Zé foi expulso. De novo. Pela terceira vez na sua curta vida. Não teve sorte, de algum modo.

Vasco foi expulso. De novo. Pela terceira vez em sua curta vida. A sorte nunca lhe sorriu.

Mal tinha completado um ano quando já o lançaram fora de três lares. Primeiro, passado de mão em mão, como se fosse apenas um objeto. Depois, simplesmente o arrastaram para fora da porta, deixaramo num caixote de lixo na rua e fugiram, para que não encontrasse o caminho de volta. E ele não procurou.

Percebeu tudo de imediato, no olhar daquele homem. A esposa do dono ficou desolada quando Vasco arranhou o novo sofá de couro, um luxo que custava 1500, e logo decretou a sentença. E o marido? O marido nada dizia; concordava com tudo, sempre.

Com o corpo estendido sob a axila, o homem agarrou o gatinho de um ano e dirigiuse ao depósito de lixo do bairro. Vasco não correu atrás. Não correu. O juízo do homem era legível nos olhos; ele sabia que tudo seria em vão. Não houve despedida humana, nenhum afago, nenhum pedido de perdão. Algo aconteceu, porém, que nem o próprio homem podia compreender, como se um balde de lixo fosse esvaziado sobre ele.

Vasco suspirou e vasculhou o lixo em busca de algo com que se alimentar, remexendo migalhas de frango velho. Quando se ergueu, sentouse ao lado de um grande tanque verde e ficou a observar o sol. Piscou, mas não desviou o olhar. O círculo luminoso aquecia seu corpo, e ele adorava aquela sensação.

Aqueles foram os últimos raios de sol: luz do verão, do outono e do inverno, um breve aquecimento antes que a última camada de gelo se derretesse. No fundo da alma de Vasco, porém, o frio permanecia.

O crepúsculo e a noite eram gelados. Depois do pôrdosol, o vento e a geada tomaram conta. O gato ruivo tremia; não sabia onde se esconder. Encontrou uma grande pilha de folhas secas, amarelas, e, enrolandose nelas, virouse num pequeno bolinho. No início, o frio era intenso e ele tremia, mas então, quando o vento trouxe consigo cristais de gelo que endureceram seu pelo ruivo, sentiuse estranhamente mais quente; o tremor cessou. Uma voz leve, quase um sussurro, veio das profundezas, cantando palavras suaves que o embalaram, convidandoo a fechar os olhos e esquecer todo sofrimento.

Enrolate mais, dorme. Dorme, dorme, dorme. A voz trazia calor, espalhandose pelo seu corpo entorpecido. Era simples: basta ceder, e tudo passará; a paz e a eternidade chegarão, as mágoas desaparecerão.

Vasco soltouse num último suspiro e concordou. Por que lutar? Por quê? Amanhã o esperaria o mesmo frio, a mesma fome, o mesmo desejo de fechar os olhos para nunca mais os abrir.

Lâmpadas acenderam longe, nas ruas de Lisboa. Vasco lançoulhe um último olhar; ele sempre observava aquela luz da janela do seu apartamento. O felino ruivo, pela última vez, absorveu aquele brilho, e seus olhos cintilaram na escuridão que se apagava.

Aquela fagulha final atraiu a atenção de uma menina ruiva, nomeada Madalena, que caminhava para casa com o pai. Ela puxouo pela manga.

Lá disse ela tem alguém entre as folhas.

Não há ninguém respondeu o pai, tremendo de frio. Vamos mais depressa; estou a congelar.

Ele tentou afastála da grande pilha escura de folhas. Madalena, porém, puxouo de volta.

Eu vi. Eu vi a luz.

Luz numa pilha de folhas velhas? espantouse o pai. Não pode ser.

Mas a menina já estava perto, e ao rasgar a camada superior encontrouo: o gato ruivo.

Papá! gritou ela.

Eu já vi. É ele.

Quem é ele? perguntou o pai, aproximandose.

Aqui está respondeu Madalena, tentando erguer o corpo gelado.

Deixao disse o pai. Ele já está morto. Não vamos levar um gato morto para casa.

Ele não está morto insistiu a menina. Eu sei, eu sei. Está vivo. Eu vi a luz nos seus olhos.

Luz nos olhos de um gato? deu de ombros o pai.

Chegando ainda mais perto, levantouo, tentando sentir ou ouvir o coração. Enquanto isso, Vasco ansiava por dormir. O sono fechou-lhe as pálperas e um calor profundo inundou seu corpo. Uma voz interior sussurrava:

Dorme, dorme, dorme não abras os olhos.

Mas o pequeno e doce timbre infantil repetia incansavelmente:

Luz nos olhos dele.

O que querem de mim? Por que me atormentam novamente? Por que não me deixam dormir em paz?

Ele abriu os olhos com dificuldade, tentando enxergar quem o incomodava.

Ali! exclamou a voz infantil. Ali! Eu disse. Viste? De novo. Luz!

Que luz?

Surpreso, tirou a jaqueta, enrolouse nela e dirigiuse para a porta. A filha correu ao seu lado, apressada.

Papá, papai, rápido! Ele está com frio.

Desapareceram no corredor, e, então, as luzes dos apartamentos do quinto andar acenderam. Vasco foi banhado com água morna e alimentado com leite aquecido. Madalena o implorava:

Não morra. Por favor, não morra.

O gelo em seu pelo derreteu; o gelo em sua alma também. O grande gato ruivo, agora desperto, observava maravilhado enquanto o pai e a filha cuidavam dele. Sentiase verdadeiramente aquecido, não pelos radiadores, mas pelo pequeno coração infantil.

Do lado de fora, alguém permanecia. Um guardião que, às vezes, aparece para ajudar. Ele ficava ali, olhando as janelas iluminadas do quinto andar.

Tudo o que posso, tudo o que posso murmurou.

Parou, refletiu e acrescentou:

Luz nem todos a veem. Nem todos que a veem conseguem preservála.

E Vasco, ao observar Madalena, não pensava na grandeza do ser humano. Homens pensam nessas coisas. Ele pensava apenas em si. Viu a luz nos olhos dela.

Curtam, comentem, digam o que acham! concluiu a voz que narrava.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Zé foi expulso. De novo. Pela terceira vez na sua curta vida. Não teve sorte, de algum modo.