupas decentes.

Não tenho dinheiro resmungou Lurdes.

Eu pago. É mais fácil gastar do que viver na vergonha.

Lurdes assentiu, sem objeções. Antónia comproulhe uma pilha de roupas. Lurdes sentiuse constrangida, mas a avó perguntavalhe a opinião, como se fosse um voto.

Uma semana depois, Antónia chamoua à sala.

Como vai a escola?

Mais ou menos Lurdes respondeu com um encolher de ombros.

Mostrame o teu diário.

É digital disse Lurdes, tentando disfarçar o sorriso.

Oh No nosso país não falta papel Mostrame então o teu registo digital.

Lurdes exibiu as notas. Estudava bem; aprendeu cedo que ninguém pagaria pelos seus estudos ou lhe garantiria um emprego. Teria de contar apenas com a própria inteligência e esforço.

Muito bem elogiou Antónia. Lurdes corou. Com notas assim, deves entrar no décimo ano e depois na universidade.

Só se houver pais que sustentem franziu Lurdes. A minha situação é outra.

Então, Antónia tossiu como quem prepara um discurso, vais ao décimo ano, vais viver comigo até à universidade. Está claro?

Claro

Lurdes mal podia acreditar na sua sorte. Queria continuar os estudos, mas as portas estavam fechadas. Agora, finalmente, alguém as abriu.

Com o tempo, o muro entre Antónia e Lurdes desmoronou. A avó mostrava interesse pela vida da neta, perguntavase também sobre o filho que tinha perdido. Talvez, num lampejo, sentisse vergonha de admitir a curiosidade.

Lurdes terminou o ensino secundário e entrou na universidade. Antónia contratoulhe tutores; nos dois últimos anos antes da universidade, Lurdes aprimorou as suas caudas.

No verão antes da faculdade, Lurdes achou um emprego. Recebeu um quarto no internato, mas sabia que teria que sustentarse. Era o acordo: ela sairia quando terminasse o liceu.

Em agosto, Antónia sofreu um infarto e foi hospitalizada. Lurdes correu para casa e encontroua no chão, inconsciente, e o coração disparou. Pensou que a avó estivesse morta.

Por sorte, tudo ficou bem. Quando a puderam visitar, Lurdes entrou na enfermaria como um raio de luz.

Avó, como está? gritou, quase a cair por terra.

Desculpe Antónia da Silva, sentese melhor?

A mulher sorriu, acariciando os cabelos de Lurdes.

Chamame avó. É bom ouvir isso. Estou bem; a recuperação será longa, mas vou conseguir.

Vou cuidar de ti! Enquanto não te recuperares totalmente, ficarei aqui.

Não quero ser um peso murmurou Antónia.

Eu fui o teu peso por dois anos, a neta que surgiu do nada. E fiz tanto por ti quanto minha própria mãe nunca fez por mim. Cuidarei de ti, queira ou não.

Antónia respirou fundo, contendo as lágrimas.

Está bem. Mas há uma condição.

Qual? sorriu Lurdes.

Não vais para nenhum internato. Lá há demónios a circular. Vais ficar comigo.

Combinado aceitou Lurdes, abraçando a avó como se o tempo se dissolvesse em espuma. Sempre quis fazer isso, mas nunca teve coragem.

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Sou a sua netaEla chegou ao seu porto com um sorriso que lembrava o sol do Algarve ao entardecer.