28 de março Diário
Catarina, já soube o que a minha sogra me contou? perguntou a senhora Teresa, minha mãeporcasamento, enquanto mexia a chávena de café. Ouve bem: vão ser até vinte convidados, então começaremos a preparar a partir da noite. Chego por volta das seis, se tudo correr bem.
À noite? repeti, desconfiado. Não concordei com isso.
Espera, ainda não terminei. Já enviei ao Tiago a lista de compras; ele prometeu que vai comprar tudo.
Tiago sempre ajudou a irmã mais velha, Sílvia. Até aos trinta anos ela já se casou duas vezes e já se divorciou duas vezes, e a culpa, sempre, era do marido: não foi o homem certo. A nossa mãe, Teresa, repetianos desde pequenos:
A irmã tem de ser ajudada.
E Tiago ajudava. Quando Sílvia ficava temporariamente desempregada, ele lhe enviava dinheiro; quando o apartamento que ela alugava precisava de reparos, estava lá a consertar; e nas infinitas mudanças de móveis após cada separação, ele era o motorista de confiança.
Depois, ele casouse.
Catarina, a minha esposa, suportava tudo, mas quando Sílvia, pela quinta vez este ano, pediu o carro por uns dias porque o seu avariou novamente, Catarina, firme porém calma, disse:
Tiago, já não dá mais? Também precisamos do carro neste fim de semana. Eu achava que tínhamos planos
O que há que não dê para fazer a pé? perguntei.
Não. Até a casa de campo dos meus pais não se chega a pé. Eles juntaram dois baldes de pepinos para a gente. Pensei que tinhas ouvido quando eu falei sobre isso.
Sim ouvi, mas sabes que a Sílvia tem uma situação urgente.
Outra vez? O que é desta vez?
Não sei ao certo murmurou Tiago , mas ela parece precisar de mais.
Não, Tiago. Desta vez já chega! Ou recusas a irmã ou compras-me um carro. Cansei de andar de autocarro quando poderia ter sido levado de carro onde fosse preciso.
Pensei em recusar Sílvia, mas a Teresa rapidamente trouxe tudo de volta ao ponto:
Tu vais largar a irmã por causa da esposa? Ela é a única! Quem vai ajudála se não fores?
E eu voltei a ajudar, apesar das discussões com a Catarina. Passámos alguns dias sem falar; um dia, cansado, perguntei:
Por que estás a calar? Ficou magoada?
Não, achas? Demoraste três dias a perceber? respondeu Catarina, irritada.
Não consigo entender perguntei.
Ela riu, confusa:
De verdade? Não percebeste? A tua irmã levoute todo o fim de semana para a casa de campo de uma amiga. Eu pensei que só a irias deixar, mas acabaste a ficar lá dois dias. Aquilo não te incomodou?
O que é que deveria incomodar? Bebi um copo; apareceu o exnamorado dela, com quem eu conversava tranquilamente. Era para celebrar algo. Por que eu teria de ser o idiota a conduzir? Seria mau da minha parte.
Podias ao menos telefonar.
Também podias tu, lancei.
Eu liguei! Só que o teu telemóvel estava desligado. Imagina a situação! Eu, em nervos, sem saber onde está o marido, e ele decide fugir da minha companhia desabafou Catarina.
Não inventes disseste, afastandote e apontando que o teu telefone estava a tocar.
Saí para a varanda e só lá atendi o telefone. Sabia bem que a esposa não iria aceitar outra conversa com a irmã.
Olá, mano! gritou Sílvia do outro lado da linha. O meu aniversário vem daqui a duas semanas! Trinta anos! Entendes?
Olhei para a Catarina, que já estava a derramar a sopa.
Então o que precisas? perguntei.
Como me percebes de imediato! riu Sílvia. Quero festejar na vossa casa! Tens uma sala grande. No meu apartamento alugado é apertado e a senhorita da casa vai irritarse. E restaurante é muito caro.
Não seria melhor num café? Eu pago o que for preciso.
Estás com a cabeça nas nuvens?! exclamou Sílvia. É um aniversário! Queres que eu pague o aluguer quando tu tens o teu apartamento? E ainda terás de pagar tudo, porque eu não sou filha de milionário.
Primeiro falo com a Catarina. É a casa dela também. Talvez ela tenha outros planos.
É tarde! interrompeu a irmã. Já avisei a todos que a festa será na vossa casa. Liberta o apartamento o dia inteiro, está bem? A mãe vai preparar tudo.
Suspirei e escondi o rosto na mão. Enquanto tentava encontrar uma saída, o telemóvel vibrou outra vez: era uma mensagem da mãe.
«Sílvia disse para montar o menu. Aqui está a lista de pratos. Precisamos comprar os ingredientes. Diz à Catarina para ajudar. Também na preparação, não atrapalhem.»
Nesse instante, Catarina, alheia ao aniversário, acomodouse no sofá com o telemóvel, pronta a ver a série favorita. Quando entrei na sala, baixando os olhos, ela percebeu tudo de imediato.
Então, qual é o problema desta vez? perguntou, pausando a série.
Catarina, escuta A Sílvia tem um aniversário, trinta anos. Tu sabes a data… quer comemorar.
Catarina ergueu a cabeça.
Então deixemos que ela celebre. Não vamos impedir.
Eu cocei o queixo.
Não é isso. Ela quer comemorar aqui.
O quê?! saltou da cadeira. Na nossa casa?
Sim, mas só por uma noite. Diz que restaurante é caro e a casa dela está apertada
E então? Concordaste?
Disse que falaria contigo antes! Mas Sílvia já convidou todo mundo. A mãe já está a fazer o menu
Catarina fechou os olhos e respirou fundo.
Tiago, és realmente adulto? Ou só o mensageiro dos desejos da Sílvia?
O que estás a começar?
Começo eu? respondeu Catarina, com ironia, mostrando o telemóvel. E nada? Ninguém me ligou! Esta é a minha casa, não um ponto de trânsito para os teus parentes. Sílvia quer festejar aqui, eu tenho de ajudar, ainda tenho de assistir a mãe e ainda assim nem me perguntaram!
Nesse momento o telefone de Catarina tocou outra vez.
Ah, a cereja no topo da torta murmurou ela, abanando o aparelho. A tua mãe gesticulou, exibindo o telemóvel ao marido.
Catarina, já lhe contei? retorquiu a sogra, a voz ainda a ecoar. Olha, serão até vinte pessoas. Começaremos a preparar à noite. Chego por volta das seis, no dia anterior.
À noite? respondeu a nora, cética. Não assinei nada assim.
Espera. Ainda não terminei. Tiago já tem a lista de compras, prometeu comprar tudo.
Imagina resmungou Catarina. E o dinheiro? De onde vamos tirar?
Tiago prometeu ajudar respondeu brevemente Teresa.
Ah, então vamos transformar o meu apartamento num restaurante e ainda pagar o banquete nós duas? Catarina já não se continha.
Sílvia não é estranha a vocês! Só um dia de ajuda, cortar alguma coisa na cozinha, fazer umas saladas, uns canapés Tu és a dona da casa!
Teresa, interrompeu Catarina, acabei de saber da festa. Não dei permissão para a Sílvia celebrar o aniversário aqui.
O que, minha casa? Vocês dois são casados. Tudo é de ambos! rebateu a sogra.
Não digas isso. Se fosse a casa do Tiago, não dirias isso. Eu seria, desculpa, uma mera inquilina.
Não fales tolices. Já acabou a conversa. Até sextafeira precisamos de tudo comprado disparou Teresa, desligandose.
O que foi isto? perguntei, ao ouvir o toque curto.
Já chega de se fazer a vítima! exclamou Tiago, finalmente. Já te disseram que não tens razão. Reconhece o teu erro e deixa de insistir.
Catarina ficou pálida. Levouse ao armário e, sem dizer palavra, tirou uma enorme mochila de ginásio. Foi ao quarto, abriu o guardaroupa e começou a dobrar as minhas camisolas e jeans.
Enquanto eu me achava vencedor, abri a geladeira com estrondo, tirei uma garrafa de cerveja e, como se nada tivesse acontecido, sentei no sofá à frente da televisão.
Pensava que Catarina simplesmente esfriaria e tudo voltaria ao normal. Um pouco de aborrecimento, um suspiro, e tudo se resolveria. Liguei o futebol, esperando que ela aparecesse para me chamar ao jantar. Enganeime.
Meiohora depois, Catarina apareceu no corredor, com uma sacola na mão e a mochila cheia de coisas minhas. Fui à cozinha buscar algo na geladeira, mas encontreia ali.
O que é isto? indagou, frio.
Que teatro estás a montar? respondi, confuso.
Catarina me fitou, imóvel:
Não é teatro, Tiago. É o fim. Não serei mais sombra na minha própria vida, não serei mais a serva da tua casa nem o pano de fundo dos caprichos da tua mãe e da tua irmã. Se queres ser um bom filho e irmão, volta para a mãe. Preparai a festa juntos. Tenho certeza que ela te dará um cantinho na sua sala.
És séria? dei um passo em direção a ela. Não vou voltar.
Absolutamente séria assentiu Catarina. Não quero que voltes. Já aguentei tanto que agora até a mim mesma me pergunto quem sou. Mas chega. Se em três anos não aprendeste a respeitarme, não haverá futuro.
Catarina não podes destruir tudo assim! Num instante!
Não se pode destruir o que já está em ruínas.
Tiago ficou sem saber o que dizer, ainda sem perceber que Catarina havia decidido partir. Ela ainda acrescentou:
E ainda as tuas camisas e jeans. Podem ficar. Sai agora.
Ele tentou dizer algo, mas ela já havia aberto a porta. Tiago, ainda cheio de ira, rosnou, as bochechas a arder, os lábios apertados. Ainda esperava que ela recuasse, mas o seu silêncio só aumentava a fúria.
Pois bem! gritou. Achas que vais encontrar alguém melhor? Ainda estás à procura de alguém como eu!
Catarina bufou e deu um passo atrás:
Alguém como tu, realmente… difícil de achar. Graças a Deus.
Vais lamentar! vociferou Tiago, agarrando a mochila. Vais rastejar quando perceberes que ninguém quer falar contigo! Sem mim, és ninguém!
Se ninguém significa ser uma pessoa que vive na sua própria casa, trabalha, não serve como criado para os parentes do marido e não tolera grosserias, então fico feliz em ser ninguém.
Tiago saiu, e Catarina ficou só. Respirou fundo, foi até a janela, puxou a cortina e observou o exmarido colocar a mochila no portamalas de um táxi.
Passaramse alguns meses.
O processo de divórcio foi doloroso. Tiago tentou pintar Catarina como avarenta e interesseira. A principal disputa foi o carro adquirido durante o casamento. Ele insistia que o pagou sozinho; Catarina apenas o usava.
Meritíssimo, eu paguei tudo, o carro está ao meu nome! declarava ele. Minha esposa não recebeu nem um centavo!
Catarina abriu calmamente uma pasta de documentos, espalhou extratos bancários, comprovantes de transferências, até o contrato de adiantamento assinado por ela.
Não pretendo a parte dele, mas a minha não vou entregar afirmou serena.
O juiz ficou ao lado da justiça.
Tiago não gostou. O carro, que já considerava seu, teria de ser vendido e o dinheiro dividido. Saiu da sala do tribunal com o rosto contorcido de raiva.
Em casa, a mãe não lhe deu consolo, mas mais críticas.
És um idiota? berrou Teresa. Entregastelhe tudo! O carro! O apartamento! E ainda não contrataste um bom advogado!
Para pior, Tiago ainda tinha contraído um empréstimo para cobrir a festa da Sílvia num restaurante, pois a sua casa era o local. Acabou por viver num cantinho apertado na casa da mãe Teresa.
Catarina, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu dormir tranquila. Decidiu que ainda era jovem para se agarrar a alguém como Tiago. Há homens decentes por aí; basta saber reconhecer quem realmente vale a pena.
**Lição aprendida:** não devo sacrificar o meu bemestar e a minha dignidade para agradar a quem nunca respeita os limites. A felicidade começa quando reconhecemos o nosso próprio valor e deixamos de ser sombra de outros.

