Não te preocupes, Sérgio! Não fiques triste! Pelo menos o AnoNovo o celebraste em grande estilo!
Cheguei à minha terra. Desci do comboio na estação de Lisboa, atravessei a praça da estação e fui até ao ponto de autocarro. Nem avisei a Lurdes que ia chegar hoje.
O humor não estava dos melhores, porque ainda tinha a discussão amarga com a Lurdes. Ela costuma ficar a reclamar, a dizer que sou frio e egoísta.
E por que frio? Eu, aliás, queria desejar-lhe feliz AnoNovo, mas ela desligou o telemóvel. Ficou magoada!
Tentei ligar-lhe três dias seguidos, mas ela não atendia. Depois, cansado, parei de chamar.
Ainda por cima, nem sequer fez o esforço de cumprimentar os meus pais ou a minha irmã, muito menos a mim. Agora, assim que pise na porta, vai dizer tudo isto de cara.
Não é só culpa dela; ela também tem lá os seus deslizes, então que responda! Como dizem por aqui: “defender-se é atacar”.
Com esse pensamento, entrei no prédio do meu apartamento num humor quase de guerreiro.
O apartamento recebeume num silêncio sepulcral.
Olá! Tem alguém em casa? Lurdes, cheguei! gritei, mas ninguém respondeu.
Olhei a cozinha ela não estava lá; fui para um quarto vazio; outro também vazio. Mas de imediato reparei nas mudanças: o berço da bebé tinha desaparecido, o guardaroupa com a trocador e o carrinho que os meus sogros lhes deram já não estavam.
Corri ao armário: aquela metade onde normalmente penduravam as roupas da Lurdes estava vazia.
Será que ela perdeu a cabeça? Abandonoume? pensei.
Liguei para a sogra, mas nada. Depois tentei a Catarina, amiga da Lurdes. Também só silêncio. Por fim consegui falar com o Miguel, marido da Catarina.
Miguel, amigo! Passa o telefone da Catarina, não consigo falar com ela.
A Catarina está lá na aldeia com a filha, celebrámos o AnoNovo lá. Nas áreas rurais o sinal costuma ser mau.
Eu cheguei ontem porque tenho mudança hoje. Eles ainda estão a descansar, respondeume Miguel. Mas por que precisas da Catarina?
Pensava que ela sabia onde está a Lurdes. Vim da casa dos meus pais e a casa da Lurdes está vazia. Até as compras que fizemos para o bebé desapareceram.
Então a tua esposa ia tornarse mãe a qualquer momento, não é? E tu ficases a viajar nos feriados, deixandoa sozinha? espantouse Miguel.
Ela própria não quis ir. Mas marcaram a data: de 10 a 11 de janeiro. Teria sido fácil chegar a tempo.
Parabéns, Sérgio, és um fantasma, brincou o amigo.
Por quê? perguntei, confuso.
Porque provavelmente já estás viúvo! Fazcáte à tua cabeça: liga ao hospital, ela deve estar lá, aconselhou Miguel.
Dez dias antes…
Não percebo, filho, por que tens de ficar em casa no feriado? A Lurdes não quer viajar, então vais sozinho. O prazo dela é quase duas semanas, ainda dá tempo de voltares.
Ainda mais que a família inteira vai juntarse: a tia Vera e o tio Sérgio vêm, a Natália com o Vítor, a Olga com o Paulo. Eu, o pai e a Vânia com o Guilherme.
A Vânia reservounos quartos num hotel à beiradafloresta, de 30 de dezembro a 2 de janeiro.
No dia 31, há um jantar no restaurante com artistas convidados. Eu paguei por ti, depois me reembolsas. Ficas aqui até ao Natal e no dia 8 vais embora. Assim consegues chegar a tempo da data da Lurdes.
Lurdes recusouse a ir:
Sérgio, posso ser apanhada a qualquer momento. Imagina a cena: todo mundo a divertirse e eu de repente entra em trabalho de parto. E aquele hotel no campo será que a ambulância chega a tempo?
Não, não vou a nenhum lado.
A mãe tem razão, as mulheres hoje em dia consideram a doença um feito, o bebé um milagre. Ela trouxe-nos ao mundo, quase nunca ficou em licença e sempre deu conta de tudo.
Claro que eu sabia que a Lurdes tinha um ponto. Mas imaginei como seria monótono ficar só com ela na noite de AnoNovo, à mesa modesta. Ela já tinha dito que não ia fazer nada especial e eu fiquei triste. Enquanto a família toda ia cantar, dançar e festejar no restaurante. No fim, decidi ir sozinho.
No hotel do campo a coisa era realmente animada. Por volta da uma da manhã, já no AnoNovo, saí da sala para o átrio e tentei ligar para a Lurdes, mas não atendeu.
Tudo bem, fico chateado, mas afinal a culpa é tua. Poderias estar aqui a divertirte também, pensei.
No dia seguinte a mãe ficou ainda mais irritada com a nora:
A Lurdes nem sequer ligou para nos desejar feliz festa. Olha que desleixo! Estás a deixar a tua esposa à toa, filho.
Ela não entende o que é família de verdade. Nós estamos todos aqui e ela está lá sozinha. Que fique a pensar.
Lurdes naquela noite nem pensava no resto da gente. Se se lembrava de alguém, era de mim, nunca dos sogros ou da família inteira.
Os pais dela, ao saberem que a filha ficou sozinha nos feriados, chamarama para casa. Não tinham planos de fazer um grande jantar. O irmão da Lurdes trabalha em Lisboa numa fábrica que nunca fecha, então não tinha fim de semana prolongado. Por isso, os pais iam celebrar o AnoNovo a dois.
No dia 31, às nove da noite, a Lurdes e a mãe estavam a pôr a mesa quando, de repente, a Lurdes sentiu dores. Chamaram a ambulância. A mãe foi com ela, o pai seguiuos de carro.
A Lurdes acabou por nascer no hospital, e os pais ficaram à espera no átrio. A menina tornouse mãe
Resolvi seguir o conselho do amigo e liguei para o hospital.
A senhora? Ela foi dada de alta ontem, respondeu a recepcionista.
Como assim foi dada de alta? Já há um bebé?
Sim. Primeiro de janeiro, às meianoite.
Quem a recolheu do hospital?
Um jovem, não anotamos essa informação no registo.
Percebi que só os pais podiam levar a Lurdes e o bebé para casa. Comprei um ramo de rosas e fui até à casa deles.
Bati à porta, atendeu o sogro.
Boa tarde, vim falar com a Lurdes, disse.
Por quê? perguntou o pai da Lurdes.
Sou o marido dela, respondi.
Lurdes! gritou o sogro. Um homem aqui diz que é teu marido. Quer falar connosco?
Não, deixao entrar, respondeu Lurdes de dentro do apartamento.
O sogro levantou as mãos:
Não quer, até depois. Adeus, jovem! e fechou a porta.
Fiquei ali uns minutos e voltei a telefonar.
A sogra atendeu; era alta, forte e com voz que enche a sala. Admito que me deu um pouco de medo.
Não percebeste nada? disse ela.
Deixame entrar, comecei corajoso. Tenho o direito
Não consegui terminar. Ela arrancoume o ramo das mãos e, com vários golpes, bateume no rosto.
O teu direito vai saber o advogado! E não ligues mais, o neto está a dormir. jogoume o buquê ao pé e fechou a porta.
Saí para casa, esfregandome o rosto. As rosas eram bonitas, mas cheias de espinhos.
Cheguei e liguei para a mãe:
Imagina, nem me deixaram entrar em casa, nem me deixaram ver o filho.
Não te preocupes, Sérgio. A Lurdes vai voltar logo, com o bebé nos braços. Não a chores, nem lhe envies dinheiro.
Que os pais dela alimentem o bebé, se são tão espertos. Dentro de uma ou duas semanas ela volta. Agora vai dormir, amanhã tens trabalho.
Fiz exatamente isso: jantei umas pastéis de nata comprados no supermercado e fui para a cama. Dormi tranquilo, sem imaginar que seria a última noite naquele apartamento.
No dia seguinte, ao chegar do trabalho, encontrei tudo arrumado em caixas e sacos pretos no hall.
Liguei. Atendeu a sogra, dona do apartamento de dois quartos onde vivia a Lurdes e eu.
Então, querido genro? Lembraste do endereço da tua república estudantil? Precisas de ajuda? Vaise embora tudo o que fica aqui, amanhã a limpeza leva o resto!
Tive de mudarme para a república. O tribunal nos separou. O salário que recebia já vinha com descontos de pensão alimentícia e mais cinco mil euros para sustentar a exesposa, e não sobrava nada para um novo apartamento.
Sê mais poupador! Ainda tens de poupar para o teu futuro, aconselhou o Miguel. Não te abates! Pelo menos celebraste o AnoNovo em grande estilo!
A Lurdes ficou três anos a viver na casa dos pais, que a ajudavam com o pequeno Tiago; enquanto isso, o apartamento que tinham era alugado a terceiros. Quando ela voltou ao trabalho, ela e Tiago mudaramse novamente para o seu próprio lar. Depois da remodelação, já não havia nada que lembrasse o Sérgio e a sua família.
E então, o que achas do comportamento do Sérgio? Escreve nos comentários, dá um like.

