– Sílvia, mas lá no inverno faz frio!

Maristela, mas lá no inverno faz um frio do caramba! O aquecimento a lenha, tem que cortar lenha todo dia!
Mãe, tu és da zona rural, toda a tua infância foi assim, não foi? O avô e a avó viveram toda a vida na aldeia, nada de luxo. No verão é outra história horta, frutos silvestres, cogumelos na mata.

A Guilhermina tinha acabado de se habituar à vida de aposentada. Sessenta anos nas costas, trinta e cinco deles num escritório de contabilidade. Agora podia sentar ao sol da manhã, beber um bica, ler um livro e não ter pressa nenhuma.

Nos primeiros meses da reforma, ela desfrutava do silêncio. Levava-se quando queria, tomava o pequeno-almoço sem correr, ficava a ver os programas da TV.

Iria ao supermercado quando não havia fila, algo que depois de quarenta anos parecia um luxo.

A filha, Maristela, ligou num sábado de manhã:

Mãe, precisamos conversar. A sério.

O quê? preocupouse a Guilhermina. A Maria está bem?

A filha está bem, eu venho contar tudo. Não te preocupes!

Essas palavras fizeram a mãe preocuparse ainda mais. Quando a gente diz não te preocupes, costuma haver motivo para o fazer.

Uma hora depois, Maristela estava na cozinha, a acariciar a barriga já arredondada. Trinta e dois anos, o segundo bebé a caminho, mas ainda não casou com o Óscar. Eles viviam juntos há quatro anos; a filha, Margarida, já crescia, mas o casamento parecia não ser prioridade.

Mãe, temos um problema com a casa, começou a filha, mexendo nervosamente na alça do copo. A senhorita da arrenda vai subir o valor. Mal conseguimos pagar o que está agora, e agora exige mais dois mil euros por mês.

A Guilhermina assentiu, compreendendo a dificuldade dos jovens. Óscar pulava de bico a entregador, de carregador a vigilante; Maristela estava de licença maternidade e já planeava outra licença em breve.

Pensámos mudar para um sítio mais barato, mas ninguém quer largar a criança.

E o que é que vão fazer? perguntou a mãe, já a pressentir uma enrascada.

Por isso vim, Maristela apertou a gola do casaco. Mãe, podemos ficar na tua casa, temporariamente? Enquanto juntamos dinheiro, talvez até façamos um crédito habitação.

A Guilhermina tomou um gole de chá. O apartamento antigo de dois quartos já estava apertado, e agora iam entrar mais duas pessoas, incluindo outro bebé.

Maristela, como é que vamos caber? Só tenho dois quartos, e são pequenos.

Vamos arranjar, mãe. O essencial é poupar. A renda agora são treze mil euros. Imagina: num ano chega a cento e cinquenta mil! Esse dinheiro poderia ser a primeira entrada da casa própria.

A mãe visualizou o cenário: Óscar a fazer barulho na sala, a Margarida chorando, os brinquedos espalhados, a TV ao máximo.

Onde vai dormir a Margarida? tentou a mãe achar um argumento sensato.

Põese um berço no quarto grande, tu ocupas o pequeno. Não precisas de muito espaço um sofá, a TV. Está tudo bem!

Mas mãe, acabei de entrar na reforma, quero um pouco de tranquilidade. Trabalhei quarenta anos, estou cansada!

Maristela suspirou, como se a mãe tivesse dito algo absurdo:

Mãe, a quem interessa a tranquilidade aos sessenta? Ainda és jovem, saudável. As avós da tua idade cuidam dos netos o dia inteiro.

Foi quase um reproche, como se dissesse que as outras avós são úteis e a dela egoísta.

E ainda tens a quinta, não? A casa de campo que a avó mantinha sempre impecável. Podes viver lá. Ar puro, silêncio, perfeito para uma pensionista.

Na quinta? repetiu a Guilhermina, incrédula.

Sim. Casa robusta, horta, tomates os médicos recomendam que os mais velhos passem mais tempo ao ar livre.

Sentiu o coração arrefecer. A quinta ficava a trinta quilómetros da cidade, o autocarro só passava de manhã e à noite.

Maristela, mas lá faz muito frio no inverno. Aquecimento a lenha, tem de cortar lenha.

Mãe, tu és do campo, sabes bem como é. No verão, colheitas, frutos, cogumelos

A filha falava como se oferecesse um resort de luxo, não um recanto rural sem comodidades.

E se precisar de médico? De farmácia? De supermercado?

Não vais ao médico todos os dias, mãe. Só uma vez por mês para o checkup, basta. E compras por grosso, guardas tudo no congelador. A tua câmara fria é grande, não é?

Maristela, e os meus amigos? Os vizinhos com quem sempre convivo?

Telefonem! Ou venham à quinta, fazemos um churrasco. Vai ser divertido!

A Guilhermina não acreditava no que ouvia. A filha queria transformála numa campistasolitária, só para libertar o apartamento?

Maristela, quanto tempo pretendem ficar aqui?

Pelo menos um ano, talvez um ano e meio.

Um ano ou um ano e meio! Todo aquele tempo num apartamento de dois quartos, ou viver sozinha na quinta.

E o Óscar, o que acha?

Ele está a favor! exclamou Maristela. Diz que estar na quinta será muito melhor que a cidade. Sem stress, sem correria.

Podes ler livros, ver a tele. Óscar até quer instalar uma antena de satélite para ter mais canais.

A mãe imaginou Óscar a pensar no bemestar dela, deitado no sofá favorito, oferecendo ainda a antena.

Pensa, mãe, o que vais fazer nos dois quartos sozinha? Não há benefício nenhum. Nós vamos nos organizar, poupar, levantarnos.

Quando é que se mudam?

Amanhã, se quiseres. Temos poucas coisas. A casá a nova dona da casa já procura novos inquilinos, queremos sair até ao fim do mês. O tempo aperta.

A Guilhermina serviu mais chá com a mão trêmula. Maristela a observava, esperando o sinal. Nos olhos da filha: Então, mãe, vais negar à própria filha quando ela pede ajuda?

E se vocês não chegarem a ficar juntos? Não são oficialmente casados.

Mãe, importa? Estamos juntos há quatro anos, os filhos são nossos. O casamento não muda nada.

Mas se houver briga?

Não vai haver briga respondeu firme Maristela. E, mesmo que algo aconteça, o apartamento continua teu.

A mãe sabia bem quem era Óscar: apareceu aqui, foi lá, mudava de emprego a cada seis meses, amigos que vinham e iam. Ela conhecia bem a relação instável.

Mãe, eu só queria um pouco de sossego depois de tantos anos de trabalho.

Mãe, o que significa para mim aos sessenta? rebateu a filha, como se fosse só questão de dever. É sagrado apoiar os filhos e netos!

Maristela jogava com os sentimentos da mãe como quem joga cartas.

E se eu disser não? Se não puder receber-vos?

Maristela ficou em silêncio, suspirou e pousou as mãos na barriga:

Mãe, não sei o que vai acontecer. Estou a dizer a verdade. Vai doer muito se recusares. Vai ser uma mágoa enorme, porque a mãe recusa a filha em momento de necessidade.

Era quase uma ameaça velada, um ressentimento que poderia durar a vida inteira.

Então, para onde vamos? soluçou Maristela. Com dois bebés e sem dinheiro. Óscar pensa em ir para a casa da mãe dele, mas ela só tem um quarto e não nos quer muito bem.

A mãe conhecia a sogra de Óscar mulher dura, direta. Maristela não aguentaria lá.

Mãe, ajudanos! Só um ano! Não vamos atrapalhar. Vai à quinta quando quiseres, tira um descanso da cidade.

E tenho que ir lá frequentemente?

Quando puderes. Talvez nos fins de semana vires à cidade comprar as compras e encontrar as amigas. Nos dias úteis, fica na quinta silêncio, paz, perfeito para alguém da tua idade.

Está bem disse finalmente Guilhermina, sentindo o alívio. Mas só um ano, exatamente um ano, e vocês têm que economizar, juntar dinheiro e procurar casa própria.

Maristela abraçou a mãe com força:

Obrigada, mãe! És a melhor! Vais ver que tudo vai correr bem, não vamos incomodar, vamos cuidar de tudo.

E eu vou à quinta quando quiser, acrescentou a Guilhermina. Essa é a minha condição.

Claro, mãe! A tua casa, as tuas regras. Somos convidados, entendemos.

Uma semana depois mudaramse. Óscar organizou as suas coisas no armário, a Margarida corria pelos quartos, Maristela dirigia a logística. A Guilhermina ficava no meio da confusão, a fazer a mala para a quinta, sentindose como exilada da própria casa.

Os primeiros meses foram um verdadeiro inferno. Óscar aprendeu rápido a aumentar o volume da TV, a falar ao telemóvel a toda hora. O frigorífico encheuse de bebidas energéticas e batidos de proteína.

Maristela exigia atenção constante: Está quente, está frio, a música está alta. A Margarida chorava à noite, os brinquedos espalhados por todo o lado, desenhos animados a tocar do amanhecer ao anoitecer.

A Guilhermina ia à cidade uma vez por semana comprar mantimentos e remédios, e sempre ficava horrorizada com o caos. A cozinha transformouse num monte de loiça suja, a casa de banho em campo de roupa de criança e meias de Óscar. O sofá favorito ficou manchado de sumo e bolachas.

Maristela, podemos arrumar um pouco? sugeriu a mãe.

Mãe, quando eu consigo? rebatiu a filha. O bebé é pequeno, estou cansada, Óscar trabalha o dia inteiro e precisa de descansar à noite.

Eu ajudo enquanto estou na cidade.

Não, mãe, damos conta. Primeiro o bebé, depois limpamos tudo.

Mas o depois nunca chegava. A Guilhermina lavava a loiça, aspirava, limpava o pó, mas a cada volta tudo voltava ao caos.

Na quinta, sentiase como uma exilada. A cem quilómetros da civilização, a mercearia mais próxima a três quilómetros, o autocarro duas vezes por dia.

As vizinhas comentavam:

Gala, por que estás aqui o ano inteiro? Tens um apartamento na cidade.

A filha tem a família aqui temporariamente, estamos a juntar dinheiro para a própria casa.

Ah, claro. Os jovens precisam de ajuda.

Não dá para explicar às vizinhas que a casa foi ocupada pela filha e pelo seu companheiro, e que foram gentilmente expulsos para o campo pela saúde.

O inverno na quinta foi muito duro. A lenha acabava rápido, a água tinha de ser aquecida no fogão. A Guilhermina sentiase isolada no fim do mundo.

Seis meses depois, Maristela deu à luz ao pequeno Dinis. A mãe esperava que agora eles procurassem um lar definitivo. Mas quando a filha voltou à cidade para visitar o recémnascido, disse:

Mãe, com dois bebés não vamos encontrar nada adequado. Vamos ficar mais um ano, pode ser?

E a Guilhermina percebeu que a mentira começou desde o princípio. O ano transformouse em dois, dois em três.

Ela vai viver os seus dias de reforma naquela quinta abandonada? Já chega!

A filha e o filho foram desalojados com a polícia, porque recusaram sair. Palavras ofensivas, ameaças, tudo contra a Guilhermina.

Ela já não se importava, pois o acordo era por um ano e cumpriuo. Será que tem vergonha perante a família e os vizinhos? Como dizem, quem planta colhe.

E então, o que achas? A mãe fez a coisa certa ou passou dos limites? Contanos nos comentários e deixa um like!

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