**27 de junho Diário**
Que timing inesperado para esse jubileu deles murmurei, enquanto o relógio marcava o fim da tarde. Encontram ainda tempo para celebrar, e ainda por cima numa aldeia remota.
As palavras do marido, carregadas de descontentamento, chegaram até mim como fragmentos soltos. Percebi então que o irmão de meu sogro, o Zé, nos havia convidado para o seu vigésimo quinto aniversário de casamento, o que, como dizem aqui, é o casamento de prata.
O telefone de Manuel soou estridente, exigente, até que ele atendeu.
Era o primo dele, de Lameiro, a chamarem do interior.
Olá, Manuel, tudo bem? E por aí, como vão as coisas? saudou o homem. E sábado, então?
Tudo bem, passarei a mensagem à Luísa! respondeu Manuel, ainda rindo. Claro que vamos, onde mais iríamos?
Luísa entrou na sala, com o rosto ainda pálido.
Que coincidência esse jubileu, disse ela, quase sem ar. Encontram ainda tempo para festejar e ainda na aldeia.
Os fragmentos das frases do marido descontente ecoaram na minha cabeça. Entendi que o irmão de Zé nos chamara para o casamento de prata, mas eu e Manuel, há pouco, decidíamos nos separar.
Nas últimas semanas, as discussões aumentaram, o afastamento tornouse rotina. Dois dias atrás, foi decidido: o fim estava próximo. Luísa não queria ir ao casamento de prata o humor não ajudava.
Talvez vás tu, Manuel, porque és o irmão do noivo, não? Eu, porém, queria encontrar a Tereza disse ela, referindose à esposa de Zé. Sempre fomos amigos, sempre fomos visitar uns aos outros
Mas como chegar à aldeia e anunciar que estávamos a separarnos?
O percurso de Lisboa à aldeia de Lameiro leva quase quatro horas de autocarro, e o nosso carro velho estava encostado na garagem há três meses. Antes, usávamos essa viatura para ir a Lameiro, onde Manuel nasceu e cresceu. Agora o carro não arranca; Luísa não sabia se valia a pena investir no reparo ou comprar um novo. O pensamento da separação já tinha mudado todos os planos.
Manuel refletiu por si:
Duvido que a Luísa aceite ir; provavelmente vai recusar. Se eu for sozinho então teremos que contar ao Zé e à Tereza que decidimos separarnos. Eles vão ficar perplexos, vão fazer perguntas. Será que precisam dessa notícia num dia de celebração? Eles têm o casamento de prata, e eu aqui com o meu divórcio. Que situação
Ao notar que a esposa entrara na sala, Manuel disse:
O Zé ligou, vamos ao casamento ou não? Não vamos falar deles da nossa situação. Vamos lá e, depois, tratamos da separação.
Luísa assentiu:
Certo, é festa deles, vamos lá, já estamos aqui…
O autocarro parou abruptamente e o condutor anunciou:
Todos desembarcam, o autocarro não vai mais!
Como assim não vai?! exclamou Manuel, irritado. Falta ainda cinco quilómetros à aldeia!
A estrada está mau feita, acabou de chover, não consigo avançar. Se ficarmos aqui, quem nos tira? Procurem outro autocarro ou caminhem a pé respondeu o motorista, firme.
Manuel e Luísa desceram, com a mala nas mãos. Caminhar cinco quilómetros não estava nos nossos planos.
O que vamos fazer, esperar por outro autocarro ou ir a pé? perguntei à minha esposa.
Podemos esperar até de manhã, mas acho que vamos ter de ir a pé respondeu Luísa.
Enquanto reclamávamos do motorista, o mundo à nossa volta parecia parado. Manuel avançava à frente, eu ficava ao lado da estrada. A via era realmente ruim, poças enormes se formavam, mas a margem ainda era transitável.
Estranho, Luísa está tão quieta, nem se irrita pensou Manuel. Em casa ela já teria explodido. Aqui parece que guarda o ressentimento para depois… quem sabe quando chegar ao meio do caminho vai desabafar.
Já tínhamos percorrido metade do trajeto quando avistámos um bosque de carvalhos que nos separava da aldeia. Continuávamos em silêncio; eu esperava que ela se queixasse, mas ela caminhava calada, sem atraso.
Chegamos a um tronco caído e eu deixei a mala no chão.
Cansada? perguntei, sentindo um peso de culpa por ter sugerido a viagem.
Um pouco, posso descansar aqui sobre este tronco apontou ela para a árvore caída.
Sentámonos, olhamos em volta. O céu ainda não escurecia, o crepúsculo chegava devagar; os pássaros cantavam, as borboletas revolutavam, as árvores farfalhavam, os grilos coaxavam.
Luísa lembrouse de quando, há quase vinte anos, dirigiamse ao casamento de Manuel na própria aldeia, onde já estavam montadas as mesas e os convidados esperavam os recémcasados.
Como mudou tudo em vinte anos, o bosque cresceu, os carvalhos ficaram altos e majestosos disse ela, nostálgica.
É verdade, o tempo voa, tudo muda respondeu Manuel. Lembraste quando, naquele dia, a roda do carro quase saiu do eixo? Tu de vestido de festa, eu de fato e sapatos engraxados, a caminhar pela margem até a aldeia enquanto o Zé trocava o pneu. Decidimos não esperar e seguimos a pé. Não foi muito tempo, mas tu acabaste com a sandália machucada.
Ah, lembrome, a minha sandália… riuse Luísa. Ainda bem que o Zé consertou o carro rápido. Na juventude tudo parece fácil! Hoje, se o carro falhasse, ficaríamos ali à espera.
Após um breve descanso, retomámos o caminho, ainda em silêncio, cada um perdido nos próprios pensamentos. Manuel recordava as excursões escolares com os colegas, enquanto eu, citadina, nunca tinha dormido ao ar livre.
Luísa, cansada, refletia:
Enquanto o filho está ao serviço, vamos separarnos. Ele não vai gostar, mas o que fazer? Já está decidido
A estrada finalmente nos trouxe ao topo do vale onde a aldeia se espalhava.
Que beleza! No verão tudo é ainda mais colorido, quente, com sol exclamou Luísa, encantada.
Sim, o clima aqui é sempre bom, primavera, outono ou inverno. Já vi o carro avariar, pena, porque já estaríamos aí respondeu Manuel.
Abrimos o portão, entramos no pátio e vimos Zé já a organizar as mesas. Correu ao nosso encontro, abraçounos.
E vocês vêm a pé? Onde está o carro? Por que não me avisaram? Eu teria vindo buscarvos! A estrada está realmente ruim, mas eu poderia ter vindo por outra via.
Não sabíamos que o autocarro não seguiria expliquei. Mas ao menos respirámos ar fresco e apreciámos a paisagem.
Luísa! gritou Tereza, esposa de Zé, abraçandoa com alegria genuína. Que prazer ter-vos aqui! Faz tempo que não nos vemos. Amanhã é o nosso jubileu, casamento de prata. O tempo passou num instante.
Zé e Manuel sentaramse a conversar, depois, depois de se trocarem de roupa, todos se sentaram à mesa. Passouse a noite no pátio, rindo, conversando, até que cada um foi para o seu quarto. Manuel e eu fomos acomodados num pequeno quarto com um sofá novo que Tereza nos mostrou.
Olha, comprámos este sofá recentemente disse Tereza, apontandoo. É novo, confortável. Boa noite.
Desci do sofá e encosteime à parede, deixando o resto do assento ao Manuel. Não dormíamos juntos; ele deitouse num canto, eu na parede.
Luísa, por que estás encostada à parede? Deitate direito, ainda há espaço para nós dois. As pernas devem estar a doer depois de cinco quilómetros brincou ele.
Não é a dor, é a forma respondi, sorrindo.
Manuel puxoume o cobertor e começou a massagear os meus pés.
Deixame, Manuel, vai passar. eu disse.
Silêncio, agora faço a massagem, vai ficar melhor respondeu ele.
No dia seguinte ajudámos a pôr as mesas no pátio e recebemos os convidados. As conversas começaram calmas e foram ganhando volume à medida que a música tocava, as canções surgiam e a dança tomava conta do ambiente. Na aldeia todos se conhecem, a alegria era contagiante.
Imagina, Manuel, vinteecinco anos com a Tereza, tudo o que temos parece pequeno comparado a isso. Às vezes brigamos, magoamonos, mas sempre nos reconciliamos. Não se pode ficar zangado por muito tempo disse Zé, rindo.
É verdade, Zé, meio século de história! Amo a Tereza, ninguém mais me precisa respondeu ele, orgulhoso.
Já chega, Zé sussurrou a esposa ao ouvido. Calma
Quero que todos saibam que a minha esposa é a melhor do mundo! exclamou Zé, e os convidados aplaudiram.
Eu observava a felicidade dos outros, ao mesmo tempo que sentia um turbilhão interno. Como poderíamos, naquele dia de celebração, anunciar a nossa separação? O ar estava impregnado de alegria, envolvendo a todos.
Olhei Luísa com novos olhos e pensei:
A minha Luísa não é menos que a Tereza! As desavenças são parte da vida. Por que agora decidir separar? Não quero perder a mulher que amo.
Sem pensar, abraceia. Ela me devolveu o olhar, surpresa, mas cheia de calor, amor e algo que ainda não compreendia. Logo percebi que também sentia o mesmo.
Talvez aquela festa tenha nos envolvido numa felicidade inesperada.
Deve ser a felicidade que nos rodeia pensou Luísa, sorrindo, e eu lhe dei um beijo na bochecha.
No dia seguinte, enquanto grelhamos espetadas no quintal, eu não a deixava escapar de vista; qualquer afastamento eu seguia com o olhar.
Zé ainda nos levou de volta ao autocarro para regressar à cidade.
Em casa, ao chegar, perguntei:
Luísa, o que fazer do carro? Consertar? Comprar outro? Não quero mais usar o autocarro para ir a Lameiro
Tu decides, se precisarmos comprar, vamos comprar. Tu sabes mais de mecânica respondeu ela.
Então amanhã de manhã vamos ao mercado de automóveis, dar uma olhada, porque ainda precisamos viajar juntos.
As discussões sobre o divórcio desapareceram como se nunca tivessem existido. O filho já voltou, casouse, e eu e Manuel seguimos felizes, como antes.
Não percas as novidades, segue a página! escrevi no final, mas no fundo sabia que a história que realmente importava era a nossa, escrita a cada passo, a cada decisão, a cada abraço.

