Ele fez-me um café com cheiro de amêndoa amarga. Troquei as chávenas com a sogra. E, vinte minutos depois.

08 de junho de 2026 Diário

O amanhecer nasceu como sempre. Lá fora ainda não havia luz, mas o murmúrio abafado da cidade que se espreguiçava do sono já se fazia presente. Abri os olhos, estiqueime e olhei para o marido que dormia ao meu lado o Alexandre. Ele estava deitado de costas, a mão pendendo da cama, o rosto sereno como o de uma criança. Nesses instantes tentei não pensar nas discussões recentes, na sua distância inexplicável, nas noites em que chegava tarde do escritório dizendo que estava tudo bem, só tinha muito trabalho. Queria acreditar nele. Queria que tudo ainda fosse possível.

Bom dia sussurrei, tocando seu ombro.

Ele sobressaltouse, abriu os olhos.

Já? murmurou, bocejando. Você acordou cedo.

Quero café sorri, ainda meio sonolenta. Que tal tomarmos o pequenoalmoço juntos?

Claro assentiu, levantandose. Eu faço.

Sorri. Era um gesto raro de atenção da parte dele. Ultimamente quase não ajudava nas tarefas domésticas, e eu já começava a achar que simplesmente estava cansado. Mas naquele instante ele parecia diferente. Mais cuidadoso, mais dedicado.

Fui ao chuveiro e, ao voltar, o aroma de café recémpassado já invadia a cozinha. Alexandre estava ao balcão, derramando o líquido escuro nas xícaras. Numa, a minha favorita de porcelana com flores azuis, ele encheu com café; na outra, uma xícara rachada na alça aquela que a minha sogra, Margarida, sempre usava ficou vazia.

Fiz ao seu modo disse ele, entregandome a xícara. Como gosta: um pingo de leite e canela.

Obrigada respondi, mas então meu nariz captou um cheiro estranho. Não era café. Algo picante, químico, com um toque amargo de amêndoa.

Franzi o cenho.

Que cheiro é esse? Café?

Alexandre lançou um olhar rápido à xícara.

Não sei. Talvez um novo moído? Ou o leite está estragado?

Cheirei novamente. Amêndoa amarga. Lembrei-me da história que a avó contava quando eu era criança: Se cheira a amêndoa amarga, é potássio cianídrico. Na época não levei a sério, mas depois li sobre isso no livro de química. O cianeto tem aquele odor característico e é mortal.

Meu coração disparou.

Alexandre, tem a certeza de que não se confundiu? perguntei, tentando manter a calma. Sou alérgica a certas substâncias. Posso pegar outra xícara?

Ele ficou imóvel por um segundo. Então sorriu.

Não se preocupe, é só café. Beba antes que esfrie.

Acenei, mas, naquele instante, escutei passos no corredor. Surgiu a sogra Margarida. Uma mulher rígida, olhar frio e a mania de notar tudo. Nunca nos demos bem. Ela achava que eu não era à altura do filho, que era muito simples e que não cabia na nossa família.

Bom dia disse ela, secamente, aproximandose da mesa.

Boa tarde, mãe respondeu Alexandre, beijandoa na bochecha. O café está pronto. Aqui está a sua xícara.

Estendeu a xícara vazia com a rachadura.

Onde está o meu café? perguntou, franzindo a testa.

Já estou a servir disse Alexandre, dirigindose ao bule.

Foi então que Margarida fez o que acabou salvando a minha vida. Pegou rapidamente a minha xícara cheia e disse:

Espera aqui.

Olhou para mim com ódio.

Alexandre estremeceu. Os olhos dele se arregalaram por um momento. Quando me fitou, vi algo horrível: não medo, não raiva, mas desilusão.

Que está a fazer? gritou a sogra, tomando o café da minha xícara. Sirva o café, não fique parado como um tolo.

Alexandre derramou o café na xícara vazia. Senteime. Meu coração batia descompassado. Não conseguia tirar os olhos da xícara que minha sogra segurava, ainda com o cheiro de amêndoa amarga.

Amarga resmungou ela. Mas pode beber.

Olhei para Alexandre. Ele mantinha a cabeça baixa, cutucando o prato de omelete com o garfo. Nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum sorriso.

Dez minutos depois, Margarida fez uma careta.

Sinto algo estranho no estômago reclamou. A cabeça está a girar.

Está a sentir-se mal? perguntei, tentando esconder a ansiedade.

Um pouco colocou a xícara na mesa. É como se como se estivesse a asfixiarme.

Levantouse, mas cambaleou imediatamente. Alexandre a agarrou.

Mãe! O que se passa?

Tu tu ela olhou para ele, os olhos arregalados. Tu querias a mim

E então caiu.

Gritei. Alexandre correu em direção a ela, chamando a ambulância, sacudindoa pelos ombros. Eu permanecia como num nevoeiro. Tudo acontecia rápido demais. Mas uma coisa ficou clara: ele pretendia matarme. E ela acabou sendo a vítima em meu lugar.

Vinte minutos depois, a ambulância chegou. Os médicos examinaram Margarida. Um deles cheirou a xícara.

Tem envenenamento por cianeto de potássio anunciou. Concentração alta. Está em coma. Poucas hipóteses de sobrevivência.

Alexandre estava pálido, tremendo.

Não sei como isso aconteceu Só estava a fazer o café

Onde guardam o café? perguntou o médico.

No armário mas é um pacote novo, comprei ontem

Mostremme.

Fomos à cozinha. O médico abriu o pacote, cheirou.

Não há cianeto aqui. Alguém adulterou a xícara ou a água.

A polícia chegou meia hora depois. Começou o interrogatório.

Foi o último a tocar na xícara disse o investigador, encarando Alexandre. E foi ele a servir o café.

Eu não fiz nada de errado! gritou ele. Amo a minha mãe!

E a esposa? perguntou o investigador, virandose para mim.

Fiquei em silêncio.

Depois que levaram Alexandre para o interrogatório, fiquei sozinha na casa. Na cozinha, a xícara ainda estava ali, igual. Aproximandome, pegueia. No fundo havia uma fina película esbranquiçada. Não a lavei. Coloqueia num saco e guardeia no armário.

Três dias depois, a sogra morreu. Os médicos disseram que foi incompatível com a vida; o cianeto destruiu as células cerebrais em minutos.

No funeral, Alexandre estava pálido, os olhos inchados. Mantinha a postura como se fosse culpa de todos. Mas eu via nos seus olhos não luto, mas alívio.

Depois da cerimónia, ele aproximouse.

Olha, começou, sei o que pensa. Mas eu não matei a mãe. Eu queria fez uma pausa, sussurrou: Eu queria matarte.

Não me surpreendi. Apenas assenti.

Por quê?

Porque sabes tudo respondeu ele. Sabes sobre o dinheiro. Sobre o seguro. Que estou endividado. Que joguei no casino e perdi tudo. E se saíres, levas metade do apartamento. Se eu morrer, fico com o seguro: meio milhão de euros. Bastaria para começar de novo.

E a mãe?

Ela começou a suspeitar. Lía as minhas mensagens. Amenoume revelarte. Queria livrarme de ti mas não contei que a mãe tomaria o café.

Olheio. O homem com quem vivi cinco anos. A quem amei, a quem dei sonhos, esperança, crença.

Tu matariasme disse eu.

Sim respondeu ele. Mas não queria que a mãe

Vai embora mandei. Sai da minha casa. Não voltes mais.

Ele saiu. Tranquei a porta. Liguei para o advogado. Pedi o divórcio. Entreguei a xícara à polícia. O laudo confirmou: vestígios de cianeto de potássio. As impressões digitais eram só as de Alexandre.

Um mês depois, prenderamo. O julgamento durou três semanas. Ele não negou que queria matarme, mas alegou não ter planejado a morte da sogra. O tribunal considerou isso uma atenuante. Sentença: quinze anos de regime fechado.

Mudeime para outra cidade, aluguei um pequeno apartamento à beira do lago. Comprei uma máquina de café. Agora faço o meu próprio café. Só natural. Sem canela. Sem leite. E antes de cada gole, observo atentamente o aroma.

Porque o cheiro de amêndoa amarga não é só um odor. É um aviso. É a voz do instinto a dizer: Cuidado. Aqui há morte.

Não sinto medo. Torneime mais vigilante.

Às vezes, à noite, sonho com a sogra. Ela está na porta, segurando a xícara, olhandome. Não com ódio, mas com piedade, sussurrando:

Devias ter partido antes.

Acordo em suor. Levantome, vou à cozinha, bebo água. Olho pela janela. A escuridão lá fora. O silêncio.

Mas sei que, além desse silêncio, há gente que sorri à mesa, diz amote e, na verdade, pensa: Se ela desaparecesse.

Já não acredito em coincidências. Nem no cheiro do café. Nem no amor que, de repente, esfria. Nem nos homens que, de repente, começam a fazer café de manhã.

Vivo. Respiro. Olho para o futuro.

Mas nunca esquecerei o amanhecer em que o perfume de amêndoa amarga salvoume a vida.

**Epílogo dois anos depois**

Abri uma pequena cafetaria à beira do lago, chamoa Amêndoa. Na fachada, uma placa: Café com alma. Sem amargor.

Os clientes perguntam o nome.

Gosto de amêndoa respondo, sorrindo, e sirvo-lhes um café recémpassado.

Sem cheiro estranho. Sem medo. Com esperança.

Mas, se alguém me oferecer café feito por outro, recuso sempre.

Porque, uma vez, escolhi a xícara certa.

E isso salvoume a vida.

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Ele fez-me um café com cheiro de amêndoa amarga. Troquei as chávenas com a sogra. E, vinte minutos depois.