– Que tipo de safados vieram aqui? Liga pra tua família, deixa que venham pôr ordem, – exclamou Lila. – Eu não vou limpar atrás deles. Já basta eu ter que lavar a roupa de cama depois dos teus amigos. Eles se instalaram para dormir na nossa casa de veraneio.

Que bagunça foi essa? Liga logo para a tua família, que venham pôr ordem aqui! explodiu Lurdes, a voz a rasgar o ar carregado de fumaça da lareira. Não vou limpar a casa depois dos teus amigos. Já me bastam as noites a lavar a roupa de cama que eles deixam aqui. Foramse dormir na nossa casa de campo em Sintra e não se foram embora!

Ouve, a tua mãe ligou disse Tiago, a mão ainda quente do prato que tirava do forno. Eles vão passar o fim de semana a fazer um churrasco com os primos.

Que bom para eles respondeu Lurdes, cerrando os dentes. Nós não precisamos de mais ninguém aqui. Sempre tive aversão à sua sogra, Dona Leonor.

Mas eles querem ir à casa de campo justificou Tiago, tentando soar natural. O deles não tem nada, e eu tenho o mecânico marcado para sábado. Falou como se fosse óbvio. Eu disse que não podíamos ir ao fim de semana, foi por isso que a mãe pediu as chaves.

Lurdes não teve alternativa senão aceitar, algo que depois se arrependeria. Quando, no fim de semana seguinte, eles foram à casa de campo, Lurdes ficou paralizada ao ver o estado da propriedade. Parecia que um furacão tivesse passado.

As frutas ainda na caixa, o chão coberto de poeira, uma panela velha com caldo de peixe a fumegar sozinha no fogão. A cortina da cozinha pendia partida ao meio. Lurdes não conseguia compreender aquilo. Os pais de Tiago já tinham sessenta anos.

Ela desabafou tudo ao marido.

Que horror foi esse? Liga a tua família que tragam ordem! repetiu Lurdes, o rosto pálido. Não vou mais limpar depois dos teus amigos. Já me basta lavar a roupa de cama toda noite.

Pensa que estás a exagerar. Joga tudo na máquina, tira e estende respondeu Tião, tentando acalmar a esposa.

Da próxima vez faz tudo tu! gritou Lurdes. Está satisfeito com este caos?

Mas Tiago não levantou a cabeça para atender ao telefone. Lurdes não lhe deu a palavra e, mais tarde, fizeram as pazes. Estavam casados há dois anos, um casamento de amor, embora Lurdes começasse a pensar que se tinha lançado ao mar muito depressa. Ainda não tinham filhos.

A rotina seguia: trabalho, casa, trabalho, casa. Nos fins de semana passeavam ou iam ao campo com amigos. Tudo mudou quando a mãe de Lurdes, depois de um divórcio, casouse novamente e mudouse para Porto. A casa de campo herdou Lurdes.

De repente, a família de Tião começou a adorar a nova sogra. Cada um pedia para ficar na casa de campo. Sabiam todos que o churrasco sabe melhor ao ar livre, com o bacalhau assado e o vinho verde a circular.

Tios, primos, tias e até a avó de Tião surgiam como que do nada, trazendo sacolas de pão, queijos e a usual garrafa de aguardente. A irmã de Tião, Ana, e a sogra, Dona Leonor, levavam tudo: cremes, champôs, esponjas e até os chinelos da Lurdes. Quando, outra vez, a sogra telefonou pedindo as chaves para levar a sua chefe ao campo, Ana decidiu levar a chefe para um fim de semana de relaxamento.

Vamos dar as chaves à mãe disse Tiago, lembrandose da reação explosiva de Lurdes ao último fim de semana caótico, mas sem querer discutir.

Lurdes percebeu que precisava agir; Tiago estava agora ao lado da família. Pensou em mil soluções, então ligou à sua mãe e reclamou.

Vou ligar de volta respondeu a mãe, curta.

Vinte minutos depois, Lurdes telefonou à tia Olga, a única que lhe dava confiança.

Vai ser a tua irmã com o marido que vai até à casa de campo, tá? contou Lurdes. Não te preocupes, a tia Olívia vai ajudar.

Lurdes ficou pálida ao ouvir o nome da tia. Quando criança, a tia Olívia a levava a acampar no verão e deixara memórias que ainda lhe pesavam. Olívia era rigorosa, mas sabia impor respeito.

Que tens, sobrinha? Faz tempo que não me ligas! exclamou a tia ao telefone, a voz carregada de um humor sombrio. Como devo agir? Um leve susto ou algo radical? riu, antecipando o drama.

Lurdes tremia.

Dizesme que a casa está a teu nome? perguntou a tia.

Não lembro, mas eles juram que é minha respondeu Lurdes, confusa.

Não te preocupes, querida. Vamos resolver isto da melhor forma.

No domingo, a sogra, furiosa, ligou a Tião.

Venderam a casa? Onde está o dinheiro? Por que não nos avisaram? berrava Dona Leonor.

Descobriuse que, no sábado, Ana chegou com a chefe e a sogra com o marido de Tião. Já no terreno, um grupo de cinco pessoas grelhava carne ao sol.

Quem são vocês? exclamou Gisela, a proprietária da casa de campo, ao ver os estranhos.

E vocês, quem são? respondeu a Ana, com voz autoritária, aproximandose. Sou a dona da casa, não conheço vocês. Como entraram? Onde acharam as chaves?

A confusão se espalhou entre as sogras. Ana tentou explicar que tinha as chaves por laços familiares, mas Gisela, irritada, olhoua fixamente. Ana ficou sem resposta. Gisela, por prudência, calouse.

No fim, as chaves foram tiradas de Ana; pediramlhe educadamente que saísse e não voltasse. Caso contrário, iriam descobrir de onde tinham surgido aquelas chaves estranhas.

Lurdes ouviu à distância a sogra a gritar ao telefone.

Dá o telefone à tua esposa. Tião entregou o aparelho a Lurdes. Esta casa não é tua! proclamou Dona Leonor, quase em tom solene.

E vocês perguntaram? tentou Lurdes, a voz controlada. Acham que tudo à nossa volta é de vocês também?

Sabes que a Ana trouxe a chefe da empresa para cá? Se ela for despedida, será culpa tua! escandalizou Gisela.

E eu que papel tenho nisso? retrucou Lurdes. A tia Olívia chegou para descansar, nem me perguntaram. Comprem a vossa própria casa e usemna. Vocês viveram sem esta casa e agora vão viver sem nada.

Depois disso não volto mais, nem os meus familiares tremia Tião.

Era a primeira grande discussão. Tião ficou ofendido; Ana foi despedida da empresa. Nunca te perdoarei disse ele, com a voz embargada. A minha família sempre te cuidou, e tu nos traíste.

Lurdes acreditava que o despedimento de Ana tinha outra razão. De repente percebeu que não sentia pena de nenhum deles. O casamento com Tião tinha chegado a um beco sem saída.

Mãe, acho que estou a divorciarme do Tião confessou Lurdes.

Decide tu, já és adulta. Onde vais viver? A minha casa já está livre. Vai ficar com a tia Olívia respondeu a mãe, fria.

Obrigada, então. Vou arrendar um apartamento respondeu Lurdes, surpresa consigo própria.

Lurdes entrou com o divórcio, alugou um apartamento no centro de Lisboa e mudouse. Nunca mais voltou à casa de campo.

Para não perderes as próximas histórias intensas, segue a nossa página! Deixa o teu comentário, curte e partilha.

Lurdes fechou o laptop, respirou fundo e, pela primeira vez em muito tempo, deixou o som da cozinha desaparecer por completo. O sol de Lisboa entrava pelas janelas do pequeno apartamento, pintando de dourado as paredes ainda nuas, e o cheiro da chuva que se aproximava lembrava-lhe a terra úmida do campo, mas sem as sombras dos gritos antigos.

Pensou nas noites em que a fumaça da lareira parecia esconder segredos e nas vozes que ecoavam nas paredes da casa de Sintra, como se ainda estivessem a procurar um rumo. Agora, porém, cada passo que dava no corredor estreito do seu novo lar era um passo em direção a si mesma.

O que importa agora? sussurrou ao reflexo no espelho, vendo nos olhos cansados um brilho que há muito não aparecia. Não sou a esposa que se perde nas expectativas dos outros, sou a mulher que tem o direito de escolher onde quer estar.

Com um sorriso tímido, retirou da prateleira um velho álbum de fotos que guardara desde a infância. Abriu na página onde, ao lado da tia Olívia, aparecia uma pequena menina a brincar entre árvores, o rosto sujo de terra e o sorriso aberto. A lembrança daquele verão, da sensação de liberdade ao respirar o ar puro da serra, trouxe-lhe a certeza de que ainda podia cultivar a sua própria primavera.

Lurdes decidiu que, em vez de esperar que alguém lhe entregasse a chave de uma porta, ela mesma abriria a sua. Levou o álbum ao balcão da cozinha, colocou-o ao lado da xícara ainda quente de café e escreveu, com a caneta que guardava para cartas nunca enviadas, no canto da primeira página:

«Hoje, a casa de campo permanece na memória; o futuro está aqui, na rua que agora chamo de lar.»

Fechou o livro, levantouse e, pela janela, observou a cidade a despertar. O trânsito começava a ganhar ritmo, mas, ao longe, o som de uma guitarra vazava de um bar aberto, lembrando-lhe que a vida, como a música, tem acordes dissonantes e harmonias inesperadas.

Lurdes sentiuse leve, como se cada pedra que antes pesava sobre o seu peito tivesse sido recolhida e transformada em pedra de construção. Sabia que ainda haveria desafios, mas agora, com a mão firme sobre o coração, estava pronta para enfrentar qualquer tempestade sem precisar de chaves alheias.

E, enquanto a primeira chuva da estação beijava as calçadas de Lisboa, Lurdes abriu a porta do apartamento, respirou o ar fresco e, pela primeira vez, sorriu sem reservas. O futuro, finalmente, era um caminho que ela começava a trilhar por conta própria.

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– Que tipo de safados vieram aqui? Liga pra tua família, deixa que venham pôr ordem, – exclamou Lila. – Eu não vou limpar atrás deles. Já basta eu ter que lavar a roupa de cama depois dos teus amigos. Eles se instalaram para dormir na nossa casa de veraneio.