— Mãe, pai, olá, vocês nos pediram para vir, o que aconteceu? — Maria e o marido Luís simplesmente invadiram o apartamento dos pais.

Mãe, pai, olá, vocês nos chamaram, aconteceu o quê? Anália, ao lado do marido Tiago, empurrouse pela porta do apartamento dos pais. Na verdade, tudo aquilo já havia acontecido há muito tempo. A mãe estava enferma, com uma doença grave, estágio avançado

Irene tinha acabado de fazer um ciclo de quimioterapia, depois radioterapia. Havia entrado em remissão e os cabelos já reapareciam timidamente. Mas ainda era cedo para respirar aliviada; a doença voltava a se intensificar.

Analiça, Tiago, boa noite, entrem, disse a mãe, pálida e enxuta, como uma menina de porcelana.

Filhos, sentemse, por favor. Temos um pedido estranho, escutem a mãe, o pai, Bento, dizia com o olhar perdido entre a realidade e o sonho.

Anália e Tiago sentaramse no sofá, os olhos cintilando de curiosidade. Irene suspirou, lançouse um olhar ao marido, Beto, como se buscasse apoio.

Analiça, Tiago, não se espantem, tenho um pedido bastante incomum. Na verdade Pedimos muito.

Adoptai para nós, com o pai, um rapazinho, por favor! Não nos deixam por causa da idade, e por outras razões.

Um silêncio de um minuto tomou conta da sala.

Primeiro, a filha despertou:

Mãe, acho que vai ficar surpresa, há tempos planejávamos, mas temíamos dizer. Tiago e eu queremos muito um filho, e já temos duas netas as suas e do pai, a Madalena e a Antónia.

Não há garantia de que o terceiro será menino. Além disso, a saúde já não é a mesma; a cesariana de Margarida foi complicada. Os médicos desaconselham mais partos. Pensámos, então, em adotar um menino do lar de crianças.

Trazer para a nossa família um pequeno príncipe. E então, mãe, tu nos dizes a mesma coisa. De onde tiras essas ideias?

Analiça, nem sei por onde começar, Irene acariciou, tremendo, o ouriço de pelos que brotava na nuca, o problema é que sinto-me pior outra vez.

Então chegou a minha amiga, tia Nádia, da antiga fábrica, lem­brestes? Ela tinha uma pinta sobre o olho que quase o cobria. Diziam que deveria removerse, que a pinta poderia mudar. Quando Nádia voltou, a pinta desaparecera; o rosto estava perfeito.

Visitámos a avó Zinha no interior, de Sintra, e ela contounos histórias. Nádia insistiu: vamos até à avó Zinha, que ajuda gente de todas as aldeias. Pensei no que estava a perder e partimos.

Anália e Tiago ouviam a narrativa de Irene, prendendo a respiração, sem perceber ao que tudo isso conduzia.

Então, crianças, continuou Irene, a avó Zinha fez-me uma pergunta insólita: Já tens filho?

Ao saber que eu tinha apenas uma filha, Analiça, e duas netas, Madalena e Antónia, a avó Zinha insistiu: E a outra filha, o que aconteceu?

Fiquei surpresa, porque ninguém, exceto o pai e eu, sabia que eu tinha tido um aborto tardio. Era para nascer um menino, o primogénito, para ti, Analiça.

Mas ele não sobreviveu, Irene apertava o canto da camisola com as mãos trêmulas.

E depois? Anália fitava a mãe com olhos enormes.

Depois, a avó Zinha me disse: Adota um menino. Ela saiu, e as lágrimas escorreram como se eu fosse culpada por não ter conseguido guardar o primogénito.

Agora tenho de dar calor e amor a outro menino, equilibrar o que se quebrou.

E, escutandome, percebi que realmente queria isso. Eu e o pai temos condições de oferecer ao pequeno tudo o que ele precisa: carinho, abrigo, esperança.

Não é só para nos curar. Surgiu em mim um desejo consciente: salvar da orfandade e da solidão ao menos uma vida diminuta. Entenderamme?

Mamã, percebi e apoiote totalmente, Anália, entre lágrimas, abraçoua, vamos fazer assim!

Anália e Tiago já tinham conversado com a direção do lar de crianças, a Casa do Sol, em Coimbra, e pediram para ver os menores. Irene e Bento também foram.

Na sala de jogos, um tapete colorido acolhia crianças de três anos ou mais.

Mãe, olha aquele menino ruivo, parece contigo, está a montar uma pirâmide com tanto afinco que até a língua se projeta, Anália apontou suavemente para um garoto no chão.

Irene sorriu, também gostou dele. De repente, do canto da sala, surgiram palavras indistintas.

Irene virouse; num recanto, ao lado, estava um rapaz mais velho, olhos tristes, a sussurrar quase inaudível.

Dizesnos algo? Repete mais alto, não ouvi, pediu Irene.

O menino deu um passo, repetiu: Tia, por favor, levame contigo, prometo que nunca te arrependerás. Levame

Rapidamente, Anália e Tiago assinaram os papéis e adotaram Miguel. Madalena e Antónia ficaram orgulhosas ao ganhar um irmãozinho.

Miguel adaptouse rapidamente, chamando Anália de mamã e Tiago de papá. Passava muito tempo na casa da avó Irene e do avô Bento, que moravam perto e a escola ficava a uma curta caminhada.

Ele chamava Irene de mamã Ira, curiosamente, embora não fosse avó. Ela, prendendo a respiração, viao como se fosse realmente o filho que nunca chegou a nascer.

Por insistência dos médicos, Irene iniciou um novo ciclo de tratamento, mas a doença avançava.

Miguel lhe fitava os olhos, acariciava o cabelo curto.

Mamã Ira, por que estás doente? Quero que melhories!

Não sei, Miguel, isso acontece, mas vou lutar, prometote, dizia Irene, encantada com o nome mamã Ira.

Bento conversou com o cirurgião, que insistia numa operação.

Qual a probabilidade? perguntou Bento.

O médico foi direto:

Cinquenta por cinquenta. Faremos tudo o que for possível, e isso pode salvála.

Então, Bento e Irene decidiram arriscar.

No dia da cirurgia, todos estavam de nervoso. Anália ligava incessantemente ao pai. Bento combinou com o médico que o manteria informado, e ele estava como em agulhas.

Ele não sabia onde Miguel estava. Encontrouo no quarto, ao lado da cadeira onde Irene repousava em seu avental.

Miguel não ouviu a entrada de Bento; estava sentado no chão, com o rosto encostado no avental, chorando e repetindo suavemente:

Mamã Ira, não vás embora, não quero perderte de novo, por favor! Quero que fiques comigo sempre, mamã Ira!

O toque do telefone fez ambos estremecerem.

Chamou o médico, a voz cansada, sem brilho, e o coração de Bento pareceu parar.

Será tudo? Irene não suportou a operação?

Bento? É o Dr. Miguel Santos, a cirurgia foi complicada, mas acabou bem; a tua esposa aguentou.

Ela esteve à beira da morte, nunca a vi assim; parecia que alguém do céu lhe dava força nos momentos em que a vida quase se despedia.

Parabéns, ainda tem muito para viver, há razões para seguir

Obrigado, obrigado, doutor! Bento abraçou Miguel.

Vês, está tudo bem, nossa mamã Ira está viva! Que alegria te ter aqui, pequenino.

Desculpa, mas ouvi o teu pedido por mamã Ira, muito obrigado, meu querido filho!

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

— Mãe, pai, olá, vocês nos pediram para vir, o que aconteceu? — Maria e o marido Luís simplesmente invadiram o apartamento dos pais.