A Felicidade da Velha Casa ComunalNo fim da noite, os vizinhos descobriram que o pequeno rádio antigo, escondido na parede, ainda transmitia canções de saudade que fizeram o coração da comunidade bater em uníssono.

Esperando o marido chegar do trabalho, Lurdes sentavase à mesa da cozinha a beber chá de tomilho, saboreando cada gole com calma. Quando ouviu o som da chave a girar na fechadura, levantouse e ficou parada na entrada. Tiago, o marido, entrou sério e silencioso.

Olá foi a primeira palavra de Lurdes, atrasado de novo, já jantei há muito, e ainda espero por ti

Olá respondeu Tiago. Podias até não ter esperado; não tenho fome e nem nada, só preciso de arrumar as minhas coisas e ir embora. disse, tirando os sapatos. Foi até ao quarto, abriu o armário e tirou uma mala.

Lurdes ficou paralisada. Sem entender nada, viua Tiago atirar os primeiros objetos na mala.

Tiago, explicame o que se passa?

Não percebes? Estou a deixarte afirmou ele, sem lhe olhar nos olhos.

Para onde vais?

Para outra mulher

Ah, então para uma jovem, não? A gente ainda tem quarenta anos, isso não é nada respondeu Lurdes com um leve sarcasmo, ao perceber a situação. Não me vou derramar lágrimas; ele não vai veras. consolouse, mas em voz alta acrescentou há quanto tempo isso se arranja?

Quase um ano respondeu Tiago, tranquilo, e ao notar a surpresa dela, acrescentou se não viste nada, se não suspeitaste, foi porque eu escondi tudo perfeitamente.

Vais embora de vez ou interrompeu Lurdes, confusa.

Lurdes, ainda não percebeste? Ouveme bem disse Tiago. Vou para outra pessoa; ela está grávida. Não conseguimos ter filhos, mas a Catarina vai darnos um filho. Deixote um mês para saíres do meu apartamento. Onde e como vais viver, isso é problema teu. Eu e a Catarina vamos ficar juntos, e o filho viverá connosco até que ela encontre um lar. e saiu.

Lurdes ficou só, as paredes apertavamlhe o peito, o silêncio dominava a casa. Ligou a televisão, ao menos alguém falava. Doze anos viveram juntos; só uma semana depois ainda conseguia aceitar, mas conseguiu recuperarse.

Dos pais, que faleceram prematuramente, herdara uma casa numa aldeia. Não queria viver sozinha no campo.

Não consigo viver ali pensou Lurdes longe da civilização, sem comodidades, sem trabalho. Aos trinta e cinco não quero ficar numa aldeia. Vou vender a casa e, com o dinheiro, comprar um quarto numa habitação coletiva ou num hostel; o resto a vida dirá.

Assim decidiuse: vendeu a casa assim que chegou à aldeia. A vizinha Maria já a esperava.

Minha querida, que bom que chegaste; já íamos à cidade buscarte.

O que se passa? perguntou Lurdes.

São os meus parentes do Norte; querem comprar a tua casa. Precisam de um chalé que se possa demolir e reconstruir. Querem ficar perto de nós; a minha irmã e o marido

Meu Deus, Maria, era por isso que vim. Se quiserem, vamos negociar o preço. Aqui está o meu número

Em dez dias já tinha o dinheiro nas mãos, embora fosse pouca soma, o que se consegue de uma casinha meio ruína. Comprou então um pequeno quarto num prédio de habitação coletiva. A cozinha era partilhada; dois quartos eram ocupados por outros vizinhos e o terceiro ficou dela. Por isso consideravao um casa de habitação.

Os vizinhos pareciam calmos, gente decente. Lurdes mal os cruzava; trabalhava de manhã à noite, e acabou por iniciar um romance com o colega de trabalho, Rui. Tudo parecia correr bem, ao menos para Lurdes.

Pouco antes do Dia da Mulher, 8 de março, Rui lhe disse:

Preciso de pensar muito; não estou certo dos meus sentimentos. Vamos dar uma pausa no nosso relacionamento.

Dános uma pausa mas vá lá, desaparecete na floresta! explodiu Lurdes.

Naquela noite, sentiuse irritada, já com 36 anos, sem tempo para esperas. Decidiu aliviar o stress comendo. Abriu a geladeira, encontrou um pequeno pedaço de presunto, mas ao procurálo, tremia de ansiedade.

Quem pegou o meu presunto? gritou Lurdes pela cozinha.

Lurdes, eu jogueio fora há dois dias; ficou verde e cheirava feio pensei que não comerías de qualquer forma, melhor não arriscar a tua saúde respondeu calmamente a vizinha Vera, uma senhora de setenta anos.

Não tens o direito de mexer nas coisas dos outros! retorquiu Lurdes. Não te compete decidir o que eu devo comer.

A raiva de Lurdes explodiu, e descarregoua toda em Vera. Não só o marido tinha a deixado, como agora havia perdido a habitação e ainda tinha ainda o colega a darlhe a pausa. Sentiuse ainda mais traída ao ver os vizinhos a tomar-lhe os alimentos.

Vera, não se preocupe interveio José, o vizinho do outro quarto.

José, um homem de sessenta anos, grisalho, intelectual, de óculos, sempre sentado num velho cadeirão com jornal ou livro à mão, ouviu a discussão. Vera ficou visivelmente abalada.

Lurdes está zangada; alguém a magoou. Não leve a mal aconselhou José, sem largar o jornal.

E o que sabe o senhor? respondeu Lurdes, ainda irritada. Ninguém lhe pediu opinião.

Creio que sei o suficiente.

Se é tão sábio, por que vive nesta habitação tão pobre? Lurdes já não se continha.

Depois de um tempo, Lurdes percebeu que o seu ataque fora injusto. Decidiu pedir desculpa a Vera.

Desculpe, Vera, não sei o que me aconteceu. Foi tudo de uma vez E o senhor José tem razão.

Vera sorriu e abraçoua:

Acontece, minha querida. Vem sentar, vamos beber chá com pastel de nata e doces. Depois pede perdão ao José, ele também tem sido injustiçado. Ele era professor universitário, tinha um apartamento grande no centro de Lisboa e um emprego que adorava. Mas fez uma pausa, a esposa ficou doente, um tumor no cérebro; os médicos disseram que era tarde demais. Ele encontrou um tratamento em Israel, mas precisava de muito dinheiro. José então contraiu dívidas enormes, foi com a esposa ao tratamento; a operação funcionou, mas a saúde não melhorou. Ela acabou por falecer. José perdeu o emprego, cuidou dela até o fim, vendeu o apartamento e pagou as dívidas. É por isso que está aqui, numa habitação coletiva.

Lurdes quase chorou ao ouvir a história.

Obrigada por partilhar isso disse, amanhã pedirei desculpa ao José.

No dia seguinte, depois do trabalho, Lurdes bateu timidamente à porta do quarto de José com um presente nas mãos. Ele abriu.

Boa noite, José disse, entregando o presente, por favor, perdoeme, pelo amor de Deus, perdoeme. Ontem ofendio injustamente, o senhor tinha razão.

José a ouviu em silêncio; quando terminou, respondeu:

Que surpresa agradável. Aceito o presente e o teu pedido, se quiseres celebrar comigo, hoje é o meu aniversário.

Parabéns! exclamou Lurdes, feliz Aceito com prazer. Como posso ajudar?

Juntamente com Vera, prepararam a mesa. Enquanto arrumavam, Lurdes contou a Vera toda a sua história: como, ainda estudante ingenua, acreditou num homem casado, ficou grávida, ele levoua ao hospital, pagou tudo, mas depois separaramse. Não conseguiu ter filhos, talvez por isso o antigo marido a tenha deixado.

A mesa já estava posta quando ouviram bater à porta. Era um jovem de quarenta anos, alto e sorridente.

Boa tarde, sou o filho da Vera apresentouse, chamandose Rafael .

Boa tarde, Lurdes, prazer em conhecêlo respondeu ela, a convidando a entrar.

A conversa à mesa foi animada; desejaram saúde a José e felicitaram o seu aniversário. Rafael revelouse um geólogo de formação, agora motorista de longo curso, cheio de histórias. Contou que a mãe mantinha uma queda secreta por José, e que ele próprio também gostava dele.

O inverno havia chegado ao Porto; a neve caía suavemente, o vento calmo. Lurdes e Rafael conversaram horas fora, sem sentir frio. Quando se despediram, Rafael avisou que teria de partir em breve.

Vai ficar muito tempo? perguntou Lurdes.

Só uma semana, depois volto. Vai esperar por mim?

Claro, esperarei impaciente.

Assim começou o romance, que rapidamente se transformou num sentimento forte. Casaramse, Lurdes mudouse para a casa de Rafael e, um ano depois, nasceu o pequeno Artur. Quando Rafael partia em longas viagens, Lurdes e o filho voltavam à habitação coletiva.

Os dias de espera passavam depressa, mas Vera e José ajudavama muito, cuidando do neto. Não precisava procurar babás; tinham os melhores avós do mundo.

E assim Lurdes aprendeu que, por mais que a vida nos dê reviravoltas dolorosas, a capacidade de perdoar e de abrirse ao novo pode transformar a tristeza em uma nova esperança. Como diz o provérbio português: Depois da tempestade vem a bonança.

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