Sofia percebeu na hora ao puxar o pano que surgia do arbusto; o pano era uma velha fralda colorida, e ela o puxou ainda mais forte, ficando imóvel ao notar que, no canto da fralda, repousava uma criança pequenininha.

Maria percebeu na hora em que puxou a fronha que se sobressaía entre os arbustos. A fronha era, na verdade, um pano velho e colorido, e ela puxou com mais força. Foi então que ficou paralisada: num canto do pano jazia um bebé.

De manhã, Maria teve um sonho estranho: parecia que o filho dela, Tiago, estava na varanda batendo à porta. Ela acordou sobressaltada, agarrouse ao colchão e, descalça, correu para a porta.

Silêncio. Ninguém. Sonhos assim apareciam-lhe frequentemente e sempre a enganavam, mas ela corria até à porta e a abria a pestana. Desta vez fez o mesmo e ficou a observar o vazio da noite.

A escuridão e o crepúsculo envolviama. Tentando acalmar o coração que disparava, sentouse nos degraus da varanda. Nesse silêncio, ouviu um som estranho: um chiado, um farfalhar.

Deve ser outro gato da vizinha a enrolarse, pensou Maria e foi buscar o miado entre os arbustos de azeitona, como já fizera outras vezes.

Mas não era um gato. Maria percebeu imediatamente ao puxar a fronha que se escondia nos arbustos. Era realmente um pano velho e colorido, e ela apertou ainda mais.

E ficou imóvel: num canto do pano repousava um bebé. O bebé estava nu, provavelmente tinha se desenrolado enquanto estava ali; era um rapaz. Pelo umbigo ainda preso, se via que era recémnascido.

O bebé já não conseguia chorar; estava molhado, exausto e, provavelmente, faminto. Quando Maria o pegou nos braços, ele soltou um gemido fraco.

Sem saber bem o que fazer, ele abraçouse a ela e disparou para dentro da casa. Encontrou um lençol limpo, enrolou o bebé, cobriuo com um cobertor quente e começou a aquecer o leite.

Lavou a mamadeira, encontrou ainda o bico que guardava da primavera passada, quando alimentava o seu cabrito. O menino fez grunhidos e engasgouse de fome, depois, já aquecido e saciado, adormeceu.

O amanhecer chegou, mas Maria não saía do pensamento sobre a descoberta. Ela já tinha mais de quarenta anos, e na aldeia a gente já a chamava tia.

Perdeu o marido e o filho na guerra há muitos anos, e ficou sozinha neste mundo. Não conseguia habituarse à solidão, mas a dura realidade lembravaa constantemente disso e, com o tempo, aprendeu a confiar só em si mesma.

Agora estava perdida, sem saber o que fazer. Olhou para o bebé ele dormia, roncando docemente, como todas as criancinhas.

Pensou então em pedir ajuda à vizinha, então dirigiuse à Helena. Helena vivia tranquilamente, sem marido, sem filhos, sem perdas de guerra; a vida dela era como um mar calmo.

Helena, alta e elegante, estava na varanda, enrolada num xale, a absorver o calor do sol. Depois de ouvir a história da noite, respondeu resumidamente:

Mas porque precisas disso? e foi para dentro de casa. Maria percebeu, de canto de olho, que a cortina da janela tremulava; alguém ainda rondava ali.

Por quê? Por quê? murmurou Maria para si mesma.

Ela regressou à casa, alimentou o bebé, enrolouo seco, juntou o que precisava para a viagem e saiu rumo à estação de autocarros para apanhar o caminho à cidade. Não demorou muito: a cinco minutos, parou-lhe ao lado um camião ligeiro a caminho de Lisboa.

Vai ao hospital? perguntou o motorista, apontando para o embrulho nas mãos de Maria.

Sim, ao hospital respondeu ela, controlando a voz.

No abrigo, enquanto preenchiam a papelada para a adoção, Maria não conseguia livrarse da sensação de estar a fazer algo errado; uma pontada no coração não lhe deixava paz.

Sentia um vazio enorme, como quando recebeu a notícia da morte do marido e depois do filho.

Como vamos chamar o menino? Qual nome lhe daremos? perguntou a assistente do abrigo.

Nome? recuou Maria, pensou um instante e, surpreendentemente, respondeu Tiago.

Um nome bonito disse a assistente. Aqui temos muitos Tiagos e Catarina, mas quem perde os pais, como tu, tem o futuro incerto. Agora não há homens, tem de alegrarse com a criança. Não te deixes enganar, filho de ninguém!

Embora não fossem palavras dirigidas a ela, o comentário feza sentir ainda mais o peito apertado. De volta ao lar ao cair da noite, acendeu a lamparina.

Foi então que encontrou o velho pano de Tiago, que nunca tinha jogado fora, apenas colocado à parte. Pegouo nas mãos e sentouse na cama.

Passando os dedos sobre o pano húmido, notou um pequeno nó num canto.

Dentro do nó havia um pedaço de papel cinzento e um simples crucifixo de latão na corda. Ao desdobrar o papel, leu:

Querida e boa mulher, perdoame. Este bebé não me serve, estou perdida na vida, amanhã já não estarei aqui. Não deixes o meu filho, dálhe o que não posso darlhe amor, cuidado e proteção.

Em seguida, estava a data de nascimento da criança. As palavras explodiram em Maria chorou e gritou como se o céu fosse desabar. As lágrimas corriam como um rio, e ela achava que já não tinha mais lágrimas para derramar.

Lembrouse do casamento, da felicidade com o marido, depois do nascimento de Tiago outra vez a alegria invadiu a casa. Na aldeia, as mulheres a invejavam: Maria brilhava de felicidade.

Por que não brilhar, se o marido era amado e o filho também? Os seus maridos também a adoravam. Pouco antes da guerra, Tiago terminou o curso de condução e prometeu levara no carro novo que lhes prometiam na cooperação agrícola.

Mas a tragédia chegou Em agosto de 1942 trouxeram-lhe um boletim de falecimento do marido, e em outubro do filho. E a luz da sua vida apagouse para sempre.

Tornouse como as outras, como quase todas as mulheres da aldeia, a agarrarse à noite, a correr à porta e a espreitar a escuridão.

Nessa noite, novamente não conseguiu dormir; saiu à rua, ouviu a noite e esperava algo. De manhã, Maria pegou o autocarro de novo para a cidade.

A assistente do abrigo reconheceua na hora e não se surpreendeu quando disse que queria levar o menino de volta, como o seu filho falecido lhe pedia.

Tudo bem respondeu a assistente vamos ajudar com a documentação.

Envolvendo Tiago num cobertor, Maria saiu do abrigo com o coração mais leve já não carregava aquela dor profunda nem o vazio que a acompanhava há tantos anos.

Novos sentimentos surgiam alegria e amor. Se a vida está destinada a ser feliz, ela será, e foi isso que aconteceu a Maria.

Na sua casa vazia, após o regresso, só havia fotos do marido e do filho na parede.

Mas desta vez os rostos pareciam diferentes, não sérios nem tristes, mas iluminados, suaves, aprovadores e encorajadores.

Maria apertou o pequeno Tiago contra o peito e sentiuse forte ainda iria precisar dela por muito tempo.

Vocês vão ajudarme? falou às fotografias.

Vinte anos passaram. Tiago cresceu e tornouse um rapaz honesto. Todas as raparigas sonhavam com ele, mas ele escolheu quem o coração lhe dizia a mais querida, depois da mãe, claro. Chamavase Lúcia.

Um dia, Tiago trouxe Lúcia à mãe para a conhecer, e Maria percebeu então que o filho tinha realmente crescido, tornarase um homem. Ela abençoou o casal.

Celebraram o casamento, os recémcasados começaram a construir o seu ninho. Os filhos chegaram, e o mais novo chamaram de Tiago, tornandoa rica em família.

Numa noite, acordou com barulho na janela e, como de costume, foi à porta. Abriua e saiu ao ar livre. Uma tempestade aproximavase, relâmpagos piscavam ao longe.

Obrigada, meu filho sussurrou Maria na escuridão agora tenho três Tiagos e amoos a todos.

Um grande carvalho, plantado pelo marido quando Tiago nasceu, sacudiuse ao vento, e um relâmpago brilhou como o sorriso dourado de Tiago.

Partilha o teu carinho e deixa o teu comentário! Quando o trovão rompeu o silêncio, Maria sentiu o coração pulsar como se fosse a primeira vez. O vento trouxe o cheiro úmido da terra, misturado ao perfume das flores que ela plantara ao lado do velho carvalho. Sob a luz trêmula dos relâmpagos, viu sombras que pareciam dançar entre os galhos, como se os espíritos de seu marido e do filho desaparecido estivessem a aplaudir silenciosamente.

Um brilho dourado atravessou o céu e, por um instante, a silhueta de um homem apareceu entre as folhas, segurando na mão o mesmo pedaço de pano que havia salvado o bebê tantos anos atrás. Maria sorriu, sentindo que aquele gesto antigo havia fechado o ciclo que tanto a atormentara.

Com os três Tiagos ao seu redor o filho que a vida lhe deu, o neto que carregava o mesmo nome, e a memória viva do homem que partiu ela percebeu que o amor era uma corrente que nunca se rompe. A tempestade passou, deixando o ar fresco e o céu estrelado, e a lua refletiu-se nas folhas do carvalho, como se fosse um selo de aprovação.

Maria, agora tranquila, cruzou o pátio, recolheu a cadeira de balanço e sentouse, ouvindo o canto dos grilos. No seu peito, a certeza de que, apesar das perdas e das noites de espera, a vida havia lhe devolvido o que realmente importava: a capacidade de amar e ser amada, eternamente.

Obrigada, meus amores murmurou ela ao vento . O futuro é nosso, e cada batida do coração celebra a história que escrevemos juntos.

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Sofia percebeu na hora ao puxar o pano que surgia do arbusto; o pano era uma velha fralda colorida, e ela o puxou ainda mais forte, ficando imóvel ao notar que, no canto da fralda, repousava uma criança pequenininha.