Tânia, por favor, não me leve a mal, não vou viver contigo.

Não fique zangada comigo, Cláudia, não vou viver contigo.
E se a gente tentar, Sérgio?! Cláudia, quase sem piscar, olhase nos olhos; um rubor surge no rosto.
Já lhe disse tudo, Tânia

Irene Pereira nasce quando Sérgio está na primeira classe. Ele lembra perfeitamente a mãe dela, a famosa e formosa Lurdes Pereira, de barriga grande, e o pai orgulhoso, Júlio. Lurdes costuma empurrar a carrinha da porta da rua, aquela que Sérgio sempre quis espreitar Na época parecia-lhe um milagre.

Sérgio vai crescendo e Irene também. Agora ela sai correndo das portas da casa dos pais, vestida com um vestido colorido e um grande laço nos cabelos ruivos. Joga com as amigas, construindo um casinha ao lado do canteiro. Sérgio observa tudo da janela da casa do outro lado da rua, exatamente em frente à casa dos Pereira.

Sérgio, leva a Irene para casa, por favor! pede Lurdes um dia.
Ele aceita e, quase um ano depois, tornase o responsável pela menina da primeira classe. No caminho para a escola caminham em silêncio; logo Irene não aguenta mais e começa a contar histórias e anedotas das aulas. As aulas dela terminam mais cedo e ela espera pacientemente por Sérgio. Às vezes, Sérgio volta para casa acompanhado dos colegas, e Irene caminha ao lado deles. Já se acostuma, e de manhã espera a companheira à porta; quando ela sai, seguraa pela mão e vão juntos até à escola.

No setembro seguinte, Irene pede baixinho que a deixe ir com as amigas. Agora são as meninas que avançam e Sérgio segue a certa distância, pronto para ajudar a qualquer instante. E o momento chega. Um ganso aparece no caminho, bufando, esticando o pescoço e batendo as asas; as meninas hesitam. Sérgio colocase entre elas e a ave, e elas escapam a correr, gritando.

No ano seguinte, Sérgio parte para estudar no concelho vizinho, onde há uma escola de dez anos, e só volta nos fins de semana e feriados. Irene parece ter esquecido quem ele é, passa de cabeça baixa e não lhe dá as boasvindas. Depois entra no instituto de navegação e raramente visita a família.

Mãe, quem é aquela? interrompe Sérgio o jantar, ao ver surgir da porta dos Pereira uma jovem alta e elegante.
É a nossa Irene! responde a mãe, olhando pela janela e sorrindo.
Quando ela chegou? pergunta Sérgio, genuinamente surpreendido.
Chegou o tempo suspira a mãe com ternura, vejo que tudo o que os pais dão acaba por nos alegrar!

Ele a vê de relance algumas vezes, com as cortinas de tule a disfarçar a vista. Ela sai com baldes no cesto da água, e o vento abrea de repente, espalhando o chapéu. De manhã, Irene aparece de fato em traje formal, a preparar exames. Sérgio sente vontade de acompanhála novamente. Mas a última gota vem da voz que ouve enquanto ajuda o pai a reparar a cerca: «Com uma voz assim, vais até ao fim do mundo!»

Um dia, ao sair da porta dos pais carregando baldes de água, encontraa junto à bomba.

Boa tarde! cumprimenta Irene primeiro, atingindo o coração de Sérgio.
Boa tarde, Irene ele responde, timidamente.

O balde demora a encher e Sérgio não consegue encontrar assunto. Parte com uma melancolia recémdescoberta; parece finalmente estar apaixonado. Depois vem o alistamento e a distribuição, e ele acaba por ser destacado em Viana do Castelo, no extremo norte.

***

Na volta, Sérgio chega cheio de esperança, desejando confessarse a Irene agora que ambos têm idade para tal. No primeiro dia ele descansa da viagem, e logo começa a rotina de trabalho. O pai, como sempre, elabora o plano mais eficiente para usar a mãodeobra extra. Na manhã do segundo dia vão à floresta cortar lenha, depois partem os troncos e empilhamos no celeiro. Correndo contra o tempo da licença de Sérgio, o pai substitui as vigas inferiores da sauna, o que exige mudar o vão da porta e refazer o chão da sauna. Por fim, decide também mudar o piso da curral. Assim passam duas semanas.

Sérgio, de vez em quando, lança o olhar para o portão dos vizinhos, normalmente fechado. Às vezes sai Lurdes, às vezes Júlio, mas Irene não aparece.

Mãe, por que a Irene não aparece? ousa perguntar Sérgio um dia.
Foi estudar. Agora mora na cidade responde a mãe.

Então Sérgio volta a Viana do Castelo. Um ano depois vê Irene só uma vez, o que o incomoda. Volta a observara debaixo da cortina de tule. Ela caminha acompanhada de um rapaz alto e desengonçado da aldeia. O rapaz conta piadas, ri sozinho, e Irene sorri de forma condescendente, lançando a Sérgio um olhar de simpatia desconfortável. Mais tarde descobre que Irene casouse com ele e agora vive num centro de retiro.

Sérgio visita os pais regularmente e, para pior, ainda ouve a sua voz

Sérgio, deixa de sofrer, já não és mais um rapaz parece que a mãe já adivinhou o seu sofrimento.

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Tânia, por favor, não me leve a mal, não vou viver contigo.