— Alô, Natália, não podes vir, estou a sentir‑me mal.

Alô, Lurdes, não dá para vir agora, estou mal. O Dinis e a Inês deixaram o Ciro comigo e foram visitar a tia, não consigo ligar para eles.
De novo deixaram? Mas que desleixo! Já chego, mãe.

Meiahora depois Lurdes apareceu na minha casa.

A pressão está nas alturas, não consigo baixar. A cabeça parece que vai estourar
Vai chamar a ambulância?
Não, só quero deitar. E o Ciro não para, pula pela sala, metese em tudo, ainda é pequeno, não entende nada

Levei o neto para o quarto ao lado.

Lá se vão outra vez, deixando o pequeno à avó enferma, faltalhe paciência. A avó já tem idade, é difícil ficar só com a criança, e eles não têm mais nada a fazer. Só festas e bebedeiras na cabeça.

Uma hora depois o filho e a esposa chegaram, ainda cheirando a álcool.

Dinis, a avó ficou mal e vocês não atendem às chamadas. Por que deixaram o Ciro com ela de novo?
Mãe, tudo bem! Ela está a fingir, na verdade está bem como uma rosa!
Não ousas falar assim! Sem dó nem piedade, vocês dois! Primeiro se mudam aqui e ainda sobrecarregam a pessoa idosa!
Mas não vão comprarnos um apartamento, onde vamos viver?
Ou então, ambos trabalhem! O Ciro já pode ir ao préescolar, aceitam às duas primaveras, e vocês vão ganhar a vida!

Trabalhamos, temos um blog, Inês e eu. Quando explodirmos, o dinheiro vai cair como água. Já investimos em publicidade, logo o retorno vem!
Isso é bobagem! Hoje os blogues são tão abundantes como pulgas em gato! E ainda não temos dinheiro para comprar casa, sabes bem. Antes de montar família, devia ter pensado nisso.
Não fui eu que a Inês entrou rápido! Foi um casamento forçado!
Como assim, não fui eu? Fiz tudo eu, não foi? interveio Inês, a voz ainda carregada de álcool.
Não comeces! Eu já te dizia para te defenderes Agora és tu quem tem culpa
Não quero ouvir as vossas ilusões de bêbado, vou embora. E não ofendam a avó!

Lurdes entrou no quarto da mãe e adormeceu; parece que a medicação fez efeito.

E não façam barulho, a avó está a dormir. Isso é tudo, já me vou

Quando a notícia de que Inês ainda esperava, tudo desandou. Foi preciso organizar um casamento rápido, simples, só com os parentes mais próximos.

Os jovens não quiseram alugar um apartamento, pediramnos que ficassem na casa da avó Ana.

Avó, tens dois quartos, dános espaço. A Inês ajudará nas tarefas, limpeza, cozinha, fazer compras.
Ah, netinho, como posso recusar ao meu querido neto? Quando nos estabilizarmos, compraremos casa e partiremos. Não será por muito tempo.
Avó, eu vivo só, mas vocês são barulhentas, vão pôr música, receber visitas. Ainda vai nascer uma criança, não haverá sossego E eu tenho hipertensão.
Tudo ficará bem, não te preocupes! Ainda vais ter a tua bisneta para mimar

Lurdes descobriu tudo quando Dinis e Inês mudaramse para a casa da mãe. Pediramnos silêncio, sabendo que eu iria oporme.

Filha, não te irrites. Vão ficar aqui um pouco e depois sairão. Não podem viver na rua
Foi um erro concordar. Melhor se o Dinis encontrasse trabalho, ao invés de viver à toa. Ajudarão a criança e ainda os pais da Inês dão algum apoio.
O Dinis abandonou a escola, sem profissão, não entrou no exército por causa da asma, e agora está a perder a razão

Nunca recusei ficar com o neto, mas quando começaram a trazêlo todos os dias, enfurecime.

São pais, têm de passar tempo com a criança, em vez de ficar a passear pelos amigos a gravar vídeos sem sentido. Tragamo aqui uma ou duas vezes por semana; tenho os meus afazeres.

Então passaram a deixar a criança à avó Ana. Ela achava difícil, mas Dinis prometia cada vez que não aconteceria novamente.

Lurdes, a tua mãe agora é estrela da internet, sabias?
Como assim? Ela não usa a internet.
O Dinis faz-lhe perguntas ridículas e responde a sério, depois zombam dela. Nos comentários, a gente fica horrorizado com a forma como os jovens ridicularizam a avó. Ela nem sabe, provavelmente gravam às escondidas.

Fiquei furiosa, não era brincadeira; era o limite da ousadia.

Saí da sala e liguei ao filho.

Alô, meu filho.
Lurdes, por que estás a filmar a avó e a publicar na internet? Perdeu a cabeça?
Não há nada de errado, é a moda agora! Ela só responde às perguntas, que há de tão difícil Qual o problema?
Foi a Inês que sugeriu. O conteúdo ao vivo gera likes, sabes quantos likes tem nos vídeos dela?
Não sei e não quero saber! Já tiraram todos os vídeos! É sujo, não percebem?
Não é sujo. Ela ajuda-nos a impulsionar a conta, vamos ganhar rapidamente e mudar de vida.
Resolvem os vossos problemas sozinhos! Envergonhem a avó ao mundo inteiro! Sem consciência! Apaguem o vídeo agora, ou ficarão na rua!

Obrigado, mãe Pelo apoio. Mas o vídeo não será apagado. O nosso blog já está nos tops graças a esses vídeos, surgiram ofertas de publicidade. Não te metas nos meus assuntos!

Desligou. Lurdes rugiu como um leão, sentindose traída.

À noite contou tudo ao marido, que também ficou furioso. Como ousam tratar a avó como piada?. O filho não atendia as chamadas.

Lurdes, vamos lá, eu falo com ele!

Dinis estava em casa, Inês passeava com a criança, e a avó Ana descansava.

Por que vieram? Tudo está bem aqui, ignorem os invejosos. Cada um ganha como pode!
Mas não gravem a avó às escondidas! Apaguem o vídeo na minha frente! Lurdes levantou a voz.
Isso não tem importância, mãe! Já sou maior, não preciso de tuas ordens!

Ah, então mudate para o apartamento e fica lá! Como uma mosca colada à avó! Ainda pedem a pensão à senhora, não tem vergonha?

Ela própria ofereceuse para ajudar. E a avó não é eterna; depois de partir, o apartamento será meu. Por que viver em casas alugadas? Só falta esperar.

Tal afronta fez Lurdes e o marido ficarem perplexos.

O apartamento será meu, sou a filha! Depois de tanto comportamento, pensarei cem vezes se devo entregálo ou não. Primeiro prova que consegues sustentar a família sozinho e então apaga os vídeos!

Por amor de Deus! Vamos embora, não verás mais o neto! Amanhã partimos!

No dia seguinte, Dinis não saiu. A avó Ana interveio.

Lurdes, este é o meu apartamento, não os expulsei. Deixemnos viver. Já me acostumei. Não é questão de mudar com a criança.

Vi o vídeo que Dinis tinha gravado; nada de escandaloso. Deixao continuar, assim talvez ganhe alguma coisa.

Surpresa, a avó disse:

Mãe, vê por ti mesma, vais viver convosco. Precisas de paz, eu também.

Dinis, sem escrúpulos, mantevese assim. Não te queixes então.

Duas semanas depois a avó Ana ficou gravemente mal. Chamaram a ambulância, mas não conseguiram salvara.

Alô, mãe, a avó Ana faleceu A ambulância não pôde O coração não aguentou

Como assim? De repente? Senhor Ontem ainda se sentia bem, não reclamava Vamos já com o pai

Lurdes ficou desolada, nem chegou a despedirse da mãe.

No funeral, Dinis chorava; Lurdes acreditava que era genuíno. Amava a avó, embora a irritasse.

Mãe A avó deixoume o apartamento por herança. Fiz a escritura pouco antes de falecer. Deverias saber. Não a pressionei, foi decisão dela.

Lurdes ficou atônita, calada. E agora?, pensou.

Alguns dias depois, a mulher foi à casa da mãe para recolher algumas coisas e distribuir aos vizinhos. A porta estava aberta, entrou silenciosamente. No quarto, ouviu a voz da Inês.

O que ouviu a deixou horrorizada.

Maribel, já não aguento viver com essa avó! Está sempre a reclamar, pede silêncio, não quer ficar com o Ciro. Quero viver sozinho, no meu apartamento. Não vamos conseguir a hipoteca, a renda é pequena, o blog rende pouco, o Dinis quer arrumar trabalho, mas quem o quer? Ainda tem asma. Quando a avó ficou mal, ele não estava lá, pediume medicação e ambulância só quando ela começou a asfixiarse. Ela acabou por morrer.

Lurdes irrompeu na sala, furiosa.

Porra! Fizeste tudo isso e ainda te gabas? Vou denunciar à polícia! Maldita!

Inês desligou rapidamente e, assustada, virouse para a sogra.

Não entenderam Eu inventei tudo O que está a fazer aqui?
O que eu faço aqui?! O que fazes tu? Vou contar tudo ao Dinis!
Ele não vai acreditar. Mesmo que acredite dou a mínima! O Ciro não é filho dele!

E foi assim. Não me segurarei a ele, a vossa família está toda desfeita!

Sai daqui, vadia!

Nesse instante Dinis entrou.

O que se passa, mãe? Por que gritam?

Dinis, a imaginação da tua mãe enlouqueceu.

Lurdes revelou a conversa escutada e a mentira de que Ciro não era filho do Dinis. Ele ficou estupefato, Inês tentou esconderse, fingindo não ouvir.

Inês, não é meu filho? E não ajudaste a minha avó?
Não vais provar nada. A avó tinha coração fraco, nenhuma ambulância a salvaria. O tempo acabou.

O filho não é teu, mas de Vítor. Ele me abandonou e foi embora; comecei a sair contigo logo depois.

A verdade iria à luz, cedo ou tarde. Já não fico aqui.

Dinis tentou agredira, mas Lurdes impediuo. Atônito, saiu da sala. Inês apanhou as coisas e saiu com a criança.

Não foram à polícia; sabiam que não havia provas, ninguém queria envolverse. O pecado ficou na consciência da Inês.

Dinis, também és culpado. Quantas vezes lhe disse para irem embora? A avó era boa, compadeciase, e vocês arruinarama.

Estou chocado, mãe Ciro não é meu filho, a avó morreu

E eu fui ao trabalho, apaguei o blog. Tudo era tolice. Era hora de mudar a vida.

Está bem, filho, é tempo de usar a cabeça.

Dinis acabou o casamento com a Inês, contestou a paternidade na justiça, encontrouse a trabalhar e passou a ganhar bem.

Lurdes viu o filho transformarse. Passou a ouvir os seus conselhos e a pedir opinião.

Logo casouse com uma boa moça, totalmente oposta à Inês.

Lurdes e o marido ficaram felizes por ver o filho finalmente agir como adulto, como pessoa decente, e esperavam que tais problemas nunca mais surgissem.

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— Alô, Natália, não podes vir, estou a sentir‑me mal.