Não me ocorreu jamais sugerir a Lurdes que se mudasse comigo. Namorarse e viver juntos são duas coisas bem diferentes. No sábado, Lurdes esperavame para mais um passeio. Ela abriu a porta, ficou surpresa ao me ver com duas malas grandes.
Sérgio, o que se passa? perguntou ela.
Lurdes, posso entrar? Explicote agora.
Levei as malas para o corredor e senteime no sofá.
A proprietária do meu apartamento decidiu vendêlo. Disseme que tenho de desocupar dentro de uma semana.
E agora?
Não tenho onde ficar. Não é fácil achar outro flat assim de pronto, muito menos com dinheiro para pagar 800 euros de renda.
Lurdes começou a perceber a situação.
Lurdes, pensei nós temos um relacionamento sério. Há seis meses que nos vemos, já nos conhecemos bem. Que tal tentarmos morar juntos?
Juntos? repelelhe.
Sim. O teu apartamento tem três quartos, há muito espaço. Eu não sou doninha de casa ainda trabalho, e podemos dividir as despesas de comida e tudo o mais.
Sérgio, nunca falámos acerca disso.
Porque é que ia falar antes? A vida já nos deu o sinal.
Fiquei sem saber o que dizer. Ela não estava pronta para esse rumo inesperado.
Preciso de pensar, Sérgio.
Pensar? Nós gostamos um do outro.
Amar e coabitar são duas coisas distintas.
Por que diferentes? Nesta idade devemos decidir o que queremos.
Decidir o quê?
Nos relacionamentos. Se nos encontramos, devemos estar juntos.
Olhei para as malas empilhadas no corredor. Era como se eu já tivesse decidido tudo por ela, trazendo as minhas coisas e colocandoa diante da realidade.
E se eu for contra?
Contra o quê? Contra a felicidade?
Contra o fato de alguém chegar à minha casa com as malas sem sequer me perguntar.
Lurdes, não te zangues. Não faço por mal. Só as circunstâncias se puseram assim.
As circunstâncias não surgem; as criamos nós.
O que queres dizer?
Que devias ter falado comigo primeiro, antes de trazeres as malas.
Fiquei calado, a refletir.
Muito bem. Falemos aqui mesmo. Proponhonos viver juntos.
Recusome.
Por quê?
Porque gosto de viver sozinha. Gosto da nossa companhia, mas não quero partilhar o dia a dia.
Mas porquê? Compatíveis demais, não é?
Compatíveis para encontros, passeios, momentos de lazer. Não para a rotina doméstica.
Qual a diferença?
A rotina é diária. São hábitos, ordem, compromissos.
Então o que? Podemos adaptarnos um ao outro.
É justamente isso que não quero. Estou bem como estou.
Pareciame triste, então lancei outra ideia.
E se eu propusesse um casamento oficial?
Para quê?
Para que tudo fique certinho, à moda das pessoas.
Sérgio, o casamento não mudará nada. Ainda assim não quero morar contigo.
Mas então, qual é o sentido da nossa relação?
O mesmo de antes. Encontramonos, conversamos, partilhamos tempo.
E depois?
Continuamos a encontrarnos.
Mas isso não parece sério!
Por que não? Esse tipo de relação serveme.
Eu procuro estabilidade.
Que estabilidade precisas? perguntei, sentandome de frente para ela.
A tradicional, de viver com a pessoa amada, tomar o pequenoalmoço juntos, fazer planos.
Eu não quero partilhar o pequenoalmoço todos os dias. Não quero adaptarme aos planos de ninguém.
Mas estás sozinha!
Não estou só. Tenho as filhas, amigas, e agora tens tu. Solidão e viver por conta própria são coisas diferentes.
Não percebo a diferença.
A diferença está em escolher quando e com quem conversar. Se morarmos juntos, não terei escolha.
Lurdes, aos sessenta anos é hora de pensar em quem vai estar ao nosso lado na velhice.
Penso nisso. Mas não tem de ser um homem.
Quem então?
As filhas, uma cuidadora, os serviços sociais. Há opções.
Mas não é isso!
Talvez não seja o que esperas, mas para mim está bem.
Levanteime e comecei a andar pela sala.
Então queres que eu continue a viver num apartamento alugado e a encontrarte só nos finsdesemana?
Quero viver como te for mais confortável. E encontrarmonos quando ambos quisermos.
E se eu não puder arrendar outro piso?
Isso são os teus problemas, não os meus.
É duro, Lurdes.
É honesto. Não me cabe resolver a tua situação habitacional.
Mas ainda nos vemos!
Sim, e isso não me torna responsável pela tua vida.
Senteime novamente no sofá, pensativo.
Lurdes, se eu encontrar um apartamento, continuaremos a falar?
Claro, se quiseres.
Enquanto procuro, posso ficar contigo um tempo?
Não.
De jeito nenhum?
De jeito nenhum.
Percebi que Lurdes estava firme. Peguei as malas e dirigime à porta.
Vou ter de procurar novo lar e, talvez, novas relações.
Talvez.
Lurdes, não te vais arrepender?
Não.
Saí. Não voltei a telefonar. Lurdes voltou ao seu tranquilo quotidiano, sem um companheiro. Aos sessenta anos, valorizava mais a paz do que qualquer romance, e a liberdade acima de qualquer companhia.
E tu, como reagirias nesta situação? Partilha a tua opinião nos comentários e deixa um like.

