– Aguenta, filha! Agora estás numa outra família e deves respeitar as suas regras.

Aguenta, filha! Agora fazes parte de outra família e tens de levar em conta os hábitos deles. Casastete, não vieste só de passagem.
Que hábitos, mãe? Eles são todos loucos aqui! Especialmente a sogra! Ela odeiame, isso está claro!
Já ouviste alguém dizer que sogras podem ser boas? diz a mãe ao telefone, a voz carregada de preocupação.

Na cozinha da casa de Vila Nova de Cerveira, a sogra, Dona Mariana Alves, está de pé, o rosto ruborizado de ira e os olhos a arder de fúria. Se o marido anda à beiradaestrada, a mulher tem a culpa. Que mais devo explicarte? exclama.

Dona Mariana está em frenesim, a berrear contra a nora Lurdes como se fosse insana. Tudo porque Lurdes suspeitou que o filho, Pedro, a traía.

Lurdes, jovem e delicada, com olhos grandes e inocentes, encostase à parede, tentando convencer a mulher enfurecida.
Mariana, isto é desproporcional. Ele tem família, filhos tenta argumentar, mas a sogra interrompeo, abanando a mão como quem afasta uma mosca irritante.
Isso é família? Ou é a tua criança que não deixa o avô chegar perto? retruca, desprezandoo. Que educação, afinal!

Que educação, Mariana? O Tiago ainda tem só um ano. É ainda muito pequeno contesta Lurdes, a voz trémula.
Pequeno? a mulher esguiouse. O neto dos Eiras é ainda menor. Vai a mãos, não tem jeito gesticula, apontando para o quarto da criança.

Na verdade, ele é teu neto responde Lurdes, ainda trêmula. As crianças sentem as más intenções. Talvez por isso ele não venha a ti.

Somos nós os maus? grita a sogra, a voz a subir. E tu, onde vives à custa dos outros? De quem são os mantimentos? De quem é o dinheiro? Ingrata!

Lurdes cansa de discutir com a sogra explosiva. Já pediu mil vezes a Pedro que vivesse separado dos pais, mas Pedro, filho mimado, não vê necessidade. Gosta de viver na casa dos pais, sentese como numa alcova segura. Vai ao trabalho tranquilamente, enquanto os avós cuidam da roupa, da limpeza e da comida uma vida de conto de fadas.

Lurdes tentou inicialmente aproximarse da sogra, ajudandoa nas tarefas, ouvindo as queixas intermináveis sobre vizinhos e sobre a vida. Mas, com o tempo, percebeu que tudo era inútil. Por mais que fosse obediente, a aversão da sogra não cedia.

Trouxe para casa essa incômoda, como se não houvesse meninas boas confidenciava Mariana à vizinha Manuela, a fofoqueira da aldeia, enquanto Lurdes recolhia os brinquedos espalhados por Pedro no canto da casa.

Até à outra aldeia foi ela correr! As nossas avós são mais fortes, mais trabalhadoras e mais inteligentes.
Nem se fala! reforçava Manuela, já tendo lavado a boca de toda a aldeia.

Eu sei que não sabes o que fazer. E tu, Mariana, sempre disseste que as mãos não são das tuas. Não dá para pôr nada em ordem. dizia Manuela, rindo.

Não tens ideia do tamanho do problema! Não se pode confiar nada a ela. Ou perde, ou quebra. E a criança não é boa. completava.

O neto dos Eiras é outra história. Calmo, inteligente. Este, porém, está sempre a fazer drama. Os genes não são os mesmos. dizia Manuela, concluindo.

Quando a situação se torna insuportável, Lurdes liga à mãe no vilarejo vizinho, desabafando e a chorando.
Aguenta, filha! Agora fazes parte de outra família e deves respeitar os costumes deles. Casastete, não vieste só de visita.
Que costumes, mãe? São todos loucos aqui! Especialmente a sogra! Ela odeiame, isso está claro!
Alguma vez ouveste falar de sogras boas? Todos passámos por isso e tu também terás de passar. O importante é não deixar transparecer o quanto está a doer. Aguenta.

Sabendo que não conseguiria mudar a mãe hesitante, Lurdes ameaçaa:
Vou chamar o meu pai e queixarme.
Tenha medo do teu pai! a mãe responde assustada. Sabes que ele tem pena condicional. Um passo errado e podem prender o teu pai!

Lurdes entende tudo. O pai, António, ama demais a única filha. Cumpriu a pena condicional por uma briga na mercearia, quando alguém insultou Lurdes. Sabia que António não ficaria calado se soubesse das humilhações que a sogra lhe infligia.

Não direi ao pai diz Lurdes. Mas se a sogra continuar assim nem sei o que farei.

Tudo vai ficar bem, filha insiste a mãe, tentando acalmara. Em duas semanas nem te lembrarás desta conversa.

Lurdes tenta não pensar na sogra, mas a relação não melhora. Mariana parece ainda mais amarga, como se Lurdes fosse a culpada por todas as suas desgraças. Até o marido, o avô Tiago, homem idoso e cansado, não aguenta mais.

Por que gritas assim com a jovem? intervém Tiago numa manhã, quando a discussão chega ao ápice. Vai embora! É o melhor!
Eu vou embora! exclama Mariana, lançando a sua fúria contra o marido. Vou à justiça, quero cada euro que nos gastaram nesses anos! Vou levar a criança para que não cresça nesta família miserável!

Lurdes sente o absurdo da fala da sogra, mas ainda tem medo. Ainda ama o marido, Pedro.

Os rumores de que Pedro, em segredo, sai com a exnamorada Óscar apareceram como fofocas de aldeia, espalhadas por mulheres como Mariana.

Se a sogra não fosse tão tagarela, quem sabe quanto tempo duraria o tormento? Certa tarde, ainda de bom humor após uma vitória contra Lurdes, Mariana contou as proezas à melhor amiga, a avó Manuela, que logo emendou a história a outra vizinha e ao marido.

A história da nora difícil chegou ao pai de Lurdes, um homem robusto, quase dois metros de altura, com ombros largos. Ele pegou o machado que usa para cortar lenha, vestiu o casaco de trabalho, subiu na sua velha mota Ural e, sem dizer palavra à esposa, conduziuse ao vilarejo vizinho para libertar a filha do aprisionamento humilhante.

Nesse momento, na casa de Mariana, estourou um escândalo real. A jovem mãe, por um instante, deixa o bebé Tiago num sofá amarelolaranja novo para buscar uma fralda fresca. Quando regressa, vê uma mancha castanha sob o bebé. Para Mariana, aquela mancha parece um buraco negro pronto a engolir a casa inteira. Aparece como uma tempestade e, de imediato, grita contra Lurdes:
Estragaste o sofá! O meu! Sabes quanto custou? Vou arrancarte as mãos e depois costurálas onde quiser!

Eu limpo tudo, vou limpar tenta Lurdes, a mão a tremer ao apanhar o pano.
O que vais limpar? É novo! Como é que sabes? Nunca compraste nada com o teu dinheiro!

E vocês? Compram tudo? exclama Lurdes, perdendose no grito, acusando a sogra de viver à custa do marido.
Olha para ela! Basta de insolência! a cara de Mariana ficou ainda mais vermelha.
Lavar a mancha e depois levar o filho ao nosso vizinho! Viverás aqui a nos irritar até aprenderes boas maneiras!

Lurdes, a chorar, tenta esfregar a mancha. O pormenor castanho se recusa a sair da tapeçaria brilhante, como se zombasse da sua impotência. O pequeno Tiago, sentindo a ansiedade da mãe, grita, o choro dele eleva ainda mais a tensão.

Mariana continua a despejar insultos. Nem percebe que, na porta, surge uma figura desconhecida: é António, o pai de Lurdes. Ele está ali, como um monólito, a mão segurando firme o cabo do machado.

Num instante, Mariana se vira, percebendo a presença. O olhar pousa no machado. Ela sabe bem que António é um homem de temperamento quente e conhece o seu passado condicional. O medo atravessa instantaneamente a sua pele.

Percebendo que António já ouviu o suficiente e que a situação tem gravidade, Mariana tenta ainda defenderse, a voz a tremer.
Ah, António! Eu só estava a educar a tua filha

Ouvi o que fazes com ela responde António, com tom grave, entrando na casa apenas com os sapatos. Levanta o machado acima da cabeça, fazendoa fechar os olhos e recuar. Em vez de um golpe, põe o machado no ombro e estende a mão a Lurdes.
Vamos, Lurdes, não tens nada a fazer aqui.

Espera, sogro! grita Mariana, recuperando a compostura. O que direi ao meu filho?

Que o teu filho venha a mim, com a esposa, e eu falarei com ele. diz António, lançando um olhar gelado que fala mais que mil palavras.

António leva Lurdes e o pequeno Tiago para fora. Pedro hesita em chegar, temendo o confronto com o sogro, mas acaba por vir. António conversa calmamente com Pedro, sem ameaças, mas a sua voz firme e o machado sobre a mesa dão peso às palavras. Pedro promete que viverá separado da sogra, que a mãe não interferirá e que protegerá a esposa e o filho.

Quando António apertou a mão de Pedro, o rapaz sentiu que as brincadeiras não eram mais uma opção e que as promessas teriam de ser cumpridas.

Desde então, Mariana evita a nora e o neto. Não os cumprimenta na rua, nem lhes dirige palavra. Pedro e Lurdes passam a viver separados dos pais, em harmonia e compreensão. Seja pelas lições do sogro ou pelo verdadeiro amor, a família reencontra a paz.

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– Aguenta, filha! Agora estás numa outra família e deves respeitar as suas regras.