Vivo sozinha há quase cinquenta anos. Não, caseime, mas o marido, o Carlos, saiu da família um ano depois da boda. Na altura acabo de dar à luz à minha filha, a Madalena. No fim, o Pedro o pai da Madalena deixanos um apartamento de três quartos, para que ainda tenha um ponto de partida. Não penso em casar outra vez; nem eu, nem ele. A Madalena vai crescendo e eu a coloco em pé. São tantas as tarefas que já não dá a respiração.
Faço o possível, mas sinto que a menina ainda precisa daquele ombro paterno que já não lhe dou. A falta desse apoio a faz agarrarse a todos os rapazes com quem se relaciona. Nem todos apreciam tal necessidade. Tenho de a consolar e curar o coração partido. Mas o Senhor é bom e, com o tempo, a minha filha encontra o seu marido.
O Daniel surge como um homem trabalhador e bondoso. Eu só quero que a Madalena se case com ele. Ele respeitame e à minha filha. Que mais poderia desejar? Por isso consideroo o genro ideal. Contudo, a vida não é um conto de fadas. Seis meses depois do casamento, o Daniel muda radicalmente.
Nesse meiotempo cuido da minha mãe, ainda viva. Ela deume à luz bem cedo, tal como eu fiz à Madalena, e ainda tem a neta ao seu lado. Mas então a mãe começa a adoecer. A fadiga a domina e preciso levara para casa, cuidando dela dia e noite. Não tenho para onde ir, então a mãe passa a viver comigo. Essa ideia desagrada totalmente ao genro.
Não sei o que lhe causa tanto incômodo; eu não a forço a cuidar da idosa. Pelo contrário, todo o fardo recai sobre os meus ombros. A minha sogra não é exigente, senão um pouco teimosa, mas ainda assim não percebo o que irrita o Daniel.
Com o passar do tempo, tudo só se agrava. A Madalena passa ao lado do Daniel, e agora evitamme. Antes comíamos juntos à mesa; agora as crianças se recolhem ao quarto. Tento conversar com a filha, mas ela calase e só procura desculpas.
Eles não me dão prazer nem com os netos. Dizem que, enquanto não houver pressa, vivem à vontade. No início insisto, depois desisto. São assuntos deles, que resolverão por si. Porém o Daniel começa a me pressionar, como se agora fosse o dono da casa. Não levanta nem um dedo para fazer reparos ou comprar algo para o apartamento, mas desaparece frequentemente nos clubes com os amigos. Não reconheço o genro maravilhoso que vi no início.
Apenas agora revela a sua verdadeira face.
A cada semana o Daniel tornase mais insuportável. Chega o Natal e ele recusa comemorar connosco. Leva a Madalena ao quarto e celebra a festa só com a mãe. À meianoite a filha sai para nos cumprimentar, e o marido nem sequer a olha.
No dia seguinte, ele declara: Vamos vender a casa da sua mãe e comprar um apartamento à parte. Não sei como reagir. Mas vivemos aqui há seis meses, tudo à minha custa! Não basta isso?
Não, não penso assim. Consegui a tua própria casa, então compra o teu apartamento. Esta é a casa da minha mãe; não vamos vender nada. É a propriedade dela e ela decidirá o que fazer protesto eu.
O Daniel ofendese. No mesmo dia arruma as coisas, leva a filha e parte para a casa dos pais.
Fico triste por a filha não contestar, mas é a vida dela. Se acha que assim será melhor, que viva com o Daniel.
Será que a mulher agiu corretamente?
O que farias no meu lugar?
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