Mamã, estás a pensar dar o nosso apartamento ao filho do teu irmão? E depois vais viver aqui comigo? Não deixo isso acontecer!
Nem sequer lhe penses! Mamã, estás a perder a cabeça? Ouveste a ti própria? Ele vai despejarte assim que puder, não percebes?
Benedita, não discutas comigo! Já decidi!
A mãe tentou inicialmente manter a postura, exibindo independência e confiança nas suas palavras. Mas, num sobressalto, o orgulho cedeuse ao pranto, porque no fundo sabia que estava a ser injusta com a própria filha.
A raiz do problema era que Tiago, o irmão mais novo de Benedita, sempre fora o filho predileto. Catarina Silva só o trouxe ao mundo quando já ultrapassava os trinta anos, enquanto Benedita chegou cedo, quase por capricho.
Por isso, a filha era tratada como tálá, está bem. Cresceu quase que só sob os braços da mãe, que, naquela época, havia prometido terminar o Instituto. Quando Tiago foi concebido, Catarina já casara pela segunda vez e já se deliciava com a maternidade.
Benedita observava tudo isso com olhos críticos, mas não compreendia por que a mãe repartia o carinho tão abertamente com o irmão. Normalmente os pais tentam ser discretos, mas a sua mãe nada escondia: Tiago era o favorito.
Ainda assim, diziase que nunca houvera uma relação quente entre irmãos. Estranho, não? Talvez houvesse razões ocultas. Tiago, desde pequeno, recebia tudo de melhor, enquanto Benedita tinha de se contentar com o que havia, sem ousar reclamar.
O dinheiro fluía mais para ele. É homem, tem de ser assim, justificava a mãe. A diferença de idade apenas dois anos a menos que Benedita não tinha importância.
Lembrate, Tiago, quando crescer, vais sustentar a tua família. Até lá, devo ajudálo! dizia Catarina.
E eu, mamã?
Tu? O teu papel é casar bem e segurar o marido, dizia a mãe, enquanto espalhava o prato sobre a mesa.
Benedita retrucou, afirmando que não queria depender de ninguém, que desejava crescer como pessoa, inclusive profissionalmente.
Que disparate, palavra de honra! Não te faz rir?
O que há de tão engraçado?
Que na nossa família ninguém jamais pensou assim.
Então serei a primeira.
Sem entender a lógica materna, Benedita recusouse a seguir o caminho traçado. Graças a essa decisão, logo se mudou para um apartamento arrendado. Foi como respirar ar puro depois de anos sufocados sob o mesmo teto com Tiago e a mãe. Quanto mais envelhecia, mais dolorosa a convivência.
Cinco anos passaram. Benedita conseguiu um crédito à habitação, comprou o seu próprio lar e já estava a pagar as prestações. Tiago ainda vivia com a mãe, tinha trazido a esposa Ana para o mesmo apartamento e, dentro de meses, esperavam o primeiro bebé.
Catarina era do tipo que se contentava com o que tinha, mantendo essa postura por muito tempo.
Imaginas, filha, a nossa vizinha acabou de comprar uma máquina de lavar loiça. Não foi ela, claro; os filhos deram-lhe.
É bom.
Eu também gostaria, mas tenho medo de me envergonhar!
Por quê?
Porque o Tiago está com dificuldades no trabalho; daqui a pouco vão despedirlo e ele terá de procurar outro. Ana está de licença maternidade e recebe apenas o subsídio mínimo.
Além disso, Tiago nunca gostou de partilhar o próprio dinheiro. Achar que viver à custa da mãe era suficiente, como se o frigorífico se enchesse por magia.
Tiago, quando é que vai despertar a tua consciência? explodiu Benedita ao encontrar o irmão no supermercado. Ele estava a comprar batatas fritas e pipocas para o próximo jogo de futebol.
Que críticas são essas?
Ajuda a mãe financeiramente! A pensão dela não é infinita. Sabes que ela paga tudo à própria conta?
Tiago desviou o olhar, percebendo a razão da irmã.
E tu? Não vives connosco, então?
Sinto pena da mãe!
Põe-te no teu lugar. Não tens família nem marido. A tua mãe anda a sofrer por aí!
Ele virouse e saiu, deixando Benedita paralisada. Tiago sabia exatamente onde acertar o ponto mais doloroso e utilizouo com mestria.
Aos trinta e cinco anos, Benedita ainda não se tinha casado. O seu antigo namorado a traíu, e ela não estava pronta para novos relacionamentos.
Moça, precisa de ajuda? perguntou a vendedora.
Não, obrigada.
Benedita sabia que estava a fazer a coisa certa. Tiago já não era um adolescente; era marido e pai de um bebé recémnascido, devendo assumir as responsabilidades, em vez de viver às custas da mãe e perseguir apenas os próprios interesses.
Benedita, como te atreves a dizer isso ao teu irmão? começou Catarina, furiosa.
Mamã, só falei a verdade e até te defendi.
Eu pedi isso a ti? Por sinal, foi por tua causa que Tiago começou a gritar por todo o apartamento. Temos um bebé, não percebes?
Por minha causa? Que papel tenho eu aqui?
Benedita ficou sem saber como reagir às palavras da mãe.
Nem precisavas dizer nada ao Tiago. Sabes o quão vulnerável ele é.
A mãe falava de Tiago como se fosse um ser à parte, nunca se lembrando dos sentimentos da própria filha que a amava. Mesmo quando Benedita se ergueu para repreender o irmão e defender a mãe, acabou por ser culpada novamente.
Seis meses depois, Benedita não falava com eles. De repente, a mãe ligou e pediu que fosse à casa. Nada mudara no apartamento; a máquina de lavar ainda não havia sido comprada.
Onde está o Tiago e a Ana?
Convidaramnos para um aniversário. Eu e o Sashinho estamos aqui. Passas, tomas um chá?
Não, mamã, não quero. Parece que queres falar comigo.
Sim, tomei uma decisão muito importante. Quero dar o apartamento ao Sashinho.
Benedita quase riu, achando que a mãe estava a brincar ou a testar a sua reação.
Queres dar o apartamento que partilhamos ao filho do teu irmão? Mamã, estás fora de si? Ouveste a ti própria?
Benedita, não discutas! Decidi assim!
Claro que a filha tentou explicar os graves riscos daquele ato, mas Catarina mantinhase firme.
Então, além de lhes servir tudo, ainda pretendes transferir a propriedade?
Não exagero, só estou a ajudar.
E a Ana, o que está a fazer agora?
Cuida do bebé. Sabes que isso será mais difícil que qualquer trabalho.
Disse a Ana isso? Vejoa sempre a publicar nas redes.
Não percebes nada, Benedita! É porque não tens filhos que julgas tudo assim.
Benedita percebeu que não devia ter ido. Seis meses sem contato e nada mudou.
Vejo que chegaste com o carro novo. Foi à crédito? indagou a mãe.
Não, comprei à vista.
Mesmo assim, não ajudaste o irmão. Ouviste que o despediram; ele está sem dinheiro enquanto procura emprego.
Benedita continuava a ficar perplexa com as razões da mãe. Tiago, afinal, era um adulto que um dia teria de sustentar a própria família.
Onde queres chegar com isso?
Não estou a insinuar; estou a dizer claramente. Poderia comprar um berço novo para o bebé, em vez de usar o velho. E preciso de uma máquina de lavar, as minhas mãos doem a tanto lavar louça.
Tenho tempo, mamã.
Benedita dirigiuse à porta, mas a mãe não cessava o desabafo. Antes de sair, lançou a única pergunta que lhe ficou.
Mamã, se transferires o apartamento para o neto deles, vãote despejar. Onde ficarás?
Catarina, obstinada, não quis ouvir a filha.
Ah, Benedita, que teima! O Sashinho é o meu único neto! Não terás netos e nunca te casarás. Não me surpreende; o teu carácter é mau, só pensas em ti!
Essas palavras apagaram todo o desejo de Benedita de provar algo à mãe. Assim, disse que, se todos fossem tão maravilhosos, podiam comprar a máquina de lavar para ela. Ela seguiria a sua vida, por mais difícil que fosse. Não havia escolha; Catarina já tinha tomado a sua decisão há muito tempo.
E assim é. O que se planta, se colhe. A velhice está a chegar, e não há como fugir.
O que acham desta história? Partilhem as vossas opiniões nos comentários e deem um like.

